Uma resposta à crítica de Luke Timothy Johnson sobre a “desencorporada” Teologia do Corpo de João Paulo II

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Por Christopher West

Eu descobri a teologia do corpo (TdC) de João Paulo II no início dos anos 90. Como um católico que rejeitou os ensinamentos sobre sexualidade da Igreja porque achava-os antiquados, a TdC do Papa foi uma revolução para mim. Ela abriu meus olhos para a beleza e o esplendor de uma autêntica compreensão católica do sexo. Eu sabia que ela tinha o potencial para mudar a Igreja e o mundo – se as pessoas estivessem simplesmente aptas (e dispostas) a “absorver” o que o Papa dizia.

Eu também sabia que eu passaria o resto da minha vida estudando a TdC e compartilhando-a com o mundo. Agora eu viajo nacional e internacionalmente palestrando sobre a TdC de João Paulo II. Onde quer que eu fale, eu vejo vidas serem transformadas por esta mensagem. Quando os ensinamentos do Papa são proclamados como boas novas que são, os cegos recuperam a visão, e os cativos são libertados.

Sim, a TdC já começou o que está sendo chamado de contra-revolução sexual. Mas, infelizmente, a julgar por seu artigo “A Disembodied ‘Theology of the Body’” – Uma ‘Teologia do Corpo’ Desencorporada – (Commonweal, 26 de janeiro de 2001, págs. 11-17) é uma revolução que Luke Timothy Johnson não compreende, ou para a qual ele não está pronto, ou a qual ele não deseja.

Prepare-se, Luke Tiomthy Johnson! Ela está se difundindo! E nada pode pará-la! É como a revolução que trouxe a queda do comunismo. Ela se inicia lentamente, silenciosamente, nos bastidores dos corações humanos – corações que estejam abertos para ouvir a verdade que este Papa Polonês proclama sobre a pessoa humana. Então ela se expande e se difunde de coração em coração reunindo uma grande multidão que vislumbra sua verdadeira dignidade e não irá descansar até que as correntes das ideologias desumanizadas (política, sexual, ou qualquer outra) sejam quebradas.

Johnson divide sua crítica à TdC em três tópicos: Observações Preliminares; O Quê o Papa Omite; e Revisitando a Humanae Vitae. Eu irei seguir o caminho de Johnson e dividir minha resposta ao seu artigo nos mesmos três tópicos, com alguns sub-tópicos adicionais.

OBSERVAÇÕES PRELIMINARES

A primeira coisa que identifiquei ao ler o artigo de Johnson é que ele simplesmente não penetrou no projeto do Papa. Para qualquer pessoa para a qual o conteúdo da TdC seja familiar, os comentários de Johnson são como uma pedra lisa saltando sobre a superfície de um profundo lago, mas nunca “se afundando”.

Ele se gaba te ter “dedicado um tempo considerável (e tão consciente quanto pôde) lendo as 423 páginas da coletânea de conferências”. Admitidamente, isto é um feito. Poucos têm tempo para dedicar-se a essas densas audiências. Portanto eu lhe dou crédito por isso. Mas, em termos leigos, ele simplesmente não “pegou” a coisa.

A Necessidade de Uma Mudança de Paradigma

A TdC nos chama a um olhar mais profundo para dentro de nossos próprios corações, a um olhar para nossas feridas e cicatrizes do passado, para nossos desejos desordenados do passado. Se formos capazes de fazê-lo, descobriremos que o plano original de Deus ao criar-nos homem e mulher continua “ecoando” dentro de nós. Vislumbrando aquela “visão original”, quase podemos sentir a experiência original da integridade e liberdade corpórea – de estar nu sem sentir vergonha. E nós começamos a perceber um plano tão grandioso para nossa sexualidade, tão maravilhoso, como raramente nossos corações poderiam absorver.

Mas tirar-nos “de trás das folhas de figueira” é, por assim dizer, bem difícil. É preciso uma mudança de paradigma radical. É preciso que reconheçamos que a forma como homens e mulheres se relacionam hoje em dia – e que normalmente consideramos “normal” – é muito freqüentemente baseada na perda da graça original da nossa criação.

Nós não gostamos de qualquer tipo de mudança. Por isso, nós não gostamos de mudanças de paradigmas. Nós gostamos é da vida como a conhecemos – mesmo com seus sofrimentos e suas desilusões. Portanto nossa resposta comum é: “Não, muito obrigado”.

