123ª. A espritualidade conjugal à luz da Humanae Vitae – 10/10/1984

em Capítulo VI | 0

1. Continuamos a delinear a espiritualidade conjugal à luz da Encíclica Humanae vitae.

Segundo a doutrina nela contida, em conformidade com as fontes bíblicas e com toda a tradição, o amor é —do ponto de vista subjetivo— “força“, ou seja, capacidade do espírito humano, de caráter “teológico” (ou, antes, “teologal”). Esta é, portanto, a força dada ao homem para participar daquele amor com que Deus mesmo ama no mistério da Criação e da Redenção. É aquele amor que “rejubila com a verdade”i, ou seja, em que se exprime a alegria espiritual (o “fruir” agostiniano) de todo o autêntico valor: alegria semelhante à alegria do próprio Criador, o qual no princípio considerou a sua obra “muito boa”ii.

Se as forças da concupiscência tentam afastar a “linguagem do corpo” da verdade, isto é, tentam falsificá-la, a força do amor, pelo contrário, corrobora-a sempre de novo naquela verdade, para que o mistério da redenção do corpo possa frutificar nela.

2. O mesmo amor, que torna possível e faz com que o diálogo conjugal se realize segundo a verdade plena da vida dos esposos, é, ao mesmo tempo, força, ou seja, capacidade de caráter moral orientada ativamente para a plenitude do bem e, por isto mesmo, para todo o bem verdadeiro. E, portanto, as sua tarefa consiste em salvaguardar a unidade inseparável dos “dois significados do ato conjugal”, de que trata a Encíclicaiii, quer dizer, em proteger, quer o valor da verdadeira união dos cônjuges (isto é, da comunhão pessoal), quer o da paternidade e maternidade responsáveis (na sua forma madura e digna do homem).

3. Segundo a linguagem tradicional, o amor, como “força” superior, coordena as ações das pessoas, do marido e da mulher, no âmbito dos fins do matrimônio. Embora nem a Constituição conciliar nem a Encíclica, ao enfrentarem o assunto, usem a linguagem outrora habitual, elas tratam, todavia, daquilo a que se referem as expressões tradicionais.

O amor, como força superior que o homem e a mulher recebem de Deus com a particular “consagração” do sacramento do matrimônio, comporta uma coordenação correta dos fins, segundo os quais —no ensinamento tradicional da Igreja— se constitui a ordem moral (ou, antes, “teologal e moral”) da vida dos cônjuges.

A doutrina da Constituição Gaudium et spes, como também a da Encíclica Humanae vitae, esclarecem a mesma ordem moral na referência ao amor, entendido como força superior que confere adequado conteúdo e valor aos atos conjugais segundo a verdade dos dois significados, o unitivo e o procriativo, no respeito da sua inseparabilidade.

Nesta renovada apresentação, o tradicional ensinamento sobre os fins do matrimônio (e sobre a sua hierarquia) é confirmado e, ao mesmo tempo, aprofundado sob o ponto de vista da vida interior dos cônjuges, ou seja, da espiritualidade conjugal e familiar.

4. A tarefa do amor, que é “derramado nos corações”iv dos esposos como a fundamental força espiritual do seu pacto conjugal, consiste —como se disse— em proteger quer o valor da verdadeira comunhão dos cônjuges, quer o da paternidade-maternidade verdadeiramente responsável. A força do amor —autêntica no sentido teológico e ético— exprime-se no sentido que o amor une corretamente “os dois significados do ato conjugal”, excluindo não só na teoria, mas sobretudo na prática, a “contradição” que poderia verificar-se neste campo. Tal “contradição” é o mais freqüente motivo de objeção à Encíclica Humanae vitae e ao ensinamento da Igreja. É necessária uma análise bem aprofundada, e não só teológica mas também antropológica (procuramos fazê-la em toda a presente reflexão), para demonstrar que não se deve falar aqui de “contradição”, mas apenas de “dificuldade”. Pois bem, a Encíclica mesma salienta tal “dificuldade” em várias passagens.

E esta deriva do fato de que a força do amor é inserida no homem insidiado pela concupiscência: nos sujeitos humanos, o amor embate-se com a tríplice concupiscênciav, e, em particular, com a concupiscência da carne, que deforma a verdade da “linguagem do corpo”. E, portanto, também o amor não está em condições de se realizar na verdade da “linguagem do corpo”, senão mediante o domínio sobre a concupiscência.

5. Se o elemento chave da espiritualidade dos cônjuges e dos pais —aquela essencial “força” que os cônjuges devem continuamente haurir da “consagração” sacramental— é o amor, este amor, como resulta do texto da Encíclicavi, está por sua natureza ligado à castidade que se manifesta como domínio de si, ou seja, como continência: em particular, como continência periódica. Na linguagem bíblica, a isto parece aludir o Autor da Epístola aos Efésios, quando, no seu “clássico” texto, exorta os esposos a “sujeitarem-se uns aos outros no temor de Cristo”vii.

Pode-se dizer que a Encíclica Humanae vitae constitui exatamente o desenvolvimento desta verdade bíblica sobre a espiritualidade cristã conjugal e familiar. Todavia, para o tornar ainda mais evidente é necessária uma análise mais profunda da virtude da continência e do seu particular significado para a verdade da mútua “linguagem do corpo” na convivência conjugal e (indiretamente) na ampla esfera das recíprocas relações entre o homem e a mulher.

Iniciaremos esta análise durante as seguintes reflexões das quartas-feiras.

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i1Cor 13, 6.

iiGn 1, 31.

iiiHumanae vitae, 12.

ivRm 5, 5.

v Cf. 1Jo 2, 16.

vi Cf. Humanae vitae, 20.

viiEf 5, 21.

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