106ª. Nas palavras do consentimento matrimonial, o sinal do “profetismo do corpo” – 19/01/1983

em Capítulo V | 0

1. Os textos dos Profetas têm grande importância par compreender o matrimônio como aliança de pessoas (à imagem da Aliança de Javé com Israel) e, em particular, para compreender a aliança sacramental do homem e da mulher na dimensão de sinal. A “linguagem do corpo” entra —como já anteriormente foi considerado— na estrutura integral do sinal sacramental, cujo sujeito precípuo é o homem, varão e mulher. As palavras do consentimento matrimonial constituem este sinal, porque nelas encontra expressão o significado esponsal do corpo na sua masculinidade e feminilidade. Tal significado é expresso, sobretudo, com as palavras: “Eu… recebo-te… como minha esposa… meu esposo”. Além disso, com estas palavras é confirmada a essencial “verdade” da linguagem do corpo e é também (pelo menos indiretamente, implicite) excluída a essencial “não-verdade“, a falsidade da linguagem do corpo. O corpo, de fato, diz a verdade através do amor, da fidelidade, da honestidade conjugais, assim como a não-verdade, ou seja, a falsidade é expressa através de tudo o que é negação do amor, da fidelidade, da honestidade conjugais. Pode-se, pois, dizer que, no momento de proferir as palavras do consentimento matrimonial, os novos esposos se põem na linha do mesmo “profetismo do corpo”, cujos porta-vozes foram os antigos Profetas. A “linguagem do corpo”, expressa pelos lábios dos ministros do matrimônio como sacramento da Igreja, institui o mesmo sinal visível da Aliança e da graça, que —remontando com a sua origem ao mistério da criação— se alimenta continuamente com a força da “redenção do corpo”, oferecida por Cristo à Igreja.

2. Segundo os textos proféticos, o corpo humano fala uma “linguagem” de que ele não é o autor. O seu autor é o homem que, como varão e mulher, esposo e esposa, relê corretamente o significado desta “linguagem”. Relê, portanto, aquele significado esponsal do corpo como integralmente inscrito na estrutura da masculinidade ou feminilidade do sujeito pessoal. Uma correta releitura “na verdade” é condição indispensável para proclamar tal verdade, ou seja, para instituir o sinal visível do matrimônio como sacramento. Os esposos proclamam precisamente esta “linguagem do corpo”, relida na verdade, como conteúdo e princípio da sua nova vida em Cristo e na Igreja. Com base no “profetismo do corpo”, os ministros do sacramento do matrimônio realizam um ato de caráter profético. Confirmam deste modo a sua participação na missão profética da Igreja, recebida de Cristo. “Profeta” é aquele que exprime com palavras humanas a verdade proveniente de Deus, aquele que profere tal verdade em lugar de Deus, no seu nome e, em certo sentido, com a sua autoridade.

3. Tudo isto se refere aos novos esposos, os quais, como ministros do sacramento do matrimônio, instituem com as palavras do consentimento matrimonial o sinal visível, proclamando a “linguagem do corpo”, relida na verdade, como conteúdo e princípio da sua nova vida em Cristo e na Igreja. Esta proclamação “profética” tem um caráter complexo. O consentimento matrimonial é, ao mesmo tempo, anúncio e causa do fato de que, dali por diante, ambos serão perante a Igreja e a sociedade marido e mulher. (Entendamos este anúncio como “indicação” no sentido comum do termo). Todavia, o consentimento matrimonial tem sobretudo o caráter de uma recíproca profissão dos novos esposos, feita diante de Deus. Basta determo-nos com atenção sobre o texto, para nos convencermos que aquela proclamação profética da linguagem do corpo, relida na verdade, é imediata e diretamente dirigida pelo “eu” ao “tu”: pelo homem à mulher e por ela a ele. Lugar central no consentimento matrimonial têm precisamente as palavras que indicam o sujeito pessoal, os pronomes “eu” e “tu”. A “linguagem do corpo”, relida na verdade do seu significado esponsal, constitui, mediante as palavras dos novos esposos a união-comunhão das pessoas. Se o consentimento matrimonial tem caráter profético, se é a proclamação da verdade proveniente de Deus, e, em certo sentido, a enunciação desta verdade no nome de Deus, isto realiza-se, sobretudo, na dimensão da comunhão interpessoal, e apenas indiretamente “diante” dos outros e “para” os outros.