Se alguém aborda da TdC sem estar predisposto a deixar pra trás a “vida como ele ou ela a conhece”, tal pessoa não conseguirá obter a totalidade da revolução que a TdC proporciona. O próprio Cristo, ao falar sobre a união “em uma só carne” do matrimônio, nos chama de volta para o plano original de Deus (cf. Mt 19, Mc 10). Cristo vem nos restaurar à pureza das nossas origens (cf. C.I.C. §2336). Ele vem proclamar a boas nova aos pobres, dar visão aos cegos, e liberdade aos cativos (Lc 4).

A tragédia é que – por falta de conhecimento, de experiência ou de qualquer outra coisa – nós temos uma tendência para “justificar” nossa pobreza, nossa cegueira e nossa escravidão. E dessa forma, deixamos escapar a totalidade da boa nova do Evangelho. Da mesma forma, deixamos escapar a totalidade da revolução da TdC de João Paulo II se justificarmos a experiência comum que temos em nossos corpos e em nossa sexualidade em um mundo decaído.

Se quisermos compreender o sentido da sexualidade como Deus a criou e determinou, precisamos penetrar nas experiências vividas pelo primeiro homem e pela primeira mulher antes do pecado ter distorcido sua relação. Este é o presente da TdC. João Paulo II, se estivermos dispostos a ir com ele, nos tira detrás das folhas de figueira e nos capacita a contemplar o plano original de Deus para a sexualidade com claridade e discernimento sem precedentes.

De Qual Experiência Nós Estamos Falando?

Uma das principais críticas de Johnson sobre a TdC é que João Paulo II permanece “no nível da abstração” e “parece nunca olhar para a real experiência humana”. Eu considero isso totalmente irônico uma vez que a principal crítica apontada contra a TdC pelos tomistas modernos é que João Paulo II (apesar de seu fundamento permanecer tomista) faz um apelo muitíssimo explícito à experiência humana. Surpresa!

Johnson também afirma que “pronunciamentos solenes são feitos com base na exegese textual, e não na experiência de vida”. Eu considero isso duplamente irônico, uma vez que o Papa tomou fontes sérias dentre vários estudiosos bíblicos na tentativa de vincular a revelação bíblica e a experiência humana.

João Paulo II afirma em sua própria defesa: “Na interpretação da revelação sobre o homem, e especialmente sobre o corpo, precisamos, por razões compreensíveis, recorrer à experiência, uma vez que o homem corpóreo é percebido por nós principalmente pela experiência” (TdC, 26/09/1979). Na segunda nota de rodapé deste mesmo discurso, João Paulo insiste que nós temos um direito de falar sobre a relação entre a experiência e a revelação. Sem isso, nós somente ponderamos “considerações abstratas ao invés do homem como um sujeito vivente”.

Mas de qual “experiência humana” estamos falando? Johnson está falando sobre as “sujas, grosseiras, inadequadas, atrativas, casuais e, sim, tolas” experiências do corpo e da sexualidade. Que fino! Nós todos podemos nos referir a tais experiências e aprender com elas. E penso que Johnson está certo em dizer que a sensualidade “está mais para matéria de humor do que de solenidade”. (Eu me lembrei agora da quantidade de “católicos devotos” que vieram às minhas palestras ou ouviram meus áudio-tapes e se sentiram ofendidos por meu próprio “senso mundano de humor-corporal”. Minha resposta? Relaxa um pouquinho.)

João Paulo está falando de experiências do corpo e da sexualidade muito mais profundas do que podemos ver na superfície. Se seguirmos aquelas experiências “sujas, grosseiras e inadequadas” do corpo de volta até suas origens, descobrimos o lado extraordinário do ordinário (cf. TdC, 12/12/1979). Mas para chegarmos lá, precisamos de alguma forma atravessar o limiar das falhas que herdamos. Assim, e somente assim, seremos capazes de ter uma visão ampla de tudo o que o projeto da TdC envolve.

O Problema Principal

Este é o principal problema da avaliação de Johnson sobre a TdC. Ele nunca atravessa aquele limiar. Ele nunca faz a mudança de paradigma. Ele avalia o que o Papa está dizendo enquanto permanece com o pensamento imerso na “sombra” de uma visão anormal e decaída do corpo e da sexualidade, visão esta que ele parece preferir justificar, enxergar como normal.

