90ª. O matrimônio, sinal visível do eterno mistério divino – 18/08/1982

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1. Analisando as respectivas componentes da Epístola aos Efésios, verificamos na quarta-feira passada que a relação recíproca entre os cônjuges, marido e mulher, é entendida pelos cristãos à imagem da relação entre Cristo e a Igreja.

Este nexo revela e realiza, no tempo, o mistério da salvação, a eleição de amor, “oculta” pela eternidade em Deus. Nesta revelação e realização, o mistério salvífico compreende o impulso particular do amor esponsal na relação de Cristo com a Igreja, e por isso é possível exprimi-lo do modo mais adequado, recorrendo à analogia da relação que existe —que deve existir— entre o marido e a mulher no matrimônio. Tal analogia esclarece o mistério, pelo menos até certo grau. Mais, parece que, segundo o Autor da Epístola aos Efésios, esta analogia é complementar da do “Corpo Místico”i, quando procuramos exprimir o mistério da relação de Cristo com a Igreja —e, subindo ainda mais alto, o mistério do amor eterno de Deus para com o homem, para com a humanidade: o mistério, que se exprime e realiza no tempo através da relação de Cristo com a Igreja.

2. Se —como foi dito— esta analogia ilumina o mistério, ela mesma por sua vez é iluminada por aquele mistério. A relação esponsal que une os cônjuges, marido e mulher deve —segundo o Autor da Epístola aos Efésios— ajudar-nos a compreender o amor que une Cristo com a Igreja, aquele amor recíproco de Cristo e da Igreja, em que se realiza o eterno plano divino da salvação do homem. Todavia, o significado da analogia não pára aqui. A analogia usada na Epístola aos Efésios, esclarecendo o mistério da relação entre Cristo e a Igreja, ao mesmo tempo, desvela a verdade essencial sobre o matrimônio: isto é, que o matrimônio corresponde à vocação dos cristãos só quando reflete o amor que dá Cristo-Esposo à Igreja, Sua Esposa, e que a Igreja (à semelhança da mulher “submetida”, portanto plenamente doada) procura devolver a Cristo. Este é o amor redentor, salvador, o amor com que o homem desde a eternidade foi amado por Deus em Cristo: “Foi assim que n’Ele nos escolheu antes da constituição do mundo, para sermos santos e imaculados diante dos seus olhos”ii.

3. O matrimônio corresponde à vocação dos cristãos enquanto cônjuges só se, precisamente, aquele amor se espelha nela e atua. Isto tornar-se-á claro se procurarmos reler a analogia paulina na direção inversa, isto é, partindo da relação de Cristo com a Igreja, e voltando-nos depois para a relação do marido e da mulher no matrimônio. No texto, é usado o tom exortativo: “As mulheres estejam submetidas aos maridos… como a Igreja está submetida a Cristo”. E, por outro lado: “Vós, maridos, amai as vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja…”. Estas expressões demonstram tratar-se de uma obrigação moral. Todavia, para poder recomendar esta obrigação, é necessário admitir que na essência mesma do matrimônio se encerra uma partezinha do mesmo mistério. De outro modo, toda esta analogia ficaria suspensa no vácuo. O convite do Autor da Epístola aos Efésios, dirigido aos cônjuges, para que modelem a sua relação recíproca à semelhança da relação de Cristo com a Igreja (“como-assim“), seria destituído de uma base real, como se lhe faltasse o terreno debaixo dos pés. Tal é a lógica da analogia usada no citado texto aos Efésios.

