O Celibato por amor do Reino e a realização plena da sexualidade humana

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Por Christopher West

Porque há eunucos que o são desde o ventre de suas mães, há eunucos tornados tais pelas mãos dos homens e há eunucos que a si mesmos se fizeram eunucos por amor do Reino dos céus. Quem puder compreender, compreenda.” (Mt 19,12)

Um eunuco é alguém incapaz de ter relações sexuais. Assim, quando Cristo fala sobre eunucos desde o nascimento, ele está se referindo a pessoas que são incapazes da união sexual em decorrência de algum problema de nascença. Quando ele fala sobre aqueles que se tornaram eunucos pelas mãos de homens, ele provavelmente está se referindo àquelas tristes almas que caíram sob a lâmina da castração. Mas o que é um eunuco por amor ao Reino?

Coloque-se nos sapatos (ou sandálias) de algum dos descendentes de Abraão que tenha ouvido Cristo expressar estas palavras. Você soubia e compreendia desde a sua juventude que a promessa de Deus a seu pai na fé foi de torná-lo extremamente fértil, torná-lo pai de uma multidão de nações (Gn 17,2-6). De fato, cada vez que Deus estabeleceu uma aliança com seu povo, assim como foi com Adão (Gn 1,28), Noé (Gn 9,1), Jacó (Gn 35,10-12), ou Moisés (Lv 26,9), Deus os ordenou que fossem “férteis e se multiplicassem”.

O Reino de Deus seria estabelecido pela multidão dos descendentes de Abraão. De fato, o messias veio da linhagem de Abraão. Por isso, aqueles que não podem se relacionar sexualmente (isto é, eunucos), eram vistos como amaldiçoados por Deus, e até mesmo excluídos do “Reino”.

Todavia este Jesus está dizendo que alguns homens e mulheres perfeitamente capacitados para a união sexual podem, na verdade, escolherem se abster da união sexual durante suas vidas inteiras especificamente por causa do Reino dos céus. O QUÊ?!

As palavras de Cristo marcam uma virada decisiva na revelação de Deus. É muito difícil para os filhos e filhas de Abraão compreenderem tal decisão. Na verdade, muitos dos seguidores de Jesus ao longo da história também acharam a vocação do celibato difícil de compreender. Alguns, de fato, como Cristo parecia saber, não estariam aptos a “recebê-lo” enfim.

Matrimônio, Sexo e Celibato Estão Inter-relacionados

João Paulo II oferece-nos uma revigorada perspectiva sobre o significado do celibato pelo Reino em sua série de audiências gerais conhecidas como a “teologia do corpo” (TdC). Ele demonstra que, longe de desvalorizar a sexualidade e o matrimônio, o verdadeiro celibato cristão na verdade aponta para sua realização última. De fato, nós simplesmente não podemos compreender o sentido cristão do sexo e do matrimônio a menos que compreendamos o sentido cristão do celibato.

Matrimônio, sexo e a vocação do celibato estão muito mais inter-relacionados do que poderíamos pensar a princípio. Eles são também interdependentes. Quando cada um recebe a estima e o respeito devidos, o delicado equilíbrio entre eles é mantido.

Por outro lado, se algum dos três (matrimônio, sexo ou celibato) é desvalorizado, supervalorizado ou, ainda, desrespeitado, os outros inevitavelmente sofrem. Não é coincidência, por exemplo, que a revolução sexual traga, além de um surpreendente aumento do número de divórcios, também um surpreendente declínio no número de vocações para o sacerdócio e para a vida religiosa. Também não é nenhuma coincidência que equívocos históricos sobre a vocação celibatária tenham levado a uma depreciação do sexo e do matrimônio.

Todos esses erros se originam da falha em equilibrar a tensão do paradoxo. Dizer que o celibato demonstra a satisfação plena da sexualidade não é uma contradição de termos. Isto é um paradoxo. Há algo que tortura a mente ao tentar reconciliar os (aparentemente) irreconciliáveis pólos do paradoxo. Portanto, para evitar o desconforto nós focamos num aspecto de uma verdade e acabamos por negar os outros.