É trágico que mesmo um brilhante estudioso bíblico como Johnson não deixe que o dom da redenção o anime totalmente e transforme sua visão da sexualidade. Que esperança temos quando percebemos, como João Paulo enfatiza, que o coração é mais profundo do que as distorções da luxúria, e Cristo “reativa aquela herança mais profunda, e lhe dá poder real na vida do homem” (TdC, 29/10/1980).

Johnson propõe a questão: “Uma ‘teologia do corpo’ genuína não deveria começar com uma postura de atenção receptiva ao corpo, e aprendendo com ele?”. João Paulo responderia: “Absolutamente, sim”. Mas o ponto de partida para aprender com nossos corpos é a revelação de Deus, e a experiência do homem e da mulher antes do pecado. Johnson, por sua vez, usa como ponto de partida a experiência do homem e da mulher já afetados pelo pecado, e aparentemente “empacados” por ele.

Desta perspectiva, parece para Johnson que o Santo Padre observa a sexualidade humana “com um telescópio, de um planeta distante”. Trancado em sua visão decaída e incapaz de atravessar o limiar de volta “às origens”, Johnson não consegue ligar-se ao que o Papa está dizendo. Ele não ouviu, em seu próprio coração, aqueles “ecos” da experiência original do corpo. Assim, o efeito da análise de João Paulo para Johnson “é algo como um pôr-do-sol pintado sem ser visto”.

A ironia aqui é estranha. É Johnson quem está oferecendo uma análise e uma crítica de algo que ele não consegue enxergar. Johnson é, de fato, o homem cego dizendo ao Papa, um homem com visão, que ele não sabe o que está falando; Johnson não consegue enxergar a experiência original do corpo, mas o papa consegue, e enxerga. Assim, o efeito da análise de Johnson sobre a TdC é, na verdade, “algo como um pôr-do-sol pintado sem ser visto”.

Leitura Apressada

Johson alega que o Papa “minimiza as contradições internas manifestas ao longo das conferências. Por exemplo”, ele diz, “em 1º de outubro de 1980, o Papa declara que um marido não pode ser culpado de ‘adultério em seu coração’ por sua mulher, mas uma semana depois, na conferência de 8 de outubro, ele afirma com segurança que mesmo os maridos podem pecar dessa forma”.

Entretanto, Johnson interpreta totalmente mal o que o Papa está dizendo em 1º de outubro de 1980. João Paulo apresenta a típica interpretação das palavras de Cristo sobre o adultério no Sermão da Montanha – de que estas palavras não se aplicam à forma como um homem olha para sua própria mulher. O Santo Padre mesmo admite que esta interpretação “possui todas as características de uma objetiva correção e precisão”.

Mas ele imediatamente acrescenta que permanece “boa margem para dúvidas” sobre se esta interpretação está correta. Em outras palavras, ao contrário da alegação de Johnson, o Papa não tem culpa da distorção de uma semana para a outra. Em 1º de outubro, ele simplesmente mencionou a interpretação que ele iria refutar no dia 8 de outubro. Isso deveria estar bem claro para qualquer leitor que estivesse tentando compreender a linha de raciocínio do Papa.

Johnson conclui que há sérias contradições internas ao longo das audiências sobre a TdC. Eu gostaria de encorajá-lo a fazer uma nova leitura da TdC – uma leitura justa – e perguntá-lo, então, se ele faria a mesma alegação. Eu li a totalidade das audiências da TdC provavelmente sete ou oito vezes com intensa investigação e estudo, e nunca me deparei com nenhuma das “manifestas contradições internas” alegadas por Johnson.

Aqui está um outro indício de que Johnson tenha feito uma leitura apressada das audiências. Johnson critica João Paulo repetidamente usando a frase “teologia do corpo” mas não examinando as implicações de outras incorporações além da sexualidade. Johnson então cita alguns exemplos desta carência no projeto de João Paulo, tais como a disposição de posses materiais, nossas relações com o ambiente, e o sofrimento.

Johnson corretamente enxerga as implicações da teologia do corpo para estas outras áreas da vida. E se tivesse prestado mais atenção às suas leituras das audiências, ele teria enxergado que João Paulo é o primeiro a admití-las. O Papa esclarece isso inteiramente nos breves comentários de seu pronunciamento final, dizendo que o escopo de seu projeto foi simplesmente refletir sobre a redenção do corpo no que se aplica à sacramentalidade do matrimônio.

