80ª. Continência por amor do reino de Deus e significado esponsal do Corpo – 28/04/1982

em Capítulo III | 0

1. “Há aqueles que se fizeram eunucos a si mesmos por amor do Reino dos Céus”: assim se exprime Cristo segundo o Evangelho de Mateusi.

É próprio do coração humano aceitar a exigências, até difíceis, em nome do amor por um ideal e, sobretudo, em nome do amor para com uma pessoa (o amor, de fato, é por essência orientado para a pessoa). E, portanto, naquele apelo para a continência “por amor do Reino dos Céus”, primeiro os próprios discípulos e depois a Tradição viva cedo descobrirão aquele amor que se refere a Cristo mesmo como Esposo da Igreja e Esposo das almas, às quais Ele se deu a si mesmo totalmente, no mistério da sua Páscoa e na Eucaristia. Deste modo, a continência “por amor do Reino dos Céus”, a opção pela virgindade ou pelo celibato para toda a vida, tornou-se na experiência dos discípulos e dos seguidores de Cristo, um ato de resposta particular ao amor do Esposo Divino e por conseguinte adquiriu o significado de um ato de amor esponsal, isto é, de um dom esponsal de si, a fim de retribuir de modo particular o amor esponsal do Redentor; um dom de si, entendido como renúncia, mas feito sobretudo por amor.

2. Percebemos, assim, toda a riqueza de conteúdo, de que está repleto o enunciado de Cristo, embora conciso mas ao mesmo tempo tão profundo, sobre a continência “por amor do Reino dos Céus”; mas agora é conveniente prestar atenção ao significado que estas palavras têm para a teologia do corpo, do mesmo modo que procuramos apresentar e construir os seus fundamentos bíblicos “desde o princípio”. Precisamente, a análise daquele “princípio” bíblico, a que se referiu Cristo no colóquio com os fariseus sobre o assunto do matrimônio, da sua unidade e indissolubilidadeiipouco antes de se dirigir aos seus discípulos com as palavras sobre a continência “por amor do Reino dos Céus”iii— permite-nos recordar a verdade profunda sobre o significado esponsal do corpo humano na sua masculinidade e feminilidade, como o deduzimos no devido tempo da análise dos primeiros capítulos do Gênesis (e, em particular, do capítulo 2, 23-25). Era necessário formular e precisar exatamente assim o que encontramos naqueles textos antigos.

3. A mentalidade contemporânea habituou-se a pensar e a falar sobretudo do instinto sexual, transferindo para o terreno da realidade humana o que é próprio do mundo dos seres vivos, os animalia. Agora, uma reflexão aprofundada sobre o texto conciso do primeiro e do segundo capítulo do Gênesis permite-nos estabelecer, com certeza e convicção, que “desde o princípio” é delineado na Bíblia uma limite muito claro e unívoco entre o mundo dos animais (animalia) e o homem criado à imagem e semelhança de Deus. Naquele texto, embora relativamente breve, há contudo bastante espaço para demonstrar que o homem tem clara consciência daquilo que o distingue de modo essencial de todos os seres vivos (animalia).

4. Por conseguinte, a aplicação desta categoria ao homem, substancialmente naturalística, que está encerrada no conceito e na expressão de “instinto sexual“, não é totalmente adequada ao homem. É óbvio que tal aplicação pode fazer-se com base numa certa analogia; de fato, a particularidade do homem em relação a todo o mundo dos seres vivos (animalia) não é tal que o homem, compreendido do ponto de vista da espécie, não possa ser fundamentalmente qualificado, também, como animal, mas animal racional. Portanto, apesar desta analogia, a aplicação do conceito de “instinto sexual” ao homem —dada a dualidade em que ele existe como varão ou mulher— limita, todavia, grandemente, e em certo sentido “diminui” aquilo que é a própria masculinidade-feminilidade na dimensão pessoal da subjetividade humana. Limita e “diminui” também aquilo porque ambos, o homem e a mulher, se unem de modo a ser uma só carneiv. Para exprimir isto de modo apropriado e adequado, é necessário servir-se também de uma análise diversa da naturalística. E é precisamente o estudo do “princípio” bíblico que nos obriga a fazê-lo de maneira convincente. A verdade sobre o significado esponsal do corpo humano na sua masculinidade e feminilidade, deduzida dos primeiros capítulos do Gênesis (e em particular do capítulo 2, 23-25), ou seja a descoberta, simultaneamente, do significado esponsal do corpo na estrutura pessoal da subjetividade do homem e da mulher, parece ser neste âmbito um conceito-chave e, ao mesmo tempo, o único apropriado e adequado.

