129ª. A redenção do corpo e a sacramentalidade do matrimônio – 28/11/1984

em Capítulo VI | 0

1. O conjunto das catequeses que iniciei há quatro anos e que hoje concluo pode ser compreendido sob o título “O amor humano no plano divino” ou, com mais precisão: “A redenção do corpo e a sacramentalidade do matrimônio”. Elas dividem-se em duas partes.

A primeira parte é dedicada à análise das palavras de Cristo, que se mostram adequadas para abrir o tema presente. Estas palavras foram analisadas a fundo na globalidade do texto evangélico: e, em seguimento da plurianual reflexão, estabeleceu-se pôr em relevo os três textos, que são submetidos à análise precisamente na primeira parte das catequeses.

Temos, antes de tudo, o texto em que se refere Cristo “ao princípio” no colóquio com os fariseus sobre a unidade e indissolubilidade do matrimônioi. Prosseguindo, temos as palavras pronunciadas por Cristo no Sermão da Montanha sobre a “concupiscência” como “adultério cometido no coração”ii. Por fim, temos as palavras transmitidas por todos os sinóticos, em que Cristo faz referência à ressurreição dos corpos no “outro mundo”iii.

A segunda parte da catequese foi dedicada à análise do sacramento com base na Epístola aos Efésiosiv, que se refere ao “princípio” bíblico do matrimônio expresso nas palavras do Livro do Gênesis: “… o homem deixará o pai e a mãe para se unir à sua mulher; e os dois serão uma só carne”v.

As catequeses da primeira e da segunda parte servem-se repetidamente do termo “teologia do corpo“. Este, em certo sentido, é um termo “de trabalho”. A introdução do termo e do conceito de “teologia do corpo” era necessária para fundar o tema: “A redenção do corpo e a sacramentalidade do matrimônio” numa base mais ampla. É preciso, de fato, observar já que o termo “teologia do corpo” ultrapassa amplamente o conteúdo das reflexões feitas. Estas reflexões não compreendem multíplices problemas que, em referência ao seu objeto, pertencem à teologia do corpo (como, por exemplo, o problema do sofrimento e da morte, tão relevante na mensagem bíblica). É preciso dizê-lo claramente. Todavia, é preciso também reconhecer de modo explícito que as reflexões sobre o tema: “A redenção do corpo e a sacramentalidade do matrimônio” podem ser desenvolvidas corretamente, partindo do momento em que a luz da Revelação toca a realidade do corpo humano (ou seja, na base da “teologia do corpo”). Isto é confirmado, além do mais, pelas palavras do Livro do Gênesis: “os dois serão uma só carne”, palavras que originária e tematicamente estão na base do nosso assunto.

2. As reflexões sobre o sacramento do matrimônio foram conduzidas na consideração das duas dimensões essenciais deste sacramento (como de todo os outros), isto é, a dimensão da Aliança e a dimensão do sinal.

Através destas duas dimensões, chegamos continuamente às reflexões sobre a teologia do corpo, unidas às palavras de continência. A estas reflexões chegamos também empreendendo, no fim de todo este ciclo de catequeses, a análise da Encíclica Humanae vitae.

A doutrina contida neste documento do ensinamento contemporâneo da Igreja mantém-se em relação orgânica quer com a sacramentalidade do matrimônio quer com toda a problemática bíblica da teologia do corpo, centralizada nas “palavras-chaves” de Cristo. Em certo sentido, pode-se até dizer que todas as reflexões que tratam da “redenção do corpo e da sacramentalidade do matrimônio”, parecem constituir um amplo comentário à doutrina contida precisamente na Encíclica Humanae vitae.

Tal comentário parece bastante necessário. A Encíclica, de fato, ao dar a resposta a alguns interrogativos de hoje no âmbito da moral conjugal e familiar, ao mesmo tempo suscitou também outros interrogativos, como sabemos, de natureza biomédica. Mas, também (e antes de tudo), eles são de natureza teológica; pertencem àquele âmbito da antropologia e da teologia, que denominamos “teologia do corpo”.

As reflexões feitas consistem em enfrentar os interrogativos nascidos em relação à Encíclica Humanae vitae. A reação que a Encíclica suscitou confirma a importância e a dificuldade destes interrogativos. Eles são reafirmados, também, pelos ulteriores enunciados de Paulo VI, onde ele salientava a possibilidade de aprofundar a exposição da verdade cristã neste setor.

Reafirmou-o, além disso, a exortação Familiaris consortio, fruto do Sínodo dos Bispos de 1980: De muneribus familiae christianae. O documento contém um apelo, dirigido particularmente aos teólogos, a elaborar de modo mais completo os aspectos bíblicos e personalísticos da doutrina contida na Humanae vitae.