Mas é precisamente pela insistente pressão da tensão do paradoxo que nós descobrimos a plena verdade. Nós precisamos encontrar nosso lar nessa tensão. Somente assim nós poderemos compreender devidamente a profunda inter-relação existente entre matrimônio, sexo e a vocação celibatária. Vamos pressionar.

O Reino, a Ressurreição e o Matrimônio

No capítulo 22 do Evangelho de Mateus (veja também Mc 12 e Lc 20), os saduceus, um grupo de judeus que não acreditavam na ressurreição dos mortos, vêm até Jesus com um enredo com o qual eles acreditaram que poderiam encurralar Jesus para que ele negasse a ressurreição também. Um homem possuía uma esposa e morreu. Um de seus irmãos a desposaram-na para para dar a seu falecido irmão uma prole, mas ele morreu também. Isto aconteceu de novo, e de novo, até que sete irmãos tivessem todos se casado com a mesma mulher, sucessivamente. Os saduceus então perguntaram a Cristo de quem ela seria esposa na ressurreição.

Cristo respondeu: “Errais não compreendendo as Escrituras nem o poder de Deus. Na ressurreição, os homens e mulheres não se casarão, e nem se darão em casamento…” (v. 29-30).

Para muitos, este ensinamento de Cristo soa amargo. Por quê? Porque nós não compreendemos nem as Escrituras e nem o poder de Deus. Se compreendêssemos, nos regozijaríamos nessas palavras. A instrução de Cristo não é uma desvalorização do matrimônio; pelo contrário, ela aponta para o propósito e sentido últimos deste maravilhoso sacramento.

O matrimônio nesta vida tem a função de prefigurar o céu onde, por toda a eternidade, nós celebraremos “as núpcias do Cordeiro” (Ap 19,7), o casamento de Cristo com sua Igreja. Este é o mais profundo desejo do coração humano – viver na eterna glória da comunhão com o próprio Deus. Por mais maravilhoso que o matrimônio e a intimidade conjugal possam ser nesta vida, é somente um sinal, um antegozo, um sacramento do que virá. O matrimônio terreno é simplesmente preparação para o matrimônio celeste.

É assim com todos os sacramentos. Eles nos preparam para o céu. Não há sacramentos no céu, não porque eles simplesmente acabarão, mas porque todos eles estarão realizados. Homens e mulheres não mais precisarão de sinais para apontá-los para o céu quando eles já estiverem lá no céu. Pense nisso como as placas indicativas de uma estrada. Se você estiver dirigindo em direção a São Paulo, você não vai mais precisar de placas indicando pra que lado fica São Paulo quando você já tiver chegado lá.

Os esposos às vezes questionam se isso significa que eles não ficarão juntos no céu. É claro que ficarão, se ambos aceitarem a proposta de casamento de Cristo, e viverem em fidelidade a Ele nesta vida. De fato, cada membro da raça humana que aceita o convite para a festa das núpcias celestes estará na mais íntima comunhão possível com todos os outros.

É a isto que chamamos de “comunhão dos santos”. Como o Catecismo diz, esta “será a realização última da unidade do gênero humano, querida por Deus desde a criação. …Os que estiverem unidos a Cristo formarão a comunidade dos remidos, ‘a cidade santa’ de Deus, ‘a Noiva, a esposa do Cordeiro’” (C.I.C., §1045).

Usando a imagem esponsal como uma analogia, nós podemos dizer que o plano de Deus desde toda a eternidade é “se casar” conosco (cf. Os 2,18). E este plano eterno foi prefigurado e revelado “desde o princípio” pela nossa criação como machos e fêmeas e nosso chamado para nos tornarmos “uma só carne”. O corpo humano possui um “sentido nupcial”, de acordo com João Paulo II, porque ele proclama e revela o plano eterno de amor de Deus – seu plano para a união nupcial entre homem e mulher e, de forma análoga, entre Cristo e a Igreja.