4. Como se vê, esta analogia opera em duas direções. Se, por um lado, nos consente compreender melhor a essência da relação de Cristo com a Igreja, por outro, ao mesmo tempo, permite-nos penetrar mais profundamente na essência do matrimônio, ao qual são chamados os cristãos. Ela manifesta, em certo sentido, o modo como este matrimônio, na sua essência mais profunda, deriva do mistério do amor eterno de Deus para com o homem e a humanidade: daquele mistério salvífico, que se realiza no tempo mediante o amor esponsal de Cristo para com a Igreja. Partindo das palavras da Epístola aos Efésiosiii, podemos em seguida, desenvolver o pensamento contido na grande analogia paulina em duas direções: quer na direção de uma mais profunda compreensão da Igreja, quer na direção de uma compreensão mais profunda do matrimônio. Nas nossas considerações, seguiremos, primeiro que tudo, esta segunda, lembrados de que, na base da compreensão do matrimônio na sua essência mesma, está a relação esponsal de Cristo com a Igreja. Essa relação é analisada ainda mais cuidadosamente para poder estabelecer —supondo a analogia com o matrimônio— de que modo este se torna sinal visível do eterno mistério divino, a imagem da Igreja unida com Cristo. Deste modo, a Epístola aos Efésios conduz-nos às bases mesmas da sacramentalidade do matrimônio.

5. Empreendamos, portanto, uma análise particularizada do texto. Quando lemos na Epístola aos Efésios que “o marido… é cabeça da mulher como também Cristo é cabeça da Igreja, Ele que é o salvador do Seu corpo”iv, podemos supor que o Autor —que já primeiro esclareceu que a submissão da mulher ao marido como cabeça é entendida como submissão recíproca “no temor de Cristo”— sobe de novo do conceito radicado na mentalidade do tempo, para exprimir primeiro que tudo a verdade acerca da relação de Cristo com a Igreja, isto é, ser Cristo cabeça da Igreja. É cabeça como “salvador do Seu corpo”. A Igreja é, precisamente, aquele corpo que —estando submetido em tudo a Cristo como sua cabeça— recebe d’Ele tudo aquilo pelo que se torna e é o seu corpo: isto é, a plenitude da salvação como dom de Cristo, o qual “se deu a si mesmo por ela” até ao fim. O “dar-se” de Cristo ao Pai por meio da obediência até à morte de cruz adquire aqui um sentido estritamente eclesiológico: “Cristo amou a Igreja e deu-se a si mesmo por elav. Através de uma total doação por amor, formou a Igreja como Seu corpo e continuamente a edifica, tornando-se sua cabeça. Como cabeça, é salvador do seu corpo e, ao mesmo tempo, como salvador, é cabeça. Como cabeça e salvador da Igreja, é também esposo da sua esposa.

6. A Igreja é ela mesma porque, como corpo, acolhe de Cristo, sua cabeça, o inteiro dom da salvação como fruto do amor de Cristo e da sua doação pela Igreja: fruto da doação de Cristo até ao fim. Aquele dom de si ao Pai por meio da obediência até à mortevi é, ao mesmo tempo, segundo a Epístola aos Efésios, um “dar-se a si mesmo pela Igreja”. Nesta expressão, o amor redentor transforma-se, diria, em amor esponsal: Cristo, dando-se a si mesmo pela Igreja, com o mesmo ato redentor uniu-se de uma vez para sempre com ela, como o esposo com a esposa, como o marido com a mulher, dando-se através de tudo o que uma vez para sempre está incluído naquele seu “dar-se a si mesmo” pela Igreja. De tal modo, o mistério da redenção do corpo esconde em si, em certo sentido, o mistério “das núpcias do Cordeiro”vii. Sendo Cristo cabeça do corpo, o inteiro dom salvífico da redenção penetra na Igreja como o corpo daquela cabeça, e forma continuamente a mais profunda e essencial substância da sua vida. E forma-a do modo esponsal, dado que no texto citado a analogia do corpo-cabeça passa para a analogia do esposo-esposa, ou antes, do marido-mulher. Demonstram-no os trechos sucessivos do texto, aos quais convirá passar em seguida.

i Cf. Ef 1, 22-23.

iiEf 1, 4.

iii 5, 22-23.

iv 5, 23.

vEf 5, 25.

vi Cf. Fl 2, 8.

vii Cf. Ap 19, 7.

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