98ª. O amor dos esposos encontra exemplo na dimensão do amor de Cristo pela Igreja – 13/10/1982

em Capítulo IV | 0

1. Na nossa consideração precedente, procuramos aprofundar —à luz da Epístola aos Efésios— o “início” sacramental do homem e do matrimônio no estado da justiça “ou inocência” original.

Sabe-se, todavia, que a herança da graça foi repelida pelo coração humano no momento da ruptura da primeira aliança com o Criador. A perspectiva da procriação, em vez de ser iluminada pela herança da graça original, concedida por Deus logo que infundiu a alma racional, foi ofuscada pela herança do pecado original. Pode-se dizer que o matrimônio, como sacramento primordial, foi privado daquela eficácia sobrenatural que, no momento da instituição, recebia do sacramento da criação na sua globalidade. Todavia, também neste estado, ou seja, no estado da pecaminosidade hereditária do homem, o matrimônio nunca deixou de ser a figura daquele sacramento, sobre o qual lemos na Epístola aos Efésiosi e que o Autor da mesma Epístola não hesita em definir “grande mistério”. Não podemos, porventura, deduzir que o matrimônio permaneceu como plataforma da realização dos eternos desígnios de Deus, segundo os quais o sacramento da criação tinha aproximado os homens e os tinha preparado para o sacramento da Redenção, introduzindo-os na dimensão da obra da salvação? A análise da Epístola aos Efésios, e em particular do “clássico” texto do capítulo 5, versículos 22-33, parece propender para tal conclusão.

2. Quando o Autor, no versículo 31, faz referência às palavras da instituição do matrimônio, contidas no Gênesisii, e logo depois declara: “É grande este mistério; digo-o, porém, em relação a Cristo e à Igreja”iii, parece indicar não só a identidade do mistério escondido em Deus desde a eternidade, mas também aquela continuidade da sua realização, que existe entre o sacramento primordial referente à gratificação sobrenatural do homem na criação mesma e a nova gratificação, verificada quando “Cristo amou a Igreja, e por ela Se entregou, para a santificar…”ivgratificação que pode ser definida no seu conjunto como Sacramento da Redenção. Neste dom redentor de Si mesmo “pela” Igreja, está também encerrado —segundo o pensamento paulino— o dom de Si por parte de Cristo à Igreja, à semelhança da relação esponsal que une marido e mulher no matrimônio. Deste modo, o Sacramento da Redenção reveste, em certo sentido, a figura e a forma do sacramento primordial. Ao matrimônio do primeiro marido e da primeira mulher, como sinal da gratificação sobrenatural do homem no sacramento da criação, correspondem as núpcias, ou melhor, a analogia das núpcias, de Cristo com a Igreja, como “grande” sinal fundamental da gratificação sobrenatural do homem no Sacramento da Redenção —da gratificação, em que se renova, de modo definitivo, a Aliança da graça de eleição, rompida no “início” com o pecado.

3. A imagem contida na passagem citada da Epístola aos Efésios parece falar sobretudo do Sacramento da Redenção como definitiva realização do mistério escondido desde a eternidade em Deus. Neste mysterium magnum realiza-se precisamente, de modo definitivo, tudo aquilo de que a mesma Epístola aos Efésios tratara no capítulo 1. Ela, de fato, diz, como recordamos, não só: “N’Ele (isto é, em Cristo) —Deus— nos escolheu antes da constituição do mundo, para sermos santos e imaculados diante dos Seus olhos…”v, mas também: “é n’Ele —Cristo— que temos a redenção, pelo Seu sangue, a remissão dos pecados, segundo a riqueza da Sua graça, que abundantemente derramou sobre nós…”vi. A nova gratificação sobrenatural do homem no “Sacramento da Redenção” é também uma nova realização do mistério escondido desde a eternidade em Deus —nova em referência ao sacramento da criação. Neste momento, a gratificação é, em certo sentido, uma “nova criação”. Diferencia-se, porém, do sacramento da criação enquanto a gratificação original, unida à criação do homem, constituía aquele homem “desde o início”, mediante a graça, no estado da inocência e da justiça originais. A nova gratificação do homem no Sacramento da Redenção dá-lhe, pelo contrário, sobretudo a “remissão dos pecados”. Todavia, também aqui pode “superabundar a graça”, como noutra passagem se exprime São Paulo: “onde abundou o pecado, superabundou a graça”vii.