Como São Paulo diz, citando o Gênesis: “Por esta razão um homem deve deixar seu pai e sua mãe, e unir-se a sua esposa, e os dois se tornarão uma só carne. Este é um grande mistério,eu quero dizer em relação a Cristo e a Igreja(Ef 5,31-32).

Cristo deixou seu Pai no céu. Ele deixou a casa de sua mãe na Terra – para dar seu corpo para sua Noiva, e assim nós pudemos nos tornar “uma só carne” com ele e nos reerguemos para a vida da Trindade por toda a eternidade.

Como João Paulo diz, isto significa que “o matrimônio e a própria procriação não determinam definitivamente o sentido original e fundamental de ser um corpo ou de ser, como um corpo, macho e fêmea. O matrimônio e a procriação simplesmente dão uma realidade concreta a este sentido nas dimensões da história” (TdC, 13/01/1982). Assim como as “dimensões da história” são plenamente realizadas, assim também será o “sentido nupcial do corpo” plenamente realizado não somente pela união de um homem e uma mulher, mas na comunhão de todos os homens e mulheres unidos pela visão de Deus face a face (cf. TdC, 09/12/1981).

O Sentido Nupcial do Celibato

Somente tendo em vista esta realidade celeste nós podemos compreender corretamente a vocação do celibato como Cristo a desejou. Cristo não chama alguns de seus seguidores a abraçar o celibado por causa do celibato, mas “por amor do Reino”. O Reino é precisamenteo matrimônio celeste. Em resumo, aqueles que escolhem o celibato estão “pulando” o sacramento, em antecipação à coisa real.

Homens e mulheres celibatários caminham além das dimensões da história – enquanto continuam vivendo dentro das dimensões da história – e de forma surpreendente declaram ao mundo que o Reino de Deus está aqui (Mt 12,28). O celibato cristão, portanto, não é uma rejeição da sexualidade e do casamento. É participação na verdade e no significado plenos da sexualidade e do casamento.

Ambas as vocações, de formas particulares, são a satisfação do chamado ao “amor nupcial” revelado através dos nossos corpos. Como João Paulo II diz: “No fundamento do mesmo sentido nupcial do ser como um corpo, macho ou fêmea, aí pode ser formado o amor que compromete o homem com o casamento por toda a sua vida, mas aí pode também ser formado o amor que compromete o homem com uma vida de continência por amor do Reino dos céus” (TdC, 28/04/1982).

Nós não podemos fugir ao chamado da nossa sexualidade. Cada homem é chamado a ser ambos: um marido e um pai; cada mulher é chamada a ser ambas: uma esposa e uma mãe – ou através do casamento, ou através da vocação celibatária. Em certo sentido, homens e mulheres celibatários se tornam “ícones” da Igreja; seu noivo é Cristo. E ambos dão à luz muitos filhos espirituais.

Assim, os termos noivo e noiva, pai (padre) e mãe (madre), irmão (frade) e irmã (freira), são aplicáveis ao matrimônio, mas também ao celibato. Ambas as vocações são indispensáveis na construção da família de Deus. As vocações se complementam, e uma demonstra o significado da outra. O matrimônio revela o caráter nupcial do celibato, e o celibato revela que o propósito último do matrimônio é preparar-nos para o céu.

Celibato: o “Maior” Chamado?

A história testemunhou algumas graves distorções daquele ensinamento de São Paulo quando este diz que aquele que se casa “faz bem”, mas aquele que não se casa “faz melhor” (1Cor 7,38). Isto leva alguns a ver o matrimônio como uma vocação de “segunda classe”, para aqueles que não conseguem “lidar” com o celibado. Isto também solidifica as suspeitas errôneas de certas pessoas de que o sexo é inerentemente sujo, e somente aqueles que se abstêm dele podem ser verdadeiramente “santos”.

Tais erros levaram João Paulo II a firmemente afirmar: “A ’superioridade’ da continência sobre o matrimônio na autêntica Tradição da Igreja nunca significou menosprezo do matrimônio ou desdém quanto ao seu valor essencial. Ela não significa qualquer mudança que seja em direção ao maniqueísmo” (TdC, 07/04/1982). (Maniqueísmo é uma antiga heresia que vê as coisas do corpo como más, colocanto toda a ênfase nas realidades espirituais.)

