86ª. No mistério da redenção do corpo a esperança da vitória sobre o pecado – 21/07/1982

em Capítulo III | 0

1. “Também nós próprios, que possuímos as premissas do Espírito, gememos igualmente em nós mesmos, aguardando… a redenção do nosso corpo”i. São Paulo, na epístola aos Romanos, vê esta “redenção do corpo” numa dimensão antropológica e, ao mesmo tempo, cósmica… A criação “de fato, foi submetida à vaidade”ii. Toda a criação visível, todo o cosmos traz em si os efeitos do pecado do homem. “Toda a criação tem gemido e sofrido as dores do parto”iii. E, ao mesmo tempo, toda “a criação aguarda ansiosa a revelação dos filhos de Deus” e “foi com a esperança de ser ela também libertada da servidão da corruptela, para participar, livremente, da glória dos filhos de Deus”iv.

2. A redenção do corpo é, segundo Paulo, objeto da esperança. Esta esperança foi enxertada no coração do homem, em certo sentido logo a seguir ao primeiro pecado. Basta recordar as palavras do Livro do Gênesis, que são tradicionalmente definidas como o “proto-evangelho”v e, portanto, poderemos dizer, como o início da Boa Nova, o primeiro anúncio da salvação. A redenção do corpo liga-se, segundo as palavras da epístola aos Romanos, precisamente com esta esperança na qual —como lemos— “nós fomos salvos”vi. Mediante a esperança, que remonta aos próprios inícios do homem, a redenção do corpo tem a sua dimensão antropológica: é a redenção do homem. Contemporaneamente, ela irradia-se, em certo sentido, sobre toda a criação, que desde o início esteve ligada de modo particular ao homem e a ele subordinadavii. A redenção do corpo é, portanto, a redenção do mundo: tem uma dimensão cósmica.

3. Apresentando na epístola aos Romanos a imagem “cósmica” da redenção, Paulo de Tarso coloca no seu próprio centro o homem, assim como “no princípio” este tinha sido colocado no centro mesmo da imagem da criação. É precisamente o homem, são os homens, aqueles que possuem “as premissas do Espírito”, que gemem interiormente, esperando a redenção do seu corpoviii. Cristo, que veio para desvelar plenamente o homem ao homem, tornando-lhe conhecida a sua altíssima vocaçãoix, fala no Evangelho da mesma divina profundidade do mistério da redenção, que precisamente n’Ele encontra o seu específico sujeito “histórico”. Cristo, portanto, fala no nome daquela esperança, que foi enxertada no coração do homem já no “proto-evangelho”. Cristo dá cumprimento a esta esperança, não só com as palavras do Seu ensinamento, mas sobretudo com o testemunho da Sua morte e ressurreição. Assim, portanto, a redenção do corpo já se realizou em Cristo. N’Ele foi confirmada aquela esperança, na qual “nós fomos salvos”. E, ao mesmo tempo, aquela esperança foi reaberta de novo para a sua definitiva realização escatológica. “A revelação dos filhos de Deus” em Cristo foi definitivamente dirigida para aquela “liberdade e glória”, que devem ser definitivamente participadas pelos “filhos de Deus”.

4. Para compreender tudo o que abrange “a redenção do corpo”, segundo a epístola de Paulo aos Romanos, é necessária uma autêntica teologia do corpo. Procuramos construí-la, referindo-nos primeiro que tudo às palavras de Cristo. Os elementos constitutivos da teologia do corpo estão encerrados no que diz Cristo, aludindo ao “princípio”, em relação com o pedido acerca da indissolubilidade do matrimôniox, naquilo que Ele diz da concupiscência, apelando para o coração humano, no Sermão da Montanhaxi, e também no que diz aludindo à ressurreiçãoxii. Cada um destes enunciados encerra em si um rico conteúdo de natureza tanto antropológica como ética. Cristo fala ao homem —e fala do homem: do homem que é “corpo”, e que foi criado como varão e mulher à imagem e semelhança de Deus; fala do homem, cujo coração está submetido à concupiscência, e por fim do homem, diante de quem se abre a perspectiva escatológica da ressurreição do corpo.

O “corpo” significa (segundo o Livro do Gênesis) o aspecto visível do homem e a sua atribuição ao mundo visível. Para São Paulo ele significa não só esta atribuição, mas também por vezes o alienar-se do homem sob o influxo do Espírito de Deus. Um e outro significado mantêm-se em relação com a “redenção do corpo”.

