92ª. Atributos e qualidades morais que devem guiar as relações de amor entre os esposos – 01/09/1982

em Capítulo IV | 0

1. O Autor da Epístola aos Efésios, proclamando a analogia entre o vínculo esponsal que une Cristo e a Igreja, e o que une o marido e a mulher no matrimônio, assim escreve: “Maridos, amai as vossas mulheres, como também Cristo amou a Igreja, e por ela Se entregou, para a santificar, purificando-a no batismo da água pela palavra da vida, para a apresentar a Si mesmo como Igreja gloriosa sem mancha nem ruga, nem qualquer coisa semelhante, mas santa e imaculada”i.

2. É significativo que a imagem da Igreja gloriosa seja apresentada, no texto citado, como Esposa toda bela no seu corpo. Certamente, é uma metáfora; mas é muito eloqüente, e testemunha com que profundidade influi a lembrança do corpo na analogia do amor esponsal. A Igreja “gloriosa” é a “sem mancha nem ruga”. “Mancha” pode ser entendida como sinal de fealdade, “ruga” como sinal de envelhecimento e de senilidade. No sentido metafórico, tanto uma como outra expressão indicam os defeitos morais, o pecado. Pode-se acrescentar que em São Paulo o “homem velho” significa o “homem do pecado”ii. Cristo, portanto, com o Seu amor redentor e esponsal, faz que a Igreja não só se torne sem pecado, mas fique “eternamente jovem”.

3. O alcance da metáfora é, como se vê, bem vasto. As expressões que se referem direta e imediatamente ao corpo humano, caracterizando-o nas relações recíprocas entre o esposo e a esposa, entre o marido e a mulher, indicam, ao mesmo tempo, atributos e qualidades de ordem moral, espiritual e sobrenatural. Isto é essencial para essa analogia. Portanto, o Autor da Epístola pode definir o estado “glorioso” da Igreja em relação com o estado do corpo da Esposa, livre de sinais de fealdade ou de envelhecimento (“nem qualquer coisa semelhante”), simplesmente como santidade e ausência do pecado: tal é a Igreja “santa e imaculada“. É, portanto, óbvio de qual beleza da Esposa se trata, em que sentido a Igreja é corpo de Cristo e em que sentido aquele corpo-Esposa acolhe o dom do Esposo que “amou a Igreja e Se deu a Si mesmo por ela”. Apesar disso, o que impressiona é que São Paulo explique toda esta realidade, que por essência é espiritual e sobrenatural, através da semelhança do corpo e do amor pelo qual os cônjuges, marido e mulher, se tornam “uma só carne”.

4. Na passagem inteira do texto citado, é bem claramente mantido o princípio da bi-subjetividade: Cristo-Igreja, Esposo-Esposa (marido-mulher). O Autor apresenta o amor de Cristo para com a Igreja —aquele amor que faz da Igreja o corpo de Cristo, de que Ele é a cabeça— como modelo do amor dos esposos e como modelo das núpcias do esposo e da esposa. O amor obriga o esposo-marido a ser solícito pelo bem da esposa-mulher, compromete-o a desejar-lhe a beleza e, ao mesmo tempo, a sentir esta beleza e ter cuidado dela. Trata-se, aqui, também da beleza visível, da beleza física. O esposo perscruta com atenção a sua esposa como na inquietação criativa, amorosa, de encontrar tudo o que de bom e de belo está nela e que para ela deseja. O bem, que aquele que ama com o seu amor cria naquele que é amado, é como uma verificação do mesmo amor e a medida dele. Dando-se a si mesmo do modo mais desinteressado, aquele que ama não o faz fora desta medida e desta verificação.

5. Quando o Autor da Epístola aos Efésios —nos sucessivos versículos do textoiii— aplica o espírito exclusivamente aos cônjuges mesmos, a analogia da relação de Cristo com a Igreja ressoa ainda mais profunda e impele-o a exprimir-se assim: “Os maridos devem amar as suas mulheres, como aos seus próprios corposiv. Aqui, volta, portanto, o motivo da “uma só carne”, que na sobredita frase e nas frases sucessivas é não só retomado, mas também esclarecido. Se os maridos devem amar as suas mulheres como o próprio corpo, isto significa que aquela uni-subjetividade se funda na base da bi-subjetividade e não tem caráter real, mas intencional: o corpo da mulher não é o corpo próprio do marido, mas deve ser amado como o corpo próprio. Trata-se, portanto, da unidade, não no sentido ontológico, mas moral: da unidade por amor.

