“Eternos namorados”? Um olhar mais profundo à luz da Teologia do Corpo

A expressão “eternos namorados” é, à primeira vista, bonita e poética. Muitas vezes usada por casais para expressar que mantêm o carinho e o afeto mesmo após anos de casamento. No entanto, à luz das catequeses de São João Paulo II, essa frase não pode ser tomada como expressão plena da realidade do matrimônio cristão, pois o namoro e o matrimônio, embora tenham naturezas similares, exigem compromissos radicalmente distintos.

O NAMORO É PREPARAÇÃO; O MATRIMÔNIO É ENTREGA TOTAL

O namoro é um tempo de descoberta e intenção, onde o casal busca conhecer-se, fortalecer laços e discernir a possibilidade de uma entrega mais profunda. Ainda que envolva amor sincero, não exige a totalidade do dom de si, como ensina João Paulo II:

O amor verdadeiro se realiza através do dom sincero de si mesmo.”
(Catequese de 09/01/1980)

O namorado pode ser atencioso, afetuoso, até sonhar com o futuro. Mas não se compromete a dar a vida pelo outro, como o esposo é chamado a fazer. Por isso, o namoro é importante, mas não pode durar para sempre.

O namoro foi feito para acabar — ou acaba seu ciclo naturalmente, quando o casal percebe que não está pronto para o dom total, ou “acaba” em casamento, quando amadurece em vocação e sacramento. O que não faz sentido é querer manter o namoro indefinidamente, sem avançar para a entrega plena.

NO MATRIMÔNIO, O AMOR SE TRANSFORMA EM VOCAÇÃO E CRUZ

No sacramento do matrimônio, o amor passa do plano da intenção ao da decisão definitiva. É o lugar onde o amor assume forma de aliança, sacrifício e fidelidade incondicional. É aqui que a hermenêutica do dom (a lógica da entrega total e recíproca) encontra seu verdadeiro cumprimento.

João Paulo II insiste:

O corpo, em sua verdade esponsal, exprime o dom da pessoa. Esse dom realiza-se plenamente apenas quando se torna definitivo.”
(Catequese de 05/09/1984)

Ou seja, no matrimônio, o amor não é apenas ternura ou companhia: é doação total, irrevogável, até a cruz se for preciso.

POR QUE NÃO SOMOS “ETERNOS NAMORADOS”?

A afirmação “somos eternos namorados” pode parecer romântica, mas minimiza a beleza e a exigência do matrimônio. Porque:

  • Namorados podem desistir a qualquer momento.
  • Namorados nem sempre prometem fidelidade até a morte.
  • Namorados ainda não vivem a comunhão plena dos corpos e da vida.
  • E, como já afirmado, namoro foi feito para acabar — ou rompe-se, ou se consuma no casamento.

Aplicar a linguagem do namoro ao casamento pode empobrecer a grandeza da entrega que o matrimônio exige. Pode sugerir que o casamento deva manter-se em uma etapa imatura do amor, ainda centrada no afeto e na idealização, sem alcançar a maturidade da decisão e do sacrifício.

Ao contrário:

  • Os esposos selam uma aliança indissolúvel.
  • Assumem publicamente a decisão de amar com sacrifício e maturidade.
  • Tornam-se imagem viva do amor de Cristo pela Igreja, que se entrega até a cruz (cf. Ef 5,25).

O matrimônio… só pode ser entendido à luz do amor que se dá sem reservas.”
(Catequese de 06/06/1984)

O NAMORO É BELO, MAS O MATRIMÔNIO É SUBLIME

Isso não quer dizer que o matrimônio deva perder a leveza, a ternura e a alegria — aspectos muitas vezes associados ao namoro. Mas significa que ele é mais do que namoro: é vocação, missão, cruz e ressurreição.

Chamar o casamento de “eterno namoro” pode, ainda que sem intenção, desprezar o valor sacrificial e maduro do amor esponsal, que João Paulo II tanto exalta em suas catequeses.

MAIS DO QUE “ETERNOS NAMORADOS” — ESPOSOS NO DOM TOTAL DE SI

A beleza do matrimônio cristão não está em manter a aparência de um namoro sem fim, mas em viver o amor com profundidade, maturidade e entrega real. O verdadeiro esposo não é apenas alguém apaixonado — é alguém disposto a morrer por sua esposa, como Cristo morreu pela Igreja.

Por isso, mais do que “eternos namorados”, os casais cristãos são chamados a ser:

Testemunhas de um amor que é dom total, fiel, indissolúvel e fecundo — imagem viva do próprio Deus.”
(Catequese de 23/01/1980)


Thiago Damião
12 de Junho de 2025