89ª. A submissão recíproca “no temor de Cristo” – 11/08/1982

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1. Iniciamos hoje uma análise mais particularizada do trecho da Epístola aos Efésios 5, 21-33. O Autor, dirigindo-se aos cônjuges, recomenda-lhes que sejam “submissos uns aos outros no temor de Cristoi.

Trata-se, aqui, de uma relação com dupla dimensão ou de duplo grau: recíproco e comunitário. Um precisa e caracteriza o outro. As relações recíprocas do marido e da mulher devem brotar da comum relação de ambos com Cristo. O Autor da epístola fala do “temor de Cristo” num sentido análogo a quando fala do “temor de Deus”. Neste caso, não se trata de temor ou medo, que é a atitude defensiva diante da ameaça do mal, mas trata-se, sobretudo, de respeito pela santidade, pelo sacrum; trata-se da pietas, que na linguagem do Antigo Testamento foi expressa ainda com o termo “temor de Deus”ii. Com efeito, tal pietas, nascida da profunda consciência do mistério de Cristo, deve constituir a base das recíprocas relações entre os cônjuges.

2. Como o contexto imediato, assim também o texto escolhido por nós tem caráter “parenético”, isto é, de instrução moral. O Autor da epístola deseja indicar aos cônjuges como se devem estabelecer as suas relações recíprocas e todo o comportamento deles. Deduz as próprias indicações e diretrizes do mistério de Cristo, apresentado no princípio da epístola. Este mistério deve estar espiritualmente presente na relação recíproca dos cônjuges. Penetrando nos corações deles, gerando neles aquele santo “temor de Cristo” (isto é, precisamente a pietas), o mistério de Cristo deve conduzi-los a serem “submissos uns aos outros”: o mistério de Cristo, isto é, o mistério da escolha desde a eternidade, de cada um deles em Cristo, “para serem filhos adotivos” de Deus.

3. A expressão que abre o nosso trecho de Ef 5, 21-23, do qual nos estamos a aproximar graças à análise do contexto remoto e imediato, tem eloqüência muito particular. O Autor fala da mútua submissão dos cônjuges, marido e mulher, e de tal modo faz também compreender como é necessário entender as palavras que escreverá em seguida sobre a submissão da mulher ao marido. Com efeito, lemos: “As mulheres sejam submissas aos maridos como ao Senhor”iii. Exprimindo-se assim o Autor não pretende dizer que o marido é “patrão” da mulher e que o pacto interpessoal próprio do matrimônio é um pacto de domínio do marido sobre a mulher. Exprime, pelo contrário, outro conceito: que a mulher, na sua relação com Cristo —que é para ambos os cônjuges único Senhor— pode e deve encontrar a motivação daquela relação com o marido, que brota da essência mesma do matrimônio e da família. Tal relação, todavia, não é submissão unilateral. O matrimônio, segundo a doutrina da Epístola aos Efésios, exclui aquela componente do pacto que pesava e, por vezes, não deixa de pesar sobre esta instituição. O marido e a mulher são, de fato, “submissos um ao outro”, estão reciprocamente subordinados. A fonte desta recíproca submissão está na pietas cristã, e a sua expressão é o amor.

4. O Autor da epístola sublinha, de modo particular, este amor, dirigindo-se aos maridos. Escreve, de fato: “E vós, maridos, amai as vossas mulheres…”, e com este modo de exprimir-se tira qualquer temor que poderia suscitar (dada a sensibilidade contemporânea) a frase precedente: “As mulheres sejam submissas aos maridos”. O amor exclui todo o gênero de submissão, pelo qual a mulher se tornasse serva ou escrava do marido, objeto de submissão unilateral. O amor faz que ao mesmo tempo também o marido seja submisso à mulher, e submisso nisto ao Senhor mesmo, assim como a mulher ao marido. A comunidade ou unidade, que devem constituir por causa do matrimônio, realiza-se através de uma recíproca doação, que é também submissão mútua. Cristo é fonte e, ao mesmo tempo, modelo daquela submissão que, sendo recíproca “no temor de Cristo”, confere à união conjugal um caráter profundo e amadurecido. Múltiplos fatores de natureza psicológica ou de costumes são, nesta fonte e diante deste modelo, de tal maneira transformados que fazem brotar, diria, nova e preciosa “fusão” dos comportamentos e das relações bilaterais.