5. Pois bem, precisamente a propósito deste conceito, desta verdade sobre o significado esponsal do corpo humano, é necessário voltar a ler e entender as palavras de Cristo acerca da continência “por amor do Reino dos Céus”, pronunciadas no imediato contexto daquela referência ao “princípio”, sobre o qual Ele fundou a sua doutrina a respeito da unidade e da indissolubilidade do matrimônio. Na base do chamamento de Cristo para a continência está não só o “instinto sexual”, como categoria de uma necessidade, diria, naturalística, mas também a compreensão da liberdade do dom, que está organicamente em conexão com a profunda e amadurecida consciência do significado esponsal do corpo, na estrutura total da subjetividade pessoal do homem e da mulher. Só em relação a tal significado da masculinidade e feminilidade da pessoa humana, a chamada de Deus para a continência voluntária “por amor do Reino dos Céus” encontra plena garantia e motivação. Apenas e exclusivamente em tal perspectiva Cristo diz: “Quem puder compreender, compreenda”v; com isto, ele indica que tal continência —embora em todos os casos seja sobretudo um “dom”— pode ser também “compreendida”, isto é, colhida e deduzida do conceito que o homem tem do próprio “eu” psicossomático na sua plenitude, e em particular da masculinidade e feminilidade deste “eu” na relação recíproca, que está “por natureza” inscrito em toda a subjetividade humana.

6. Como recordamos das análises precedentes, realizadas com base no Livro do Gênesisvi, aquela relação recíproca da masculinidade e feminilidade, aquele recíproco “por” do homem e da mulher pode ser compreendido de modo apropriado e adequado apenas no conjunto dinâmico do sujeito pessoal. As palavras de Cristo em Mateusvii mostram a seguir que aquele “por”, presente “desde o princípio” na base do matrimônio, pode também estar na base da continência “por” amor do Reino dos Céus! Fundando-nos na mesma disposição do sujeito pessoal, graças à qual o homem se encontra plenamente através de um dom sincero de siviii, o homem (varão ou mulher) é capaz de escolher a doação pessoal de si mesmo, feita a outra pessoa no pacto conjugal, em que eles se tornam “uma só carne” e é também capaz de renunciar livremente a tal doação de si a outra pessoa, para que, optando pela continência “por amor do Reino dos Céus” possa dar-se a si mesmo totalmente a Cristo. Baseando-nos na mesma disposição do sujeito pessoal e no mesmo significado esponsal do ser, enquanto corpo, varão ou mulher, pode plasmar-se o amor que empenha o homem ao matrimônio na dimensão de toda a vidaix, mas pode também plasmar-se o amor que empenha o homem por toda a vida à continência “por amor do Reino dos Céus”x. Precisamente disto fala Cristo no conjunto do seu enunciado, dirigindo-se aos fariseusxi e depois aos discípulosxii.

7. É evidente que a opção pelo matrimônio, tal como ele foi instituído pelo Criador “desde o princípio”, supõe a tomada de consciência e a aceitação interior do significado esponsal do corpo, relacionado com a masculinidade e feminilidade da pessoa humana. Precisamente isto, de fato, está expresso de modo lapidar nos versículos do Livro do Gênesis. Ao escutarmos as palavras de Cristo, dirigidas aos discípulos sobre a continência “por amor do Reino dos Céus”xiii, não podemos pensar que aquele segundo gênero de opção possa ser feito de modo consciente e livre sem uma referência à própria masculinidade ou feminilidade e àquele significado esponsal, que é próprio do homem precisamente na masculinidade ou feminilidade do seu ser sujeito pessoal. Pelo contrário, à luz das palavras de Cristo, devemos admitir que aquele segundo gênero de opção, ou seja, a continência por amor ao reino de Deus, se realiza também em relação com a masculinidade ou feminilidade própria da pessoa que faz tal opção; realiza-se em base à plena consciência daquele significado esponsal, que a masculinidade e a feminilidade contêm em si. Se tal opção se realizasse em conseqüência de um qualquer artificioso “prescindir” desta riqueza real de cada sujeito humano, não corresponderia de modo apropriado e adequado ao conteúdo das palavras de Cristo em Mateus 19, 11-12.

Cristo pede aqui explicitamente uma compreensão total, quando diz: “Quem puder compreender, compreenda”xiv.

iMt 19, 12.

ii Cf. Mt 19, 3-9.

iiiMt 19, 10-12.

iv Cf. Gn 2, 24.

vMt 19, 12.

viGn 2, 23-25.

vii 19, 11-12.

viii Cf. Gaudium et spes, 24.

ix Cf. Mt 19, 3-10.

x Cf. Mt 19, 11-12.

xi Cf. Mt 19, 3-10.

xii Cf. Mt 19, 11-12.

xiii Cf. Mt 19, 11-12.

xivMt 19, 12.

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