78ª. Continência e matrimônio são duas situações fundamentais – 14/04/1982

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1. Continuamos agora a reflexão das precedentes semanas sobre as palavras acerca da continência “por amor do Reino dos Céus”, que, segundo o Evangelho de Mateusi, Cristo dirigiu aos seus discípulos.

Digamos mais uma vez que estas palavras, em toda a sua concisão, são admiravelmente ricas e precisas, ricas de um conjunto de implicações quer de natureza doutrinal quer pastoral, e, ao mesmo tempo, indicam um limite justo neste campo. Assim, por conseguinte, qualquer interpretação maniqueísta mantém-se decididamente além daquele limite, como também dele se mantém, segundo o que disse Cristo no Sermão da Montanha, o desejo concupiscente “no coração”ii.

Nas palavras de Cristo sobre a continência “por amor do Reino dos Céus” não há indício algum acerca da “inferioridade’ do matrimônio no que diz respeito ao “corpo”, ou seja, a respeito da essência do matrimônio, consistente no fato de que, nele, o homem e a mulher unem-se de modo a serem uma “só carne”iii. As palavras de Cristo referidas em Mateus 19, 11-12 (como também as palavras de Paulo na primeira Epístola aos Coríntios, cap. 7) não oferecem motivo para sustentar nem a “inferioridade” do matrimônio, nem a “superioridade” