Humanae Vitae: uma inspiração para João Paulo II

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Por Christopher West

Este 25 de julho marca o 40º aniversário de um dos mais controversos documentos na história papal : a encíclica Humanae Vitae, que reafirmou o ensino tradicional cristão sobre a imoralidade de contracepção. Como os entusiastas da TOB (Theology Of the Body – Teologia do Corpo) sabem, este é o documento que inspirou o Cardeal Wojtyla a começar a escrever a sua “obra-prima”. Tal como ele próprio diz, sua TOB constitui “um extenso comentário sobre a doutrina contida precisamente na Humanae Vitae” (TOB 133:2). Para questões que partem da Humanae Vitae “que passam, de alguma forma, pelo conjunto das nossas reflexões… Isso é importante do ponto de vista da estrutura e método” (TOB 133:4).

Você deve ter notado que eu disse acima “ensino tradicional Cristão” sobre contracepção. Só nos últimos 50-70 anos isso tem sido encarado principalmente como uma questão “católica”. Até 1930, todos os órgãos cristãos eram uníssonos em sua condenação de qualquer tentativa de esterilizar o ato conjugal. Naquele ano, a Igreja Anglicana rompeu com mais de mil e novecentos anos de ininterrupto ensinamento cristão. Quando a pílula estreou no início dos anos 1960’s, a Igreja Católica conservou sozinha aquilo que em breves 30 anos chegou a ser visto como uma arcaica, até mesmo absurda posição.

Quando Margaret Sanger e seus seguidores começaram a incentivar a contracepção, no início do século XX, sábios homens e mulheres – e certamente não apenas católicos – previram que separar sexo de procriação acabaria por levar ao caos social e sexual. A atual cultura de adultério, divórcio, sexo pré-matrimonial, DST’s, filhos fora do casamento, aborto, crianças sem pais, homossexualismo, pobreza, criminalidade, drogas, e violência foi tudo previsto.

Qual é a ligação de tudo isso com a contracepção? Se você já ouviu minhas palestras, provavelmente você já me ouviu falar sobre isso antes. Mas é importante que todos nós compreendamos como a contracepção tem contribuído para a confusão em que estamos vivendo hoje. Devemos ser capazes de explicar isto a qualquer um que pede a razão pela qual a Igreja é tão “rígida” sobre contracepção.

Embora hoje em dia o caos social seja certamente complexo, a Igreja demonstra a “lógica interna” da influência da contracepção. Muitas vezes as pessoas são tentadas a fazer coisas que não devem fazer. A dissuasão da natureza dentro de si próprio e no seio da sociedade, contribui para refrear essas tentações e manter a ordem. Por exemplo, o que aconteceria com a taxa de criminalidade em uma determinada sociedade se de repente abrissem as portas de todas as suas prisões?

Aplique a mesma lógica ao sexo. As pessoas ao longo da história têm sido tentadas a cometer adultério. Isto não é novidade. No entanto, uma das principais dissuasões de sucumbir à tentação foi o medo da gravidez. O que aconteceria se esta dissuasão natural fosse suprimida? Como a história demonstra, as taxas de adultério subiriam como foguetes. Qual é uma das principais causas de divórcio? Adultério. Aplique a mesma lógica às relações sexuais pré-conjugais. Tal comportamento tem, na verdade, subido como foguete. Relações sexuais pré-conjugais, como uma espécie de “adultério por antecipação”, é também um primeiro indicador de futura ruptura matrimonial.

Há um agravante. Uma vez que nenhum método contraceptivo é 100% eficaz, um aumento no número de adultérios e de relações pré-maritais conduzirá inevitavelmente a um aumento da “gravidez indesejada”. O que vem depois? Tantas pessoas pensam que a contracepção é a solução para o problema do aborto. Dê uma olhada mais profunda e você verá que isso é como atirar gasolina em um incêndio para tentar extinguí-lo. Em última análise, existe apenas um motivo pelo qual temos o aborto – porque os homens e mulheres estão tendo relações sexuais sem estarem “abertos à vida”. Se esta mentalidade está na raiz do aborto, a contracepção nada faz além de fomentar e incitar esta mentalidade.

Nem todo mundo vai recorrer ao aborto, evidentemente. Alguns irão escolher adoção. Outras mães (maioria) irão criar essas crianças por si próprias. Daí o número de crianças que crescem sem um pai (o que já foi aumentado pelo aumento do número de divórcios) será agravada. E de uma cultura de crianças “sem-pais” inevitavelmente surge uma cultura da pobreza, da criminalidade, das drogas, e da violência. Todos esses males sociais se compõem exponencialmente de geração em geração, uma vez que crianças “sem-pais” são também muito mais suscetíveis de terem filhos fora de um casamento, e mesmo se se casarem, muitos se divorciam.

E o que dizer sobre a homossexualidade? A nossa cultura é impotente para resistir à “agenda gay” porque nós já aceitamos a sua premissa básica com a contracepção: a redução do sexo à simples troca de prazer. Quando a abertura à vida já não é uma parte intrínseca da equação sexual, porque é que o intercurso sexual tem que ser com o sexo oposto?

A nossa situação cultural pode parecer sombria. Mas somos pessoas de grande esperança. Podemos mesmo dizer: oh! feliz culpa da revolução (contraceptiva) sexual, que ganhou para nós tão grande teologia do corpo. A grandeza da TOB, é claro, está pura e simplesmente no fato de que ela nos põe em contato com o Verbo feito carne. É aí que reside a nossa esperança: em Cristo o noivo e sua promessa de que ele está em nós.

Tradução e revisão: Fabrício L. Ribeiro

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