122ª. A vida espiritual dos esposos – 03/10/1984

em Capítulo VI | 0

1. Referindo-nos à doutrina contida na Encíclica Humanae vitae, procuraremos delinear ulteriormente a vida espiritual dos cônjuges.

Eis as suas eminentes palavras: “A Igreja, ao mesmo tempo que ensina as exigências imprescritíveis da lei divina, anuncia a salvação e abre, com os sacramentos, os caminhos da graça, a qual faz do homem uma nova criatura, capaz de corresponder, no amor e na verdadeira liberdade, aos desígnios do Criador e Salvador e de achar suave o jugo de Cristo.

Os esposos cristãos, portanto, dóceis à sua voz, lembrem-se de que a sua vocação cristã, iniciada com o Batismo, se especificou ulteriormente e se reforçou, com o sacramento do Matrimônio. Por ele, os cônjuges são fortalecidos e como que consagrados para o cumprimento fiel dos próprios deveres e para a atuação da própria vocação para a perfeição e para o testemunho cristão próprio deles, que têm de dar frente ao mundo. Foi a eles que o Senhor confiou a missão de tornarem visível aos homens a santidade e a suavidade da lei que une o amor mútuo dos esposos com a sua cooperação com o amor de Deus, autor da vida humana”i.

2. Mostrando o mal moral do ato contraceptivo, e delineando, ao mesmo tempo, um quadro possivelmente integral da prática “honesta” da regulação da fertilidade, ou seja, da paternidade e da maternidade responsáveis, a Encíclica Humanae vitae cria as premissas que permitem traçar as grandes linhas da espiritualidade cristã da vocação e da vida conjugal, e, de igual modo, da dos pais e da família.

Pode-se, aliás, dizer que a Encíclica pressupõe a inteira tradição desta espiritualidade, a qual aprofunda as raízes nas fontes bíblicas, já antes analisadas, oferecendo a ocasião para refletir de novo sobre elas e para construir uma síntese adequada.

É conveniente recordar aqui o que foi dito sobre a relação orgânica entre a teologia do corpo e a pedagogia do corpo. Tal “teologia-pedagogia”, de fato, constitui já de per si mesma o núcleo essencial da espiritualidade conjugal. E isto é indicado também pelas frases da Encíclica acima citadas.

3. Decerto releria e interpretaria de modo errado a Encíclica Humanae vitae aquele que apenas visse nela a redução da “paternidade e da maternidade responsáveis” exclusivamente aos “ritmos biológicos de fecundidade”. O Autor da Encíclica desaprova e contesta com firmeza toda a forma de interpretação redutiva (e, em tal sentido, “parcial”), e repropõe com insistência o entendimento integral. A paternidade-maternidade responsável, entendida integralmente, não é mais que uma importante componente de toda a espiritualidade conjugal e familiar, isto é, daquela vocação de que fala o citado texto da Humanae vitae, quando afirma que os cônjuges devem atuar a “própria vocação para a perfeição”ii. É o sacramento do Matrimônio que os fortalece e como que consagra para a realizariii.

À luz da doutrina expressa na Encíclica, convém darmo-nos mais conta daquela “força corroborante” que está unida à “consagração sui generis” do sacramento do Matrimônio.

Dado que a análise da problemática ética do documento de Paulo VI era concentrada, sobretudo, na precisão da respectiva norma, o esboço da espiritualidade conjugal, que nela se encontra, pretende pôr em relevo precisamente estas “forças” que tornam possível o autêntico testemunho cristão da vida conjugal.

4. “Não pretendemos, evidentemente, esconder as dificuldades, por vezes graves inerentes à vida dos cônjuges cristãos: para eles, como para todos de resto, ‘é estreita a porta e apertado o caminho que conduz à vidaiv. Mas, a esperança desta vida, precisamente, deve iluminar o seu caminho, enquanto eles corajosamente se esforçam por viver com sabedoria, justiça e piedade no tempo presente, sabendo que a figura deste mundo passa”v.

Na Encíclica, a visão da vida conjugal é, em todas as passagens, marcada por realismo cristão e é precisamente isto que mais ajuda a alcançar aquelas “forças” que permitem formar a espiritualidade dos cônjuges e dos pais no espírito de uma autêntica pedagogia do coração e do corpo.

A própria consciência “da vida futura” abre, por assim dizer, um vasto horizonte daquelas forças que devem guiá-los pelo caminho apertadovi e conduzi-los pela porta estreitavii da vocação evangélica.

A Encíclica diz: “Envidem os esposos, pois, os esforços necessários, apoiados na fé e na esperança que ‘não desilude, porque o amor de Deus foi derramado nos nossos corações, pelo Espírito que nos foi dado'”viii.

5. Eis a “força” essencial e fundamental: o amor infundido no coração (“derramado nos corações”) pelo Espírito Santo. Em seguida, a Encíclica indica que os cônjuges devem implorar tal “força” essencial e todo o “auxílio divino” com a oração; que devem haurir a graça e o amor na fonte sempre viva da Eucaristia; que devem vencer “com perseverança humilde” as próprias faltas e os próprios pecados no sacramento da Penitência.

Estes são os meios —infalíveis e indispensáveis— para formar a espiritualidade cristã da vida conjugal e familiar. Com eles, aquela essencial e espiritualmente criativa “força” de amor chega aos corações humanos e, ao mesmo tempo, aos corpos humanos na sua subjetiva masculinidade e feminilidade. Este amor, de fato, permite estabelecer toda a convivência dos cônjuges segundo aquela “verdade do sinal“, mediante a qual é construído o matrimônio na sua dignidade sacramental, como revela o ponto central da Encíclicaix.

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iHumanae vitae, 25.

iiHumanae vitae, 25.

iii Cf. Humanae vitae, 25.

iv Cf. Mt 7, 14.

vHumanae vitae, 25.

vi Cf. Humanae vitae, 25.

vii Cf. Humanae vitae, 25.

viiiHumanae vitae, 25.

ix Cf. Humanae vitae, 12.

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