O celibato é “melhor” ou “maior” que o matrimônio no sentido em que o céu é melhor ou maior que a Terra. O celibato, diferentemente do matrimônio, não é um sacramento do matrimônio celeste aqui na Terra. O celibato é um sinal da vida além dos sacramentos, quando nós estaremos unidos com Deus diretamente através do “Matrimônio do Cordeiro”.

De fato, eu acho um tanto infeliz o fato de definir esta vocação baseado no que ela implica em “desistir” em vez de definí-la em termos do que ela implica em “abraçar”. Uma boa parte das confusões poderiam ser evitadas se nós descrevêssemos a vocação celibatária como o “matrimônio celeste”, por exemplo.

É claro que poucos dos que escolhem seguir a vocação do celibato poderiam dizer que vivem o “céu na terra” todos os dias de suas vidas. O celibato antecede um grande bem, e isso exige sacrifício. Isso exige um sofrimento frutífero “por amor do Reino”.

Aqui se torna claro que a Igreja não mantém a vocação celibatária em tão grande consideração por acreditar que o sexo seja algo sujo. Ela mantém o celibato em tão grande consideração precisamente porque ela tem na mais alta consideração justamente aquilo que é sacrificado por amor ao Reino – a expressão sexual genital.

Se o sexo fosse algo sujo e dessacralizado, oferecê-lo como um dom a Deus seria um ato de sacrilégio (nós todos sabemos que não há nenhum mérito em abster-se do pecado na Quaresma, certo?). Mas, uma vez que o sexo é um dos mais preciosos tesouros que Deus deu à humanidade, fazer dele um dom, em retribuição a Deus, é uma das mais genuínas expressões de ação de graças (eucharistia) por um dom tão grande. O outro está recebendo-o das mãos de Deus e vivendo-o como a expressão da aliança conjugal.

Todos são chamados para uma vida de santidade pela resposta ao chamado ao “amor nupcial” estampado em seu corpo. Mas nem todos são chamados da mesma forma. “Cada um tem de Deus um dom particular: uns este, outros aquele” (1Cor 7,7).

Cada pessoa deve responder ao dom que recebeu. Se alguém é chamado para o celibato, então ele não deve escolher o matrimônio. Se alguém é chamado para o matrimônio, então ele não deve escolher o celibato. A oração é importante para ajudar a discernir a vocação.

Celibato: Testemunho de Liberdade

A vocação celibatária também proporciona um testemunho muito necessário em nossos mundo saturado de sexo, para a realidade da liberdade humana. As próprias palavras de Cristo, “alguns se fazem eunucos a si mesmos”, demonstra o caráter voluntário desta vocação. Não é algo a que as pessoas são forçadas pela Igreja. É um dom livremente dado por Deus e livremente escolhido por alguns de seus seguidores.

Por quê as pessoas esterilizam ou castram seus animais de estimação? Porque os animais não podem dizer não ao seu impulso para acasalarem-se. E ao contrário do que as típicas novelas poderiam nos fazer acreditar, nós podemos.

Eis uma das principais diferenças entre animais e seres humanos – o dom e a responsabilidade da liberdade. Nós não somos compelidos pelo instinto. Nós podemos determinar nossas próprias ações. Nós podemos dizer “sim” a um determinado comportamento, ou nós podemos dizer “não”. Se não pudermos dizer não, então não somos livres.

A sociedade tem muito a dizer sobre “liberdade sexual”. Mas liberdade sexual, no senso popular, consiste na licença para praticar o sexo sem nunca ter que dizer não. Isto não é liberdade sexual. Isso é ser escravo da libido.