5. O Autor da Epístola aos Efésios não teme aceitar estes conceitos que eram próprios da mentalidade e dos costumes de então; não teme falar da submissão da mulher ao marido; não teme, depois (também no último versículo do texto por nós citado), recomendar à mulher que “respeite o seu marido”iv. Com efeito, é certo que, quando o marido e a mulher forem submissos um ao outro “no temor de Cristo”, tudo encontrará o justo equilíbrio, isto é, tal que há-de corresponder à vocação cristã deles no mistério de Cristo.

6. Diversa é, certamente, a nossa sensibilidade contemporânea, diversos são também a mentalidade e os costumes e diferente é a posição social da mulher diante do homem. Apesar disso, o fundamental princípio parenético, que encontramos na Epístola aos Efésios, permanece o mesmo e dá os mesmos frutos. A submissão recíproca “no temor de Cristo” —submissão nascida sob o fundamento da pietas cristã— forma sempre aquela profunda e sólida estrutura basilar da comunidade dos cônjuges, em que se realiza a verdadeira “comunhão das pessoas.

7. O Autor do texto aos Efésios, que iniciou a sua epístola com magnífica visão do plano eterno de Deus para com a comunidade, não se limita a pôr em relevo só os aspectos tradicionais dos costumes ou os éticos do matrimônio, mas ultrapassa o âmbito e o ensinamento, e, escrevendo sobre a relação recíproca dos cônjuges, descobre nela a dimensão do mistério mesmo de Cristo, de que ele é anunciador e apóstolo. “As mulheres sejam submissas aos seus maridos como ao Senhor, pois o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a Cabeça da Igreja, Seu Corpo, do qual Ele é o Salvador. E como a Igreja está submetida a Cristo, assim também as mulheres se devem submeter em tudo aos seu maridos. Maridos, amai as vossas mulheres, como também Cristo amou a Igreja e por ela se entregou”v. Deste modo, o ensinamento próprio desta parte parenética da epístola é, em certo sentido, inserido na realidade mesma do mistério escondido desde a eternidade em Deus e revelado à humanidade em Jesus Cristo. Na Epístola aos Efésios, somos testemunhas, diria, de um particular encontro daquele mistério com a essência mesma da vocação para o matrimônio. Como se deve entender este encontro?

8. No texto da Epístola aos Efésios, ele apresenta-se, primeiro que tudo, como uma grande analogia. Lemos nele: “As mulheres sejam submissas aos maridos como ao Senhor…”: eis a primeira componente da analogia. “O marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da Igreja…”: eis a segunda componente, que forma o esclarecimento e a motivação da primeira. “E como a Igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres estejam sujeitas aos seus maridos…”: a relação de Cristo com a Igreja apresentada precedentemente, é agora expressa como relação da Igreja com Cristo, e nisto está compreendida a componente sucessiva da analogia. Por fim: “Maridos, amai as vossas mulheres, como também Cristo amou a Igreja e por ela Se entregou…”: eis a última componente da analogia. O seguimento do texto da epístola desenvolve o pensamento fundamental, contido na passagem agora mesmo citada; e o texto completo da Epístola aos Efésios no cap. 5 (vv. 21-23) está inteiramente dominado pela mesma analogia; isto é: a relação recíproca entre os cônjuges, marido e mulher, é entendida pelos cristãos à imagem da relação entre Cristo e a Igreja.

i 5, 21.

ii Cf., por exemplo, Sl 103, 11; Pr 1, 7; Eclo 1, 11-16.

iii 5, 22.

iv 5, 33.

v 5, 22-25.

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