100ª. A sacramentalidade do matrimônio uno e indissolúvel – 27/10/1982

em Capítulo IV | 0

1. O texto da Epístola aos Efésiosi fala dos sacramentos da Igreja —e em particular do Batismo e da Eucaristia— mas só de modo indireto e, em certo sentido, alusivo, desenvolvendo a analogia do matrimônio em referência a Cristo e à Igreja. E, assim, lemos primeiro que Cristo, o qual “amou a Igreja e por ela Se entregou”ii, fez isto “para a santificar, purificando-a no batismo da água pela palavra da vida”iii. Trata-se, aqui, sem dúvida do sacramento do Batismo, que por instituição de Cristo é desde o início conferido àqueles que se convertem. As palavras citadas mostram com grande relevo de que modo o Batismo alcança o seu significado essencial e a sua força sacramental daquele amor esponsal do Redentor, através do qual se constitui sobretudo a sacramentalidade da Igreja mesma, sacramentum magnum. O mesmo pode-se talvez dizer também da Eucaristia, que pareceria ser indicada pelas seguintes palavras sobre o alimento do próprio corpo, que precisamente cada homem nutre e cura “como também Cristo o faz à Sua Igreja, pois somos membros do Seu corpo”iv. De fato, Cristo nutre a Igreja com o seu Corpo precisamente na Eucaristia.

2. Vê-se, todavia, que nem no primeiro nem no segundo caso podemos falar de um sacramentário amplamente desenvolvido. Não se pode falar disso nem sequer quando se trata do sacramento do matrimônio como um dos sacramentos da Igreja. A Epístola aos Efésios, exprimindo a relação esponsal de Cristo com a Igreja, permite compreender que em base a esta relação, a Igreja mesma é o “grande sacramento”, o novo sinal da Aliança e da graça, que haure as suas raízes das profundezas do Sacramento da Redenção, tal como das profundezas do sacramento da criação emergiu o matrimônio, sinal primordial da Aliança e da graça. O Autor da Epístola aos Efésios proclama que aquele sacramento primordial se realiza de um modo novo no “sacramento” de Cristo e da Igreja. Também por esta razão o Apóstolo, no mesmo texto “clássico” de Ef 5, 21-33, se dirige aos cônjuges, para que sejam “submissos uns aos outros no temor de Cristo”v e modelem a sua vida conjugal fundando-a no sacramento instituído no “princípio” pelo Criador: sacramento que encontrou a sua definitiva grandeza e santidade na aliança esponsal de graça entre Cristo e a Igreja.

3. Embora a Epístola aos Efésios não fale direta e imediatamente do matrimônio como de um dos sacramentos da Igreja, todavia a sacramentalidade do matrimônio é nela particularmente confirmada e aprofundada. No “grande sacramento” de Cristo e da Igreja os cônjuges cristãos são chamados a modelar a sua vida e a sua vocação sobre o fundamento sacramental.

4. Depois da análise do clássico texto de Ef 5, 21-33, dirigido aos cônjuges cristãos, em que Paulo lhes anuncia o “grande mistério” (sacramentum magnum) do amor esponsal de Cristo e da Igreja, é oportuno voltar àquelas significativas palavras do Evangelho, que já em precedência submetemos a análise, vendo nelas os enunciados-chaves para a teologia do corpo. Cristo pronuncia estas palavras, por assim dizer, a partir da profundidade divina da “redenção do corpo”vi. Todas estas palavras têm um significado fundamental para o homem enquanto precisamente ele é corpo —enquanto é varão e mulher. Têm um significado para o matrimônio, em que o homem e a mulher se unem de modo que os dois se tornam “uma só carne”, segundo a expressão do Livro do Gênesisvii, embora, ao mesmo tempo, as palavras de Cristo indiquem também a vocação à continência “por amor do Reino dos Céus”viii.