6. “Aquele que ama a sua mulher, ama-se a si mesmo”v. Esta frase confirma ainda mais aquele caráter de unidade. Em certo sentido, o amor fez do “eu” alheio o próprio “eu”: o “eu” da mulher, diria, torna-se por amor o “eu” do marido. O corpo é a expressão daquele “eu” e o fundamento da sua identidade. A união do marido e da mulher no amor exprime-se também através do corpo. Exprime-se na relação recíproca, embora o Autor da Epístola aos Efésios o indique sobretudo por parte do marido. Isto resulta da estrutura da imagem total. Ainda que os cônjuges devam ser “submissos uns aos outros, como ao Senhor” (isto foi posto em evidência já no primeiro versículo do texto citadovi), todavia, em seguida, o marido é sobretudo aquele que ama e a mulher, por sua vez, aquela que é amada. Poder-se-ia mesmo arriscar a idéia de que a “submissão” da mulher ao marido, entendida no contexto do trecho completovii da Epístola aos Efésios, signifique sobretudo “provar o amor”. Tanto mais que esta “submissão” se refere à imagem da submissão da Igreja a Cristo, que certamente consiste em provar o Seu amor. A Igreja, como esposa, sendo objeto do amor redentor de Cristo-Esposo, torna-se Seu corpo. A mulher, sendo objeto do amor esponsal do marido, torna-se “uma só carne” com ele: em certo sentido, a sua “própria” carne. O Autor repetirá esta idéia uma vez mais na última frase do trecho aqui analisado: “Pelo que vos diz respeito, ame cada um de vós a sua mulher como a si mesmo”viii.

7. Esta é a unidade moral, condicionada e constituída pelo amor. O amor não só une os dois sujeitos, mas permite-lhes que se compenetrem mutuamente, pertencendo espiritualmente um ao outro, a ponto de o Autor da Epístola poder afirmar: “Aquele que ama a sua mulher, ama-se a si mesmo”ix. O “eu” torna-se, em certo sentido, o “tu” e o “tu” o “eu” (entende-se, no sentido moral). E, por isso, a continuação do texto por nós analisado soa assim: “Ninguém jamais aborreceu a sua própria carne; pelo contrário, nutre-a e cuida dela, como também Cristo o faz na sua Igreja, pois somos membros do Seu corpo”x. A frase, que inicialmente se refere também às relações dos cônjuges, em fase sucessiva volta explicitamente à relação Cristo-Igreja, e, assim, à luz dessa relação, leva-nos a definir o sentido da frase inteira. O Autor, depois de explicar o caráter da relação do marido com a própria mulher formando “uma só carne”, quer ainda reforçar a sua precedente afirmação (“quem ama a própria mulher, ama-se a si mesmo”) e, em certo sentido, mantê-la com a negação e exclusão da possibilidade oposta (“ninguém jamais aborreceu a sua própria carnexi). Na união por amor, o corpo “alheio” torna-se “próprio” no sentido de que se torna cuidado do bem do corpo alheio como do próprio. As sobreditas palavras, caracterizando o amor “carnal” que deve unir os cônjuges, exprimem, pode-se dizer, o conteúdo mais geral e, ao mesmo tempo, o mais essencial. Elas parecem falar deste amor sobretudo com a linguagem do “ágape”.

8. A expressão segundo a qual o homem “alimenta e cuida da própria carne” —isto é, que o marido “alimenta e cuida” a carne da mulher como a própria— parece indicar, sobretudo, o cuidado dos pais, a relação tutelar, mais que a ternura conjugal. A motivação de tal caráter deve buscar-se no fato de que o Autor passar aqui distintamente da relação que une os cônjuges à relação entre Cristo e a Igreja. As expressões que se referem ao cuidado do corpo, e primeiro que tudo à sua nutrição, à sua alimentação, sugerem a numerosos estudiosos da Sagrada Escritura a referência à Eucaristia, com a qual Cristo, no seu amor esponsal “nutre” a Igreja. Se estas expressões, seja embora em tom menor, indicam o caráter específico do amor conjugal, especialmente daquele amor pelo qual os cônjuges se tornam “uma só carne”, elas, ao mesmo tempo, ajudam a compreender, pelo menos em modo geral, a dignidade do corpo e o imperativo moral de ter cuidado do seu bem: daquele bem que está em correspondência com a sua dignidade. A comparação com a Igreja como Corpo de Cristo, Corpo do seu amor redentor e, ao mesmo tempo, esponsal, deve deixar na consciência dos destinatários da Epístola aos Efésiosxii um sentido profundo do “sacrumdo corpo humano em geral, e especialmente no matrimônio, como “lugar” em que tal sentido do “sacrum” determina, de modo particularmente profundo, as relações recíprocas das pessoas, e, sobretudo, as do homem com a mulher, enquanto mulher e mãe dos seus filhos.

iEf 5, 25-27.

ii Cf. Rm 6, 8.

iii 5, 28-29.

ivEf 5, 28.

vEf 5, 28.

viEf 5, 22-23.

vii 5, 22-33.

viiiEf 5, 33.

ixEf 5, 28.

xEf 5, 29-30.

xiEf 5, 29.

xii 5, 22-23.

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