De fato”, o Santo Padre enfatiza, “nós precisamos imediatamente observar que o termo ‘teologia do corpo’ vai muito além do conteúdo das reflexões que fizemos. Estas reflexões não incluem vários problemas que, a respeito de seus objetos, pertencem à teologia do corpo (como, por exemplo, o problema do sofrimento e da morte, tão importante na mensagem bíblica). Nós precisamos deixar isso bem claro”, diz o Papa (TdC, 28/11/1984).

E preciso acrescentar que João Paulo passou o tempo restante de seu pontificado aplicando sua teologia do corpo àqueles outros temas tratados em suas numerosas cartas apostólicas e encíclicas (ver em particular suas encíclicas sociais, Laborem ExercensSollicitudo Rei SocialisCentisimus Annus, e sua Carta Apostólica Sobre o Sentido Cristão do Sofrimento Humano, Salvifici Doloris).

O QUE LUKE TIMOTHY JOHNSON OMITE

Tese de João Paulo II

A omissão mais patente na crítica de Johnson à TdC é a tese do projeto do Papa. Ele nunca a menciona. Ele nunca a resume. Ele sequer discute os principais temas da TdC. Enquanto Johnson parece feliz em afirmar que a TdC do Papa “é fundamentalmente inadequada para a questão que ela levanta”, ele nunca levanta a questão que a TdC levanta.

Johnson diz que a TdC “simplesmente não trata sobre o que mais deveria ser tratado em uma teologia do corpo. Por causa de sua insuficiência teológica”, ele continua, “o ensinamento do Papa não responde adequadamente às inquietações daqueles que procuram uma compreensão cristã do corpo e da sexualidade humana…”.

Mas isto leva a uma questão que Johnson nunca responde. O que é uma teologia do corpo? O que é uma compreensão cristã do corpo e da sexualidade humana? Ao contrário do que Johnson afirma, o Papa responde a essas questões – com riqueza de detalhes e com profunda inspiração.

Nós nos deparamos com a declaração desta tese de João Paulo em sua audiência de 20 de fevereiro de 1980. “O corpo, de fato, e somente ele”, diz o Papa, “é capaz de tornar visível o que é invisível: o espiritual e divino. Ele foi criado para refletir na realidade visível do mundo, o mistério invisível escondido em Deus desde os tempos imemoriáveis, e ser assim um sinal deste mistério”.

O corpo é sacramental, revelador do mistério da criação e do mistério do Criador. De acordo com o Santo Padre, o corpo humano – através da realidade da diferença sexual e nosso chamado à união sexual – possui uma “linguagem” inscrita por Deus que proclama seu próprio mistério infinito e torna tal mistério presente, visível, experimentável em nosso mundo.

O que é este mistério escondido em Deus desde toda a eternidade? É o mistério do plano de Deus para unir todas as coisas em Cristo (Ef 1,10). Resumidamente (como se fosse possível resumir Deus…), é o Amor e a Vida Trinitária de Deus, e seu maravilhoso plano para que nós participemos nesse Amor e nessa Vida através de Cristo, como membros da Igreja.

É isto que o “grande mistério” da união “em uma só carne” simboliza e revela – o “grande mistério” da união entre Cristo e a Igreja (cf. Ef 5,31-32). E é isso que João Paulo quer dizer, fundamentalmente, ao falar sobre uma teologia do corpo.

Isso não significa que Deus seja sexual. Mas significa que nossa sexualidade revela algo do mistério da vida íntima de Deus e Seu plano para conceder que participemos da natureza divina (2Pe 1,4).

Uma teologia do corpo, neste sentido, é de difícil absorção para muitas pessoas. Ela é quase sempre grandiosa demais. Como algo tão “mundano” quando o corpo poderia ser o meio de revelação de algo tão celestial? Mas tudo isso vêm à luz na incorporação do próprio Deus: o Verbo feito carne. E, como Cristo diz, isto é algo que precisamos absorver – literalmente – se quisermos mesmo ter vida em nós (Jo 6,53).

Como João Paulo afirma: “Através do fato de que o Verbo de Deus se fez carne, o corpo entrou na teologia… pela porta da frente” (TdC, 02/04/1980). Cristo, portanto, é o foco de qualquer teologia do corpo autêntica. Cristo é o foco de uma compreensão cristã do corpo e da sexualidade. Por isso é Cristo – em seu corpo, e através do seu corpo, entregue por nós – quem revela completamente o mistério do Pai em seu amor, e revela completamente o homem para si mesmo (cf. Gaudium et Spes, n. 22).