Colher os interrogativos suscitados pela Encíclica significa formulá-los e, ao mesmo tempo, procurar-lhes a resposta. A doutrina contida na Familiaris consortio requer que, seja a formulação dos interrogativos, seja a busca de uma adequada resposta, se concentrem nos aspectos bíblicos e personalísticos. Tal doutrina indica também a orientação de desenvolvimento da teologia do corpo, a direção do desenvolvimento e, portanto, também a direção do seu progressivo completar-se e aprofundar-se.

3. A análise dos aspectos bíblicos fala do modo de radicar a doutrina proclamada pela Igreja contemporânea na Revelação. Isto é importante para o desenvolvimento da teologia. O desenvolvimento, ou seja, o progresso na teologia realiza-se, de fato, através de um contínuo retomar o estudo daquele depósito revelado.

A radicação da doutrina proclamada pela Igreja em toda a Tradição e na mesma Revelação divina está sempre aberta aos interrogativos postos pelo homem e serve-se também dos instrumentos mais conformes à ciência moderna e à cultura de hoje. Parece que neste setor o intenso desenvolvimento da antropologia filosófica (em particular, da antropologia que está na base da ética) se encontra muito de perto com os interrogativos suscitados pela Encíclica Humanae vitae em referência à teologia e, de modo especial, à ética teológica.

A análise dos aspectos personalísticos da doutrina contida neste documento tem um significado existencial para estabelecer em que consiste o verdadeiro progresso, isto é, o desenvolvimento do homem. Existe, de fato, em toda a civilização contemporânea —especialmente na civilização ocidental— uma oculta e, ao mesmo tempo, bastante explícita tendência a medir este progresso com a medida das “coisas”, isto é, dos bens materiais.

A análise dos aspectos personalísticos da doutrina da Igreja, contida na Encíclica de Paulo VI, põe em evidência um apelo resoluto a medir o progresso do homem com a medida da “pessoa”, ou seja, daquilo que é um bem do homem como homem —que corresponde à sua essencial dignidade.

A análise dos aspectos personalísticos leva à convicção de que a Encíclica apresenta como problema fundamental o ponto de vista do autêntico desenvolvimento do homem; tal desenvolvimento mede-se, de fato, em linha de máxima, com a medida ética e não só da “técnica”.

4. As catequeses dedicadas à Encíclica Humanae vitae constituem apenas uma parte, a parte final, das que trataram da redenção do corpo e da sacramentalidade do matrimônio.

Se chamo de modo particular a atenção precisamente para estas últimas catequeses, faço-o não só porque o tema por elas tratado está mais estreitamente ligado à nossa contemporaneidade, mas sobretudo pelo fato de que dele provêm os interrogativos, que permeiam, em certo sentido, o conjunto das nossas reflexões. Resulta, assim, que esta parte final não é artificialmente acrescentada ao conjunto, mas está unida a ele de modo orgânico e homogêneo. Em certo sentido, aquela parte, que na disposição global está colocada no fim, encontra-se, ao mesmo tempo, no início deste conjunto. Isto é importante sob o ponto de vista da estrutura e do método.

Também o momento histórico parece ter o seu significado: de fato, as presentes catequeses foram iniciadas no período dos preparativos para o Sínodo dos Bispos de 1980 sobre o tema do matrimônio e da família (“De muneribus familiae christianae“), e terminam depois da publicação da exortação Familiaris consortio, que é fruto dos trabalhos deste Sínodo. É por todos sabido que o Sínodo de 1980 fez referência também à Encíclica Humanae vitae e confirmou plenamente a sua doutrina.

Todavia, o momento mais importante parece o essencial que, no conjunto das reflexões efetuadas, se pode precisar do modo seguinte: para enfrentar os interrogativos que suscita a Encíclica Humanae vitae, sobretudo em teologia, para formular tais interrogativos e lhes procurar a resposta, é preciso encontrar aquele âmbito bíblico-teológico a que se alude quando falamos de “redenção do corpo e de sacramentalidade do matrimônio”. Neste âmbito, encontram-se as respostas aos perenes interrogativos da consciência dos homens e das mulheres, e também aos difíceis interrogativos do nosso mundo contemporâneo a respeito do matrimônio e da procriação.

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i Cf. Mt 19, 8; Mc 10, 6-9.

ii Cf. Mt 5, 28.

iii Cf. Mt 22, 30; Mc 12, 25; Linguagem do corpo 20, 35.

ivEf 5, 22-33.

vGn 2, 24.

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