4. O Sacramento da Redenção —fruto do amor redentor de Cristo— torna-se, em base ao Seu amor esponsal para com a Igreja, uma dimensão permanente da própria vida da Igreja, dimensão fundamental e vivificante. É o mysterium magnum de Cristo e da Igreja: mistério eterno realizado por Cristo, o qual “Se entregou por ela”viii; mistério que se realiza continuamente na Igreja, porque Cristo “amou a Igreja”, unindo-Se a ela com amor indissolúvel, como se unem os esposos, marido e mulher, no matrimônio. Deste modo, a Igreja vive do Sacramento da Redenção, e por sua vez completa este sacramento como a mulher, em virtude do amor esponsal, completa o próprio marido, o que de certo modo já foi posto em relevo “no início”, quando o primeiro homem encontrou na primeira mulher “uma auxiliar adequada”ix. Embora a analogia da Epístola aos Efésios não o precise, podemos, todavia, acrescentar que também a Igreja, unida a Cristo, como a mulher ao próprio marido, haure do Sacramento da Redenção toda a sua fecundidade e maternidade espiritual. Testemunham-no, de algum modo, as palavras da Epístola de São Pedro, quando escreve que havemos “renascido, não de uma semente corruptível, mas incorruptível: pela palavra de Deus vivo e eterno”x. Assim, o mistério escondido desde a eternidade em Deus —mistério que no “início”, no sacramento da criação, se tornou uma realidade visível através da união do primeiro homem e da primeira mulher na perspectiva do matrimônio— torna-se no Sacramento da Redenção uma realidade visível na união indissolúvel de Cristo com a Igreja, que o Autor da Epístola aos Efésios apresenta como a união esponsal dos cônjuges, marido e mulher.

5. O sacramentum magnum (o texto grego diz: tò mystérion toûto méga estin) da Epístola aos Efésios fala da nova realização do mistério escondido desde a eternidade em Deus; realização definitiva sob o ponto de vista da história terrena da salvação. Fala, além disso, de “o tornar —o mistério— visível”: da visibilidade do Invisível. Esta visibilidade não faz que o mistério deixe de ser mistério. Isto referia-se ao matrimônio constituído no “início”, no estado da inocência original, no contexto do sacramento da criação. Isto refere-se também à união de Cristo com a Igreja, qual “mistério grande” do Sacramento da Redenção. A visibilidade do Invisível não significa —se assim se pode dizer— uma total clareza do mistério. Ele, como objeto da fé, permanece velado através daquilo em que precisamente se exprime e se realiza. A visibilidade do Invisível pertence, pois, à ordem dos sinais, e o “sinal” indica apenas a realidade do mistério, mas não a “desvela”. Como o “primeiro Adão” —o homem, varão e mulher— criado no estado da inocência original e chamado neste estado à união conjugal (neste sentido, falamos do sacramento da criação), foi sinal do eterno mistério, também o “segundo Adão”, Cristo, unido à Igreja mediante o Sacramento da Redenção com um laço indissolúvel, análogo à aliança indissolúvel dos cônjuges, é sinal definitivo do mesmo mistério eterno. Falando, pois, do realizar-se do eterno mistério, falamos também do fato de que ele se torna visível com a visibilidade do sinal. E, por conseguinte, falamos também da sacramentalidadede toda a herança do Sacramento da Redenção, em referência a toda a obra da Criação e da Redenção, e ainda mais em referência ao matrimônio instituído no contexto do sacramento da criação, como ainda em referência à Igreja como esposa de Cristo, dotada de uma aliança quase conjugal com Ele.

i 5, 23-33.

ii 2, 24: “Por esse motivo, o homem deixará o pai e a mãe, para se unir à sua mulher; e os dois serão uma só carne”.

iiiEf 5, 32.

ivEf 5, 25-26.

vEf 1, 4.

viEf 1, 7-8.

viiRm 5, 20.

viiiEf 5, 25.

ixGn 2, 20.

x1Pd 1, 23.

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