113ª. O Amor conjugal à luz da carta aos Efésios – 04/07/1984

em Capítulo V | 0

1. Referimo-nos, hoje, ao clássico texto do capítulo 5º da Epístola aos Efésios, a qual revela as fontes eternas da Aliança no amor do Pai e, ao mesmo tempo, a sua nova e definitiva instituição em Jesus Cristo.

Este texto leva-nos a uma dimensão tal da “linguagem do corpo”, que poderia ser chamada “mística”. De fato, fala do matrimônio como de um “grande mistério (“É grande este mistério”i). E, embora este mistério se realize na união esponsal de Cristo Redentor com a Igreja e da Igreja-Esposa com Cristo (“digo-vos, porém, em relação a Cristo e à Igreja”ii), embora se efetue definitivamente nas dimensões escatológicas, todavia o Autor da Epístola aos Efésios não hesita em estender a analogia da união de Cristo com a Igreja no amor esponsal delineada de modo tão “absoluto” e “escatológico”, ao sinal sacramental do pacto esponsal do homem e da mulher, os quais estão “sujeitos uns aos outros no temor de Cristo”iii. Não hesita em estender aquela mística analogia à “linguagem do corpo”, relida na verdade do amor esponsal e da união conjugal dos dois.

2. É necessário reconhecer a lógica deste texto estupendo, que liberta radicalmente o nosso modo de pensar dos elementos de maniqueísmo ou de uma consideração não personalista do corpo e, ao mesmo tempo, aproxima a “linguagem do corpo”, contida no sinal sacramental do matrimônio, da dimensão da santidade real. Os sacramentos inserem a santidade no terreno da humanidade do homem: penetram a alma e o corpo, a feminilidade e a masculinidade do sujeito pessoal, com a força da santidade. Tudo isto é expresso na língua da liturgia: exprime-se e atua-se nela.

A liturgia, a língua litúrgica, eleva o pacto conjugal do homem e da mulher, baseado na “linguagem do corpo” relida na verdade, às dimensões do “mistério”, e, ao mesmo tempo, consente que aquele pacto se realize nas citadas dimensões através da “linguagem do corpo”.

Disto fala precisamente o sinal do sacramento do matrimônio, o qual na língua litúrgica exprime um acontecimento interpessoal, repleto de intenso conteúdo pessoal, confiado aos dois “até à morte”. O sinal sacramental significa não só o “fieri” —o nascer do matrimônio—, mas constrói todo o seu “esse“, a sua duração: um e outro como realidade sagrada e sacramental, radicada na dimensão da aliança e da Graça —na dimensão da Criação e da Redenção. Deste modo, a língua litúrgica cofia a ambos, ao homem e à mulher, o amor, a fidelidade e a honestidade conjugal mediante a “linguagem do corpo”. Confia-lhes como dever todo o “sacrum” da pessoa e da comunhão das pessoas, e igualmente a sua feminilidade e masculinidade —precisamente nesta linguagem.

3. Em tal sentido, afirmamos que a língua litúrgica torna-se “linguagem do corpo”. Isto significa uma série de fatos e de deveres, que formam a “espiritualidade” do matrimônio, o seu ethos. Na vida cotidiana dos cônjuges, estes fatos tornam-se deveres, e os deveres, fatos. Estes fatos —como também os compromissos— são de natureza espiritual, todavia exprimem-se, ao mesmo tempo, com a “linguagem do corpo”.

O Autor da Epístola aos Efésios escreve a esse propósito: “… os maridos devem amar as suas mulheres, como aos seus próprios corpos…”iv (= “como a si mesmo”v), “e a mulher respeite o seu marido”vi. Ambos, de resto, “sujeitem-se uns aos outros no temor de Cristo”vii.

A “linguagem do corpo”, como continuidade ininterrupta da língua litúrgica, exprime-se não só com o fascínio e o prazer recíproco do Cântico dos Cânticos, mas também como uma profunda experiência do sacrum, que parece estar infundido na mesma masculinidade e feminilidade através da dimensão do “mysterium”: “mysterium magnum” da Epístola aos Efésios, que aprofunda as raízes precisamente no “princípio”, isto é, no mistério da criação do homem: varão e mulher à imagem de Deus, chamados desde “o princípio” a ser sinal visível do amor criativo de Deus.

4. Assim, portanto, aquele “temor de Cristo” e “respeito”, de que fala o Autor da Epístola aos Efésios, não é senão uma forma espiritualmente madura daquele fascínio recíproco: quer dizer, do homem pela feminilidade e da mulher pela masculinidade, que se revela pela primeira vez no Livro do Gênesisviii. Em seguida, o mesmo fascínio parece fluir como uma larga torrente através dos versículos do Cântico dos Cânticos para encontrar, em circunstâncias totalmente diversas, a sua concisa e concentrada expressão no Livro de Tobias.

A maturidade espiritual deste fascínio não é mais que o frutificar do dom do temor —um dos sete dons do Espírito Santo, de que falou São Paulo na Primeira Epístola aos Tessalonicensesix.

Por outro lado, a doutrina de Paulo sobre a castidade, como “vida segundo o Espírito”x, permite-nos (particularmente com base na Primeira Epístola aos Coríntios, cap. 6) interpretar aquele “respeito” em sentido carismático, isto é, como dom do Espírito Santo.

5. A Epístola aos Efésios —ao exortar os cônjuges a sujeitarem-se uns aos outros “no temor de Cristo”xi e ao induzi-los, em seguida, ao “respeito” na vida conjugal, parece salientar —em conformidade com a tradição paulina— a castidade como virtude e como dom.

Deste modo, através da virtude e ainda mais através do dom (“vida segundo o Espírito”) madura espiritualmente o recíproco fascínio da masculinidade e da feminilidade. Ambos: o homem e a mulher, afastando-se da concupiscência, encontram a justa dimensão da liberdade do dom, unida à feminilidade e à masculinidade no verdadeiro significado esponsal do corpo.

Assim, a língua litúrgica, isto é, a língua do sacramento e do “mysterium”, torna-se na sua vida e convivência “linguagem do corpo” em toda a profundidade, simplicidade e beleza até àquele momento desconhecidas.

6. Tal parece ser o significado integral do sinal sacramental do matrimônio. Naquele sinal —através da “linguagem do corpo”— o homem e a mulher vão ao encontro do grande “mysterium” para transferir a luz daquele mistério —luz de verdade e de beleza, expresso na língua litúrgica— em “linguagem do corpo”, isto é, na linguagem da prática do amor, da fidelidade e da honestidade conjugal, ou seja, no ethos radicado na “libertação do corpo”xii. Neste caminho, a vida conjugal torna-se de algum modo liturgia.

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iEf 5, 32.

iiEf 5, 32.

iiiEf 5, 21.

ivEf 5, 28.

vEf 5, 33.

viEf 5, 33.

viiEf 5, 21.

viiiGn 2, 23-25.

ix1Ts 4, 4-7.

x Cf. Rm 8, 5.

xiEf 5, 21.

xii Cf. Rm 8 23.

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