Amai-vos uns aos outros como eu vos tenho amado” (Jo 15,12). Este é o resumo do Evangelho. Este é o verdadeiro significado da vida. E, de acordo com João Paulo II, este chamado a amar como Deus ama é revelado para nós “desde o princípio” através do que João Paulo II chama de “sentido nupcial do corpo”. Por isso, João Paulo pode dizer que se vivermos de acordo com o sentido nupcial do corpo, nós realizamos o verdadeiro sentido de nosso ser e de nossa existência (TdC, 16/01/1980).

Moralidade sexual, portanto, diz respeito a falar a linguagem do amor de Deus através dos nossos corpos. João Paulo mesmo fala sobre o “profetismo do corpo”. O corpo é “profético” porque proclama a verdade sobre Deus. Ou, ao menos, destina-se a proclamar a verdade sobre Deus.

Esta é uma visão da sexualidade estonteantemente bela e digna. Mesmo assim, nossa humanidade decaída tende a resistir a ela. Assumi-la implica também assumir a demanda que ela coloca em nós. Quer dizer que nós jamais poderemos falar a “linguagem dos nossos corpos” de forma a contradizer o sentido sacramental dos nossos corpos. Isto faria de nós “falsos profetas”. O pecado sexual consiste exatamente nisso.

Uma teologia do corpo cristocêntrica possui algumas implicações óbvias para o comportamento sexual. A Igreja não é simplesmente obcecada com questões genitais. Ela se preocupa com a proteção do “grande mistério” do Amor Criativo e Redentor revelado pelo “grande mistério” da união nupcial. Parece-me que Johnson evita completamente a tese de João Paulo sobre a sacramentalidade do corpo porque ele não gosta de encarar o “para onde isso leva”.

O Desenvolvimento Comovente de João Paulo II

Johnson critica o Papa por não prestar atenção o bastante à razão primeira pela qual nós fomos criados à imagem de Deus como homens e mulheres. Embora seja verdade que João Paulo gasta mais tempo esmiuçando a segunda razão da criação, Johnson não consegue reconhecer o comovente desenvolvimento de idéia que o Papa faz em sua TdC, a respeito de como nós refletimos a imagem de Deus.

Exposições tradicionais determinam que o homem reflete a imagem de Deus através de várias manifestações trinitárias de uma alma individual (por exemplo: memória, compreensão e desejo). Mas para João Paulo, “o homem se torna ‘imagem e semelhança’ de Deus não somente através de sua própria humanidade, mas também através da comunhão de pessoas que homem e mulher formam desde o princípio” (TdC, 14/11/1979).

Esta é uma ousada proposição teológica da parte de João Paulo. Através da sua TdC, e até mais peremptoriamente em declarações posteriores (ver, por exemplo, Mulieris Dignitatemns. 6-7 e C.I.C. §357, §1702), João Paulo traz à tona a outrora rejeitada idéia de que homem e mulher refletem a imagem de Deus “em” e “através de” sua comunhão de acordo com os ensinamentos do Magistério.

E, caso precisemos de esclarecimento, João Paulo enfatiza que desde o princípio, esta é uma comunhão encarnada, ou seja, é uma comunhão “em uma só carne”. Sim, João Paulo enxerga a união sexual como um ícone da vida íntima e do amor da Trindade. E ele vai ainda mais longe ao dizer que este “conceito Trinitário da ‘imagem de Deus’… constitui, talvez, o aspecto teológico mais profundo que poderia ser dito sobre o homem”.

É curioso que este comovente desenvolvimento não seja nem mesmo mencionado por Johnson. É claro que, mais uma vez, se você aceita isso, você precisa traçar algumas linhas na areia, quanto à moralidade sexual. Algumas, na verdade muitas, atitudes sexuais e ações, não refletem a imagem do amor vivificante de Deus. E homens e mulheres nunca poderiam realizar-se contradizendo a imagem na qual foram feitos.

União Mística e O Júbilo do Céu

Muito mais poderia ser dito a respeito do que Johnson omite em sua crítica à TdC, mas eu vou citar somente um pouco mais de exemplos. Johnson culpa o Papa por não perceber o quanto a energia sexual permeia uma vida de oração cristã. Contudo ele se esquece de mencionar que João Paulo descreve a verdadeira intimidade sexual como uma experiência litúrgica e até mesmo mística (cf. TdC, 04/07/1984).