5. Em cada um destes caminhos, “a redenção do corpo” não é apenas uma grande expectativa daqueles que possuem as “primícias do Espírito”ix, mas também uma permanente fonte de esperança em que a criação será “libertada da servidão da corrupção para participar, livremente, da glória dos filhos de Deus”x. As palavras de Cristo pronunciadas a partir da profundidade divina do mistério da Redenção, e da “redenção do corpo”, trazem em si o fermento desta esperança: abrem-lhe a perspectiva quer na dimensão escatológica quer na dimensão da vida cotidiana. De fato, as palavras dirigidas aos ouvintes diretos são dirigidas contemporaneamente ao homem “histórico” dos vários tempos e lugares. Aquele homem, precisamente, que possui as primícias do Espírito… geme… aguardando a libertação do… corpo”xi. Nele concentra-se também a esperança “cósmica” de toda a criação, que nele, no homem, “aguarda ansiosa a revelação dos filhos de Deus”xii.

6. Cristo conversa com os fariseus, que lhe perguntam: “É permitido a um homem repudiar sua mulher por qualquer motivo?”xiii; eles interrogam-no deste modo, precisamente porque a lei atribuída a Moisés admitia a chamada “carta de divórcio”xiv. A resposta de Cristo é esta: “Não lestes que o Criador, desde o princípio, os fez homem e mulher, e disse: ‘por isso, o homem deixará o pai e a mãe, e se unirá à sua mulher; e serão os dois uma só carne?’ Portanto, já não são dois, mas uma só carne. Pois bem, o que Deus uniu, não o separe o homem”xv. Se, depois, se trata da “carta de divórcio”, Cristo responde assim: “Por causa da dureza do vosso coração, Moisés permitiu que repudiásseis as vossas mulheres; mas no princípio não foi assim. Ora, eu digo-vos: se alguém repudiar sua mulher —exceto em caso de adultério— e casar com outra, comete adultério”xvi. “Quem casar com a repudiada comete adultério”xvii.

7. O horizonte da “redenção do corpo” abre-se com estas palavras, que constituem a resposta a uma pergunta concreta de caráter jurídico-moral; abre-se, antes de tudo, pelo fato de Cristo se colocar no plano daquele sacramento primordial, que os seus interlocutores herdam de modo singular, dado que herdam também a revelação do mistério da criação, contida nos primeiros capítulos do Livro do Gênesis.

Estas palavras contêm, ao mesmo tempo, uma resposta universal, dirigida ao homem “histórico” de todos os tempos e lugares, porque são decisivas para o matrimônio e para a sua indissolubilidade; de fato, referem-se àquilo que é o homem, varão e mulher, àquilo que ele se tornou de modo irreversível pelo fato de ser criado “à imagem e semelhança de Deus”: o homem, que não deixa de o ser mesmo depois do pecado original, embora este o tenha privado da inocência original e da justiça. Cristo, que ao responder à pergunta dos fariseus, faz referência ao “princípio”, parece de tal modo salientar particularmente o fato de que Ele fala a partir da profundeza do mistério da Redenção, e da redenção do corpo. A Redenção significa, de fato, quase uma “nova criação” —significa a assunção de tudo aquilo que é criado: para exprimir na criação a plenitude de justiça, de eqüidade e de santidade, designada por Deus, e para exprimir aquela plenitude sobretudo no homem, criado como varão e mulher “à imagem de Deus”.

Na ótica das palavras de Cristo dirigidas aos fariseus sobre o que era o matrimônio “desde o princípio”, relemos também o clássico texto da Epístola aos Efésiosxviii, como testemunho da sacramentalidade do matrimônio, baseada sobre o “grande mistério” de Cristo e da Igreja.

i 5, 22-33.

ii 5, 25.

iii 5, 26.

iv 5, 29-30.

v 5, 21.

viRm 8, 23.

vii 2, 24.

viiiMt 19, 12.

ixRm 8, 23.

xRm 8, 21.

xiRm 8, 23.

xiiRm 8, 19.

xiiiMt 19, 3.

xivDt 24, 1.

xvMt 19, 4-6.

xviMt 19, 8-9.

xviiMt 5, 32.

xviii 5, 22-33.

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