4. No fundo das palavras pronunciadas pelos ministros do sacramento do matrimônio está a perene “linguagem do corpo”, a que Deus “deu início” criando o homem como varão e mulher: linguagem que foi renovada por Cristo. Esta perene “linguagem do corpo” traz em si toda a riqueza e a profundidade do mistério: da criação antes, e da redenção depois. Os esposos, realizando o sinal visível do sacramento mediante as palavras do seu consentimento matrimonial, exprimem nele a “linguagem do corpo”, com toda a profundidade do mistério da criação e da redenção (a liturgia do sacramento do matrimônio oferece a este propósito um rico contexto). Relendo de tal modo a “linguagem do corpo”, os esposos não só encerram nas palavras do consentimento matrimonial a subjetiva plenitude da profissão, indispensável para realizar o sinal próprio deste sacramento, mas chagam até, em certo sentido, às fontes mesmas, das quais aquele sinal haure todas as vezes a sua eloqüência profética e a sua força sacramental. Não é lícito esquecer que a “linguagem do corpo”, antes de ser pronunciada pelos lábios dos esposos, ministros do matrimônio como sacramento da Igreja, foi pronunciada pela palavra do Deus vivo, iniciando com o Livro do Gênesis, passando pelos Profetas da Antiga Aliança, até ao Autor da Epístola aos Efésios.

5. Usamos aqui diversas vezes a expressão “linguagem do corpo”, referindo-nos aos textos proféticos. Nestes textos, como já dissemos, o corpo humano fala uma “linguagem”, de que ele não é o autor no sentido próprio do termo. O autor é o homem —varão e mulher— que relê o verdadeiro sentido daquela “linguagem”, trazendo à luz o significado esponsal do corpo como integralmente inscrito na estrutura da masculinidade e da feminilidade do sujeito pessoal. Tal releitura “na verdade” da linguagem do corpode per si confere um caráter profético às palavras do consentimento matrimonial, por meio das quais o homem e a mulher realizam o sinal visível do matrimônio como sacramento da Igreja. Estas palavras contêm, todavia, algo mais do que uma simples releitura na verdade daquela linguagem, de que fala a feminilidade e a masculinidade dos novos esposos na sua relação recíproca: “Eu recebo-te como minha esposa —como meu esposo”. Nas palavras do consentimento matrimonial estão contidos: o propósito, a decisão e a escolha. Ambos os esposos decidem agir em conformidade com a linguagem do corpo, relida na verdade. Se o homem, varão e mulher, é o autor daquela linguagem, é-o sobretudo enquanto quer conferir, e efetivamente confere, ao seu comportamento e às suas ações o significado conforme à eloqüência relida da verdade da masculinidade e da feminilidade na recíproca relação conjugal.

6. Neste âmbito, o homem é artífice das ações que têm de per si significados definidos. É, portanto, artífice das ações e, ao mesmo tempo, autor do seu significado A totalidade daqueles significados constitui, em certo sentido, o conjunto da “linguagem do corpo”, com que os esposos decidem falar entre eles como ministros do sacramento do matrimônio. O sinal que eles realizam com as palavras do consentimento matrimonial não é um simples sinal imediato e passageiro, mas um sinal prospectivo que reproduz um efeito duradouro, isto é, o vínculo matrimonial, único e indissolúvel (“todos os dias da minha vida”, isto é, até à morte). Nesta perspectiva eles devem completar aquele sinal com o multíplice conteúdo oferecido pela comunhão conjugal e familiar das pessoas, e também com aquele conteúdo que, originado pela “linguagem do corpo”, é continuamente relido na verdade. Deste modo, a “verdade” essencial do sinal permanecerá organicamente ligada ao ethos do comportamento conjugal. Nesta verdade do sinal e, em seguida, no ethos do comportamento conjugal, insere-se prospectivamente o significado procriativo do corpo, isto é, a paternidade e a maternidade, de que tratamos precedentemente. À pergunta: “Estais dispostos a acolher com responsabilidade e amor os filhos que Deus vos quiser dar, educando-os segundo a lei de Cristo e da sua Igreja?” —o homem e a mulher respondem: “Sim”.

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