Johnson afirma que João Paulo “reduz a sexualidade a ’simples transmissão da vida’”. No entanto, ele mantém silêncio sobre o tão penetrante tópico do Papa, de que “o corpo humano… não é somente uma fonte de fecundidade e procriação…, mas compreende bem ‘desde o princípio’ o atributo ‘nupcial’, isto é, a capacidade de expressar amor” (TdC, 16/01/1980). Em outra parte, João Paulo diz que se a única razão pela qual um casal está fazendo sexo é para transmitir a vida, eles podem estar correndo sério risco de estarem usando um ao outro, ao invés de amando um ao outro (cf. Love & Responsibility, p. 233). É lamentável, mas parece que Johnson está mais interessado em reforçar estereótipos do que em esclarecer o que João Paulo realmente ensina.

Além disso, Johnson afirma que o Papa possui pouca ou nenhuma apreciação pelo gozo e pelo prazer sexual. Entretanto ele se esquece de mencionar o fato de que João Paulo descreve a “beatífica experiência” da união conjugal como um antegozo dos júbilos celestes (cf. TdC, 16/12/1981 e 13/01/1982). Em Love & Responsability, Wojtyla levantou mais do que algumas sobrancelhas por causa de sua detalhada discussão sobre a responsabilidade dos maridos – além do autêntico amor por sua esposa – de garantir que ela alcance o clímax sexual (cf. Love & Responsability, págs. 270-278). Johnson mostra sua ignorância sobre isso quando, tratando superficialmente da questão sobre João Paulo II, diz em sua declaração que, na visão do Papa, a paixão sexual “é vista princpalmente como um obstáculo para o amor autêntico”.

E como um exemplo final, Johnson afirma que a interpretação do Gênesis feita por João Paulo não sustenta as mulheres como agentes morais compartilhando da mesma dignidade que os homens. Tal afirmação demonstra o quanto Johnson interpretou profundamente mal o projeto do Papa. O Santo Padre fala sobre o sentido da solidão original, e diz que se homem e mulher não repousarem na correta fundação de sua igual dignidade como pessoas, sua unidade irá ruir. João Paulo dá muitos detalhes para demonstrar isto (cf. TdC, 07/11/1979 em particular). Além disso, um verdadeiro “elogio à feminilidade” permeia a catequese inteira do Papa (cf. TdC, 12/03/1980, 08/10/1981, 11/08/1982 e 01/09/1982).

REVISITANDO A HUMANAE VITAE

E agora chegamos ao que parece ser a verdadeira razão para as objeções de Johnson à TdC. Enquanto Johnson critica João Paulo por este engrenar todas as suas audiências no sentido de uma defesa da Humanae Vitae (HV), ele não enxerga a ironia do fato de que ele próprio engrena toda a sua crítica à TdC no sentido de sua própria rejeição à HV.

Johnson está certo em uma coisa. Ele tenta fazer o melhor que pode para desacreditar a TdC, defendendo – e deixando seus leitores defenderem – a moralidade do sexo intencionalmente esterilizado. Como João Paulo diz, a HV fornece questões que “permeiam a totalidade” de suas reflexões sobre a TdC. “Isto resulta, portanto, que [uma reflexão sobre a HV] não é artificialmente acrescentada à totalidade, mas é organicamente e homogeneamente unida a ela”. (TdC, 28/11/1984).

A afirmação de Johnson de que não há “virtualmente nada” nos discursos anteriores que fortaleça uma defesa da HV se parece com uma cortina de fumaça ruidosa. É certamente verdade que não há virtualmente nada na apresentação da TdC feita por Johnson, que fortaleça uma defesa da HV. Mas ele não iria querer incluir qualquer coisa que o fizesse (digamos, talvez, a principal tese do Papa…), iria?

De fato, a TdC coloca o ensinamento da HV na base mais certa possível – Deus – e sua revelação de que nós fomos criados à sua imagem e semelhança como homens e mulheres. Para aqueles que foram iluminados pelo Espírito Santo com a compreensão do “grande mistério” da união nupcial como um ícone da vida íntima da Trindade e um sinal sacramental da união de Cristo com a Igreja, a contracepção é simplesmente inconcebível.

