112ª. O livro de Tobias – 27/06/1984

em Capítulo V | 0

1. Ao comentar nas passadas semanas o Cântico dos Cânticos, salientei que o sinal sacramental do matrimônio se constitui na base da “linguagem do corpo”, que o homem e a mulher exprimem na verdade que lhe é própria. Sob tal aspecto, proponho-me analisar, hoje, alguns trechos do Livro de Tobias.

Na descrição do casamento de Tobias com Sara, encontra-se, além da expressão “irmã” —pelo que no amor esponsal parece estar radicada uma situação que reafirma a verdade expressão também ela análoga às do mencionado Cântico.

Como recordareis, no dueto dos esposos, o amor, que declaram um ao outro, é “forte como a morte”i. No Livro de Tobias encontramos a frase que, dizendo que ele amou Sara “e o seu coração afeiçoou-se-lhe”ii, apresenta uma situação que reafirma a verdade das palavras sobre o amor “forte como a morte”.

2. Para compreender melhor é necessário recorrer a alguns pormenores que encontram explicação no contexto do caráter específico do Livro de Tobias. Lemos nele que Sara, filha de Raguel, precedentemente já fora “dada a sete maridos”iii, mas todos tinham morrido antes de se unirem a ela. Isto acontecera por obra do espírito maligno e também o jovem Tobias tinha razão para temer morte análoga.

Assim, o amor de Tobias tinha, desde o primeiro momento, que enfrentar a prova da vida e da morte. As palavras sobre o amor “forte como a morte”, pronunciadas pelos esposos do Cântico dos Cânticos no transporte do coração, assume aqui o caráter de uma prova real. Se o amor se demonstra forte como a morte, isto acontece, sobretudo, no sentido que Tobias, e Sara juntamente com ele, vão sem hesitar para esta prova. Mas nesta prova da vida e da morte vence a vida, porque, durante a prova da primeira noite de núpcias, o amor, amparado pela oração, revela-se mais forte do que a morte.

3. Esta prova da vida e da morte tem também outro significado que nos faz compreender o amor e o matrimônio dos jovens esposos. De fato, eles, unindo-se como marido e mulher, encontram-se na situação em que as forças do bem e do mal se combatem e se medem reciprocamente. O dueto dos esposos do Cântico dos Cânticos parece não compreender de modo algum esta dimensão da realidade. Os esposos do Cântico vivem e exprimem-se num mundo ideal ou “abstrato”, em que a luta das forças objetivas entre o bem e o mal é como se não existisse. É, porventura, precisamente a força e a verdade interior do amor a atenuar a luta que se trava no homem e em volta dele?

A plenitude desta verdade e desta força própria do amor parece, todavia, ser diversa e parece tender antes para onde nos conduz a experiência do Livro de Tobias. A verdade e a força do amor manifestam-se na capacidade de colocar-se entre as forças do bem e do mal, que combatem no homem e em redor dele, porque o amor é confiante na vitória do bem e está pronto a fazer tudo para que o bem vença. Por conseguinte, a verdade do amor dos esposos do Livro de Tobias não é confirmada pelas palavras expressas pela linguagem do transporte amoroso como no Cântico dos Cânticos, mas pelas escolhas e pelos atos que assumem todo o peso da existência humana na união de ambos. A “linguagem do corpo”, aqui, parece usar as palavras das escolhas, e dos atos nascidos do amor, que vence porque ora.

4. A oração de Tobiasiv, que é, primeiro que tudo, oração de louvor e de agradecimento e, depois, de súplica, coloca a “linguagem do corpo” no terreno dos termos essenciais da teologia do corpo. É uma linguagem “objetivada”, penetrada não tanto pela força emotiva da experiência, quanto pela profundidade e gravidade da verdade da existência mesma.

Os esposos professam esta verdade juntos, em uníssono, diante do Deus da Aliança: “Deus dos nossos pais”. Pode-se dizer que sob este aspecto a “linguagem do corpo” torna-se a linguagem dos ministros do sacramento conscientes de que no pacto conjugal se exprime e se atua o mistério que tem a sua fonte em Deus mesmo. O seu pacto conjugal é, de fato, a imagem —e o primordial sacramento da Aliança de Deus com o homem, com o gênero humano— daquela aliança que tem a sua origem no Amor eterno.

Tobias e Sara terminam a sua oração com as seguintes palavras: “Permiti, pois, que eu e ela encontremos misericórdia, e juntos cheguemos a adiantada idade”v.

Pode-se admitir (em base ao contexto) que eles têm diante dos olhos a perspectiva de perseverar na comunhão até ao fim dos seus dias —perspectiva que se abre diante deles com a prova da vida e da morte, já durante a primeira noite de núpcias. Ao mesmo tempo, eles vêm com o olhar da fé a santidade desta vocação, em que —através da unidade dos dois, construída sobre a verdade recíproca da “linguagem do corpo”— devem responder à chamada de Deus mesmo, contida no mistério do Princípio. E, por isto, pedem: “Permiti, pois, que eu e ela encontremos misericórdia”.

5. Os esposos do Cântico dos Cânticos declaram mutuamente, com palavras ardentes, o seu amor humano. Os jovens esposos do Livro de Tobias pedem a Deus que saibam responder ao amor. Um e outro encontram o seu lugar no que constitui o sinal sacramental do matrimônio. Um e outro participam na formação deste sinal.

Pode-se dizer que através de um e outro a “linguagem do corpo”, relida quer na dimensão subjetiva da verdade dos corações humanos, quer na dimensão “objetiva” da verdade da vida em comunhão, torna-se a língua da liturgia.

A oração dos jovens esposos do Livro de Tobias parece, certamente, confirmá-lo de modo diverso do Cântico dos Cânticos, e também de modo que, sem dúvida, comove mais profundamente.

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iCt 8, 6.

iiTb 6, 19.

iiiTb 6, 14.

ivTb 8, 5-8.

vTb 8, 7.

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