O homem ou mulher que escolhe abrir mão da expressão sexual genital “por amor do Reino” demonstra que ele ou ela não está escravizado(a) por uma libido incontrolável, mas é verdadeiramente livre – livre para amar a Deus e para amar aos outros em um dom de si mesmo comovente, e sem reservas. E devo acrescentar que este é um dom de si mesmocorporalsexual. e, nesse sentido,

Anjos não podem ser celibatários. Eles não possuem corpos. Eles não são seres sexuais. De fato, de acordo com João Paulo II, o verdadeiro impulso da vocação do celibato, como aquela do matrimônio cristão, é um desejo de viver a verdade da sexualidade, redimida e purificada em Cristo.

Deus nos deu o desejo sexual “no princípio”, de acordo com João Paulo, para que ele fosse a verdadeira força para amar à imagem de Deus através do sincero dom de si mesmo. É por isso que ele chama o impulso sexual de “um vetor de aspiração com o qual nossa completa existência se desenvolve e se aperfeiçoa” (Amor e Responsabilidade, pág. 46). De acordo com a revelação cristã, existem duas formas de atender a este chamado fundamental ao amor: matrimônio e celibato (cf. Familiaris Consortio, n. 11).

É claro que, devido ao pecado, o impulso sexual não surge em nós simplesmente como o desejo de se fazer dom sincero de si mesmo. Todos nós – solteiros, casados, celibatários consagrados – precisamos lutar contra as muitas desordens e confusões da concupiscência. Mas nossa esperança é revigorada quando percebemos, como João Paulo enfatiza, que o coração é mais profundo que a concupiscência, e Cristo “reativa aquela herança mais profunda e concede a ela poder real na vida do homem” (TdC, 29/10/1980).

Isso significa que através da progressiva conversão a Cristo, nós podemos experimentar uma “real e profunda vitória” sobre a concupiscência (TdC, 22/10/1980). Se nos abrirmos à obra da redenção, o Espírito Santo na verdade impregna nosso desejo sexual “com tudo que é nobre e belo”, com “o supremo valor que é o amor” (TdC, 29/10/1980). Através deste progressivo processo de transformação nós redescobrimos o plano original de Deus para o desejo sexual e somos habilitados para pôr tal desejo a serviço do marital ou celibatário dom de si mesmo.

Novamente e sempre precisamos enfatizar: a vocação celibatária não é uma rejeição da sexualidade. Além disso, celibatários consagrados não são condenados a viver uma vida de isolamento do sexo oposto. Se alguém aborda a questão desta maneira, de acordo com João Paulo II, este alguém não está vivendo de acordo com as palavras de Cristo (cf. TdC, 28/04/1982).

A vida humana, por sua natureza, é ‘coeduativa’” (TdC, 08/10/1980). Com isso o Santo Padre quis dizer que os sexos precisam um do outro, e eles precisam aprender a amarem-se um ao outro adequadamente para que a vida humana mantenha sua devida dignidade e equilíbrio. Isto é uma verdade tanto para celibatários consagrados quanto para pessoas casadas.

Homens e mulheres tais como Francisco e Clara de Assis, João da Cruz e Tereza d’Ávila, e Francisco de Sales e Joana de Chantal, todos estes tiveram saudáveis, santas, íntimas ecelibatárias relações um com o outro. Sim, isso é perfeitamente possível. E que testemunhas de liberdade estes santos são!

Se pensamos que isto é impossível – se nós imediatamente suspeitamos de “negócios suspeitos” acontecendo em tais relacionamentos – então nós podemos nos contar entre aqueles a quem João Paulo II rotula de “os mestres da suspeição”. Os mestres da suspeição não acreditam no dom e no poder da redenção. Uma vez que a escravidão à concupiscência é tudo que eles conhecem em seus próprios corações, eles a projetam para todos os outros.

Mas como o Papa insiste: “O homem não pode tirar o coração de um estado de contínua e irreversível suspeita devido às manifestações da concupiscência da carne e da libido… A redenção é uma verdade, uma realidade, em nome da qual o homem precisa se sentir chamado, e chamado com eficácia”. De fato, ele diz: “o sentido da vida é a antítese da interpretação ‘de suspeita’” (TdC, 29/10/1980).

O Celibado é Sobrenatural

São precisamente estes “mestres da suspeição” que sustentam que o celibato é o culpado pelos vários problemas sexuais do clero amplamente noticiados em nossos jornais. “O celibato é simplesmente anti-natural”, eles dizem.