Não é nenhum exagero dizer que um casal com essa compreensão, preferiria morrer mártires do que unirem-se em relação sexual contraceptiva. Contudo, aí está a seriedade da questão. Como João Paulo diz, tais casais possuem um “temor salvífico” até mesmo de “violar ou degradar o sinal do mistério divino que carregam em si mesmos…” (TdC, 14/11/1984).

Mas, é claro, eles não vivem com medo. Eles vivem a união conjugal em um nível que é místico e até mesmo litúrgico. Quando se tornam “uma só carne”, eles “completam o verdadeiro sentido de seu ser e de sua existência”, amando como Cristo ama. Portanto, eles são preenchidos com o júbilo infinito que o próprio Cristo prometeu (cf. Jo 15,11).

Insira a contracepção à linguagem do corpo e isso muda tudo. A união nupcial é destinada a proclamar o mistério da Trindade – que “Deus é uma comunhão vivificante de amor”. Entretanto, uma relação sexual voluntariamente esterilizada proclama o oposto: “Deus não é uma comunhão vivificante de amor”. A contracepção muda a “linguagem do corpo” para uma negação específica do Amor Criativo de Deus, transformando os esposos em “falsos profetas”.

A união nupcial também é destinada a ser um sinal sacramental da união de Cristo com a Igreja. Insira a contracepção a este sinal e (consciente ou inconscientemente) um casal se une num contra-sinal da união entre Cristo e a Igreja.

Se o marido pretende ser um verdadeiro símbolo de Cristo na união “numa só carne”, então ele precisa falar a linguagem de Cristo: “este é o meu corpo entregue por vós” (Lc 22,19). E se a esposa pretende ser um verdadeiro símbolo da Igreja na união “numa só carne”, então ela deve falar a linguagem da Igreja (a exemplo de Maria): “Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38).

No entanto, o ato sexual contraceptivo diz: “Este é o meu corpo, não entregue por vós”, e “Não faça-se em mim segundo a tua palavra”. Uau! Isto é uma verdadeira contradição do mistério absoluto da redenção! E é exatamente isso que João Paulo II pontua.

E numa antecipação às críticas sobre se estar sendo demasiadamente biológico, ou de que se está reduzindo as realidades espirituais a meras realidades físicas, eu respondo com aquela primeira declaração da tese de João Paulo II: “O corpo, de fato, e somente ele, é capaz de tornar visível o que é invisível: o espiritual e divino”.

Isto não é ser demasiadamente biológico, esta é a verdadeira economia da ordem sacramental. Para que os sacramentos transmitam realidades espirituais, o físico precisa simbolizar precisamente o espiritual. Trocar o símbolo físico, na verdade, invalida o sacramento. É por isso que uma relação sexual intencionalmente esterilizada jamais irá consumar um matrimônio – ela é uma contradição da verdadeira essência do “grande mistério” do sacramento.

O que nos traz à ironia do título do artigo de Johnson. Johnson e todos aqueles que aceitam a contracepção é que estão vivendo uma teologia do corpo “desencorporada”. Eles precisam, por necessidade, desencorporar o amor sexual a fim de afirmar que esterilizar intencionalmente seus corpos não tem relação alguma com o que eles estão dizendo sobre si mesmos e sobre Deus.

Johnson afirma que o que realmente importa é a comum disposição para a “abertura à vida” , e portanto nós não precisamos nos sobrecarregar com a avaliação de cada ato sexual. Será que esta mesma lógica se aplica ao juramento matrimonial de fidelidade? Será que é correto cometer adultério, ao menos uma vez? Será que o comum juramento de fidelidade de alguma maneira torna correto aquele ato individual de adultério? Para usar as próprias palavras de Johnson: “isso é simplesmente absurdo”.

Quando nós sobrescrevemos a linguagem divina escrita em nossos corpos com a contracepção, nós falamos contra o “grande mistério” da vida e do amor de Deus que nossos corpos proclamam. Nós blasfemamos. E nunca é correto blasfemar. Nem ao menos uma vez.

CONCLUSÃO

A TdC de João Paulo faz algumas contundentes afirmações sobre o sentido da vida, o sentido do sexo, e o sentido da contracepção. Contundentes é pouco. Estas afirmações abalam a agulha da escala Richter. É inquietante – e alarmantemente evidente – perceber o quão casualmente Johnson lança-as para longe, em favor das camisinhas e diafragmas. Ele simplesmente não sabe o que faz.