5. Como, nos textos precedentemente analisados, Cristo fala da profundidade divina do mistério da redenção, as Suas palavras servem precisamente àquela esperança, de que se fala na epístola aos Romanos. “A redenção do corpo” segundo o Apóstolo é, afinal, aquilo que nós “esperamos”. Assim, esperamos precisamente a vitória escatológica sobre a morte, à qual Cristo deu testemunho sobretudo com a sua ressurreição. À luz do mistério pascal, as Suas palavras sobre a ressurreição dos corpos e sobre a realidade do “outro mundo”, registradas pelos sinóticos, adquiriram a sua plena eloqüência. Tanto Cristo como Paulo de Tarso proclamaram o apelo à abstenção do matrimônio “por amor do Reino dos Céus”, exatamente em nome desta realidade escatológica.

6. Todavia, a “redenção do corpo” exprime-se não só na ressurreição como vitória sobre a morte. Está presente também nas palavras de Cristo, dirigidas ao homem “histórico”, quer quando elas confirmam o princípio da indissolubilidade do matrimônio, como princípio proveniente do Criador mesmo, quer também quando —no Sermão da Montanha— Cristo convida a vencer a concupiscência, isto mesmo nos movimentos unicamente interiores do coração humano. De um e de outro destes enunciados-chaves é necessário dizer que se referem à moralidade humana, têm um sentido ético. Aqui trata-se não da esperança escatológica da ressurreição, mas da esperança da vitória sobre o pecado, que pode ser chamada esperança de cada dia.

7. Na sua vida cotidiana, o homem deve ir buscar no mistério da redenção do corpo a inspiração e a força para vencer o mal que está adormecido em si sob a forma da tríplice concupiscência. O homem e a mulher, ligados no matrimônio, devem desempenhar cotidianamente o encargo da indissolúvel união daquela aliança, que estipularam entre si. Mas também um homem e uma mulher, que voluntariamente escolheram a continência por amor do Reino dos Céus, devem dar cotidianamente um testemunho vivo da fidelidade a tal escolha escutando as diretrizes de Cristo no Evangelho e as do Apóstolo Paulo na Primeira Epístola aos Coríntios. Seja como for, trata-se da esperança de cada dia, que, à medida dos normais encargos e das dificuldades da vida humana, ajuda a vencer “o mal com o bem”xiii. Com efeito, “na esperança nós fomos salvos”: a esperança de cada dia manifesta a sua potência nas obras humanas e, mesmo até, nos movimentos do coração humano, abrindo caminho, em certo sentido, para a grande esperança escatológica ligada com a redenção do corpo.

8. Penetrando na vida cotidiana com a dimensão da moral humana, a redenção do corpo ajuda, primeiro que tudo, a descobrir todo este bem, em que o homem ganha a vitória sobre o pecado e sobre a concupiscência. As palavras de Cristo, que derivam da divina profundidade do mistério da redenção, permitem descobrir e reforçar aquele laço, que existe entre a dignidade do ser humano (do homem ou da mulher) e o significado esponsal do seu corpo. Permitem compreender e realizar, com base naquele significado, a liberdade completa do dom, que num modo se exprime no matrimônio indissolúvel, e no outro mediante a abstenção do matrimônio por amor do Reino de Deus. Por estes caminhos diversos, Cristo desvela plenamente o homem ao homem, tornando-lhe conhecida a “sua altíssima vocação”. Esta vocação está inscrita no homem segundo todo o seu compositum psico-físico, precisamente mediante o mistério da redenção do corpo.

Tudo isto, que procuramos fazer no decurso das nossas meditações, para compreender as palavras de Cristo, tem o seu fundamento definitivo no mistério da redenção do corpo.

iRm 9, 32.

iiRm 8, 20.

iiiRm 8, 22.

ivRm 8, 19.20-21.

v Cf. Gn 3, 15.

viRm 8, 24.

vii Cf. Gn 1, 28-30.

viii Cf. Rm 8, 23.

ix Cf. Gaudium et spes, 22.

x Cf. Mt 19, 8.

xi Cf. Mt 5, 28.

xii Cf. Mt 22, 30.

xiiiRm 12, 21.

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