81ª. A virgindade é um grande valor de autenticidade evangélica – 05/05/1982

em Capítulo III | 0

1. Ao responder às perguntas dos fariseus sobre o matrimônio e a sua indissolubilidade, Cristo referiu-se ao “princípio”, isto é, à sua original instituição por parte do Criador. Uma vez que os seus interlocutores apelavam para a lei de Moisés, que previa a possibilidade da chamada “epístola de repúdio”, Ele respondeu: “Por causa da dureza dos vossos corações, Moisés permitiu que repudiásseis as vossas mulheres; mas no princípio não foi assim”i.

Depois do colóquio com os fariseus, os discípulos de Cristo dirigiram-se a Ele com as seguintes palavras: “Se essa é a situação do homem perante a mulher, não é conveniente casar-se!”. Respondeu-lhes: “Nem todos compreendem esta linguagem, mas apenas aqueles a quem isso é dado. Há eunucos que nasceram assim do seio materno, há os que se tornaram eunucos pela interferência dos homens, e há aqueles que se fizeram eunucos a si mesmos por amor do Reino dos Céus. Quem puder compreender, compreenda”ii.

2. As palavras de Cristo aludem inevitavelmente a uma consciente e voluntária renúncia ao matrimônio. Tal renúncia é possível só quando se admite uma autêntica consciência daquele valor que é constituído pela disposição esponsal da masculinidade e feminilidade para o matrimônio. Para que o homem possa estar plenamente consciente do que escolhe (a continência por amor do Reino), deve ser também plenamente consciente daquilo a que renuncia (trata-se, aqui, precisamente da consciência do valor em sentido “ideal”; todavia, esta consciência é completamente “realista”). Cristo exige por certo, deste modo, uma escolha cuidadosa. Comprova-o, sem qualquer dúvida, a forma em que é expressa a chamada à continência por amor do Reino dos Céus.

3. Mas não basta uma renúncia plenamente consciente ao sobredito valor. À luz das palavras de Cristo, como também à luz de toda a autêntica tradição cristã, é possível deduzir que tal renúncia é, ao mesmo tempo, uma particular forma de afirmação daquele valor, de que a pessoa não desposada se abstém coerentemente, seguindo o conselho evangélico. Pode isto parecer um paradoxo. É sabido, todavia, que o paradoxo acompanha numerosos enunciados do Evangelho, e muitas vezes os mais eloqüentes e profundos. Aceitando tal significado da chamada à continência “por amor do Reino dos Céus”, tiramos uma conclusão correta, defendendo que a realização desta chamada serve também —e de modo particular— para a confirmação do significado esponsal do corpo humano na sua masculinidade e feminilidade. A renúncia ao matrimônio por amor do Reino de Deus coloca em evidência, ao mesmo tempo, aquele significado em toda a sua verdade interior e em toda a sua pessoal beleza. Pode-se dizer que esta renúncia por parte de cada pessoa, homem e mulher, é em certo sentido indispensável, para o mesmo significado esponsal do corpo ser mais facilmente reconhecido em todo o ethos da vida humana e sobretudo no ethos da vida conjugal e familiar.

4. Assim, portanto, embora a continência “por amor do Reino dos Céus” (a virgindade, o celibato) oriente a vida das pessoas, que a escolhem livremente fora da via comum da vida conjugal e familiar, todavia não fica sem significado para esta vida: pelo seu estilo, o seu valor e a sua autenticidade evangélica. Não esqueçamos que a única chave para compreender a sacramentalidade do matrimônio é o amor esponsal de Cristo para com a Igrejaiii: de Cristo filho da Virgem, que era Ele mesmo virgem, isto é, “eunuco por amor do Reino dos Céus”, no sentido mais perfeito do termo. Convir-nos-á retomar este argumento mais tarde.

5. No fim destas reflexões permanece ainda um problema concreto: em que modo no homem, a quem “foi concedida” a chamada à continência por amor do Reino, essa chamada se forma sobre a base da consciência do significado esponsal do corpo na sua masculinidade e feminilidade, e, além disso, como fruto de tal consciência? De que modo se forma ou antes se “transforma”? Esta pergunta é igualmente importante, quer do ponto de vista da teologia do corpo, quer do ponto de vista do desenvolvimento da personalidade humana, que é de caráter personalista e carismático ao mesmo tempo. Se quiséssemos responder a tal pergunta de modo completo —na dimensão de todos os aspectos e de todos os problemas concretos que ela encerra— seria necessário fazer um estudo propositado sobre a relação entre o matrimônio e a virgindade, e entre o matrimônio e o celibato. Isto ultrapassaria, contudo, os limites das presentes considerações.

6. Permanecendo no âmbito das palavras de Cristo segundo Mateusiv, é necessário concluir as nossas reflexões afirmando o que segue. Primeiro: se a continência “por amor do Reino dos Céus” significa indubitavelmente renúncia, essa renúncia é ao mesmo tempo afirmação; a que deriva do descobrimento do “dom”, isto é, ao mesmo tempo, do descobrimento de uma nova perspectiva da realização pessoal de si mesmos “através de um dom sincero de si”v; este descobrimento está então em profunda harmonia interior com o sentido do significado esponsal do corpo, ligado “desde o princípio” à masculinidade ou feminilidade do homem como sujeito pessoal. Segundo: embora a continência “por amor do Reino dos Céus” se identifique com a renúncia ao matrimônio —que na vida de um homem e de uma mulher dá início à família—, não se pode de nenhum modo ver nela uma negação do valor essencial do matrimônio; antes, pelo contrário, a continência serve indiretamente para colocar em relevo o que na vocação conjugal é perene e mais profundamente pessoal, o que nas dimensões da temporalidade (e, ao mesmo tempo, na perspectiva do “outro mundo”) corresponde à dignidade do dom pessoal, ligado ao significado esponsal do corpo na sua masculinidade ou feminilidade.

7. Deste modo, a chamada de Cristo à continência “por amor do Reino dos Céus”, justamente associada ao chamamento para a futura ressurreiçãovi, tem significado capital não só para o ethos e para a espiritualidade cristã, mas também para a antropologia e para toda a teologia do corpo, que descobrimos nas suas bases. Recordemo-nos de ter Cristo dito, segundo a versão dos três Evangelhos sinóticos e apelando para a ressurreição do corpo no “outro mundo”: “Quando ressuscitarem dentre os mortos… nem casarão nem se darão em casamento…”vii. Estas palavras, já anteriormente analisadas, fazem parte do conjunto das nossas considerações sobre a teologia do corpo e contribuem para a sua construção.

iMt 19, 8.

iiMt 19, 10-12.

iii Cf. Ef 5, 22-23.

iv 19, 11-12.

vGaudium et spes, 24.

vi Cf. Mt 21, 24-30; Mc 12, 18-27; Lc 20, 27-40.

viiMc 12, 25.

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