Se João Paulo está certo, então a contracepção jamais pode ser a solução para nossos problemas, mas somente o início de um terrível declínio para a humanidade. Quando falamos sobre uma mulher estressada com os seis filhos que já possui, ou sobre a disseminação da AIDS na África, um retorno ao “grande mistério” do plano de Deus para a vida e para o amor que está estampada em nossos corpos, e é revelado através deles, é a única solução real para os problemas que encaramos.

Johnson está certo ao reconhecer que milhões de africanos estão escravizados por uma pandemia sexual. E também há milhões de pessoas em outras partes do mundo, incluindo aqui, no nosso bom e velho EUA, escravizadas por essa pandemia. Mas não é a própria AIDS quem escraviza. A tirania aqui aparece na forma de uma ideologia sexual que tende a nos divorciar, nós, homens e mulheres, do “grande mistério” do plano de Deus para admitir-nos na participação em sua própria Vida e seu Amor.

Pois bem, a quem exatamente interessa separar-nos da Vida e do Amor de Deus? Quem é o escravizador aqui? Como a Senhora Igreja poderia perguntar: “Poderia ser… Satanás?”. Se João Paulo está certo, aqueles que discordam da HV estão (inconscientemente, mas não menos efetivamente) concordando com o velho plano do demônio para divorciar-nos do amor nupcial de Deus.

Dê camisinhas para as pessoas, e você as manterá algemadas. Dê a elas o “grande mistério” do plano de Deus para a vida e para o amor, como proclamado por João Paulo em sua TdC, e você as libertará. Você dará a elas o caminho para a completa realização dos mais profundos desejos do coração humano. Você mudará o mundo.

É por isso que George Weigel descreve a TdC de João Paulo como “uma espécie de bomba-relógio teológica preparada para explodir com conseqüências dramáticas, em algum momento do terceiro milênio da Igreja” (Witness to Hope, pág. 343). Johnson pergunta: “Será que Weigel está certo? Será que um avanço teológico de tão singular importância passou batido pra nós?”.

Ah, sim, passou batido. Mas por quê? Johnson é um cara brilhante, respeitado por muitos. Mas, como muitos, quando ele fala sobre sexualidade, ele está imbuído de uma sabedoria “secular”, condenada a desaparecer.

João Paulo II comunica uma sabedoria secreta, escondida em Deus desde toda a eternidade e destinada para a nossa glorificação após o início dos tempos. Ele a comunica em palavras não ensinadas por homens, mas pelo Espírito. O homem não-espiritual não consegue compreender a mensagem do Papa. Ela parece tola para ele porque sua mente não está iluminada pelo Espírito.

Parafrasear São Paulo não seria somente inteligente. Seria adequado (cf. 1Cor 2). A TdC de João Paulo nos leva ao coração do “grande mistério” do amor apaixonado de Deus para com a humanidade. Somente o Espírito da Verdade alcança a profundidade deste “grande mistério”. E, de acordo com João Paulo, este “‘grande mistério’, que consiste na Igreja e humanidade em Cristo, não pode existir de forma alheia ao ‘grande mistério’ expressado na união [entre homem e mulher] ‘em uma só carne’” (Carta às Famílias, n. 19).

Assim como foi o Espírito Santo quem falou através dos profetas, é o mesmo Espírito Santo quem fala através do marido e da mulher no profetismo do corpo. Cada vez que um marido e sua mulher se tornam “uma só carne”, eles são chamados a abrirem-se ao Espírito da Verdade, que conhece e proclama este “grande mistério” – o Espírito Santo que é o Senhor e Doador da Vida.

Aqueles que aproximam sua união do Senhor e Doador da Vida, aproximam-se do conhecimento do “grande mistério”. Não me surpreende que Johnson não tenha “captado” isso. Aqueles que são inclinados a justificar a contracepção não conseguem “captar” isso. Mas somente através de suas próprias ações que eles podem se aproximar do “grande mistério”.

Será que Johnson realmente entende o que significa sua determinação em justificar a contracepção? Se João Paulo está certo, isto demonstra uma preferência pelo prazer momentâneo do orgasmo esterilizado, em detrimento da oportunidade de participar da vida íntima da Trindade. Má escolha.

Numa escolha como essa, quem se importaria com os sacrifícios exigidos? Eu escolheria a Trindade. E se Johnson realmente compreendesse a teologia do corpo de João Paulo II, acredito que ele também escolheria.

Tradução e revisão: Fabrício L. Ribeiro

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