Em certo sentido estas pessoas estão certas em dizer que o celibato não é natural. Como se diz, e como Cristo revela, ele é sobrenatural. É o celibato por amor do Reino. Ao chamar alguns para renunciar ao chamado natural para o matrimônio, Cristo estabeleceu um modo de vida inteiramente novo e, assim, demonstrou o poder da Cruz para transformar vidas.

Para aqueles que estão “presos” em uma visão decaída do impulso sexual sem qualquer conceito da liberdade para a qual nós somos chamados em Cristo, a idéia de uma longa vida celibatária é completamente sem sentido. Mas para aqueles que experimentaram a transformação do seu desejo sexual em Cristo, a idéia de fazer um completo dom de sua sexualidade para Deus não somente se torna uma possibilidade, ela se torna muito atrativa.

O celibato é uma graça, um dom. Uma minoria dos seguidores de Cristo são chamados a abraçar este dom. Mas, para aqueles a quem este dom é confiado, a eles também é concedida a graça para que sejam fiéis aos seus votos, assim como as pessoas casadas recebem a graça de serem fiéis aos seus.

Em ambas as vocações, as pessoas podem rejeitar, e acontece de rejeitarem, esta graça, e violar seus votos. Certamente na maioria das típicas dioceses católicas, há uma necessidade por uma maior franqueza a respeito das feridas sexuais e pelo desenvolvimento e promoção de ministros que tragam a cura de Cristo para os que precisam, incluindo padres. Mas a solução para a infidelidade conjugal e celibatária não é ceder à fraqueza humana e redefinir a natureza dos compromissos. A solução é apontar para a Cruz como fonte da graça que ela é, uma fonte da qual nós podemos beber gratuitamente e receber poder real para viver e amar da forma como fomos chamados para viver e amar.

Além disso, as estatísticas de desvio de conduta sexual entre os padres celibatários não é maior do que a dos clérigos casados em outras denominações cristãs. Simplesmente não há evidências de que permitir ao clero o casamento resolveria ou mesmo aliviaria este problema.

Há também um perigoso equívoco implícito na idéia de que o casamento seria a solução do escândalo sexual de alguns padres. O casamento não é uma uma “válvula de escape legítima” para desejos sexuais desordenados. Pessoas casadas, não menos que as celibatárias, precisam experimentar a redenção do seu desejo sexual em Cristo. Somente assim eles poderão se amar um ao outro à imagem de Deus. Se um homem assumisse um casamento com profundas desordens sexuais, ele estaria condenando sua esposa a uma vida não como pessoa, mas como objeto sexual.

O celibato não causa desvios sexuais. É o pecado que faz isso. O ato de se casar não cura, simplesmente, as desordens sexuais. Cristo cura. A única forma de se acabar com os pecados de escândalo sexuais (cometidos por padres ou outros) é as pessoas experimentarem a redenção de sua sexualidade em Cristo.

Conclusão

Em um mundo que perdeu o céu de vista, aqueles que são “eunucos por amor ao Reino” resplandecem para nós como um testemunho brilhante do destino último da vida humana. Eles testemunham aquilo que Santo Agostinho disse muito bem: “Tu nos fizeste para Ti, ó Deus, e nosso coração não descansa até que nos repousemos em Ti”.

Como aprendemos com a Teologia do Corpo de João Paulo II, o desejo sexual e o sentido nupcial do corpo são, no final das contas, plenamente realizados nas núpcias eternas do céu. Desta perspectiva se torna claro que toda a confusão sexual do nosso mundo é simplesmente o desejo humano pelo Céu, porém, um desejo desesperado, frenético.

Somente “desembaraçando” esta confusão sexual nós poderemos começar a compreender o plano de Deus para a união nupcial como uma revelação e prefiguração da visão beatífica. Somente então conseguiremos enxergar que o celibato pelo Reino, longe de desvalorizar a sexualidade, antecipa e participa em sua plena realização final.

Nota do autor: Eu ainda acrescento o seguinte:

O Celibato Não é Intrínseco ao Sacerdócio

Ao contrário da opinião de muitos, o celibato não é essencial para um sacerdócio válido. É somente uma disciplina sustentada na Igreja do Ocidente a fim de obedecer mais fielmente ao exemplo de Cristo, o qual foi, ele próprio, um celibatário.

Nós freqüentemente esquecemos, aqui no Ocidente, que há muitas Igrejas Católicas no rito oriental (ou seja, Igrejas do Oriente em plena comunhão com o Papa) que possuem padres casados. Eles não são uma categoria de padres católicos inferior aos padres de rito romano, os quais vivem um sacerdócio celibatário. Além disso, em alguns casos, padres casados de outras denominações (anglicanos, por exemplo) que se convertem ao catolicismo, podem ser ordenados como padres no rito romano, mesmo sendo casados.

Alguns recorrem às vantagens práticas de um clero celibatário para explicar a prática da Igreja Ocidental. Muitos pastores protestantes ou padres casados podem confirmar as dificuldades de se tentar pastorear seu rebanho e cuidar de suas famílias ao mesmo tempo. Como São Paulo diz, o celibato permite que a pessoa não fique “dividida” em seu serviço, mas seja capaz de dedicar-se inteiramente ao serviço da Igreja (1Cor 7,32-34). E ainda, sem questionar o valor prático do celibato, há uma razão profunda e teológica para a disciplina do celibato para o clero ocidental.

Cristo não se casou com uma mulher específica, porque ele veio para se casar com a humanidade inteira. A Igreja é sua eterna Noiva. Padres ordenados se tornam um sacramento de Cristo. Eles tornam o amor do Noivo Celeste eficazmente presente para a Igreja, particularmente no sacrifício Eucarístico. Agindo na pessoa de Cristo, os padres também “se casam” com a Igreja.

Este importante simbolismo é melhor compreendido quando um padre também não é casado com uma mulher em particular. Mas, mais uma vez, isto não é essencial. A Igreja poderia muito bem mudar a disciplina do rito latino em algum momento do futuro e isto não alteraria a natureza essencial da ordenação sacerdotal.

Um apontamento que ainda precisa ser feito é que, se a Igreja em algum momento mudar a disciplina do celibato para o clero ocidental, aqueles que já forem ordenados não poderiam se casar. O sacramento da Sagrada Ordem imprime uma marca indelével na alma do homem que o recebe. Esta marca consagra um homem ao serviço de Cristo e da Igreja na única forma que precede sobre a consagração do matrimônio.

Um homem que já for casado pode receber o sacramento da Sagrada Ordem (no rito latino eles são limitados ao diaconato), mas um homem solteiro que receber o sacramento da Sagrada Ordem não pode se casar depois. Mesmo um diácono permanente, se fica viúvo, não pode se casar novamente.

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Nota do tradutor: Eu achei que seria importante mencionar algo que o Christopher omitiu em seu texto: quando se fala em celibato, estamos falando de uma disciplina que a Igreja de rito romano impõe aos sacerdotes. Tal disciplina é absolutamente diferente do voto de castidade que é feito pelos religiosos e religiosas das diversas Ordens que existem na Igreja, como os agostinianos, franciscanos, beneditinos, dominicanos, clarissas, carmelitas, etc. Não obstante, muita gente confunde as duas coisas (celibato e voto de castidade).A diferença essencial entre um e outro é que, enquanto o celibato é uma disciplina inerente à função sacerdotal (e que, portanto, pode ser revogada pela Igreja), o voto de castidade é um voto pessoal, uma promessa íntima de sacrifício por causa do Reino. Por isso, mesmo na hipótese de que a Igreja, em algum momento, mude a disciplina do celibato sacerdotal, para os religiosos e religiosas os votos de castidade continuariam valendo. É suficientemente óbvio que isso jamais poderia mudar, pois o casamento é totalmente incompatível com a vida monástica, conventual, etc.

Tradução e adaptação: Fabrício L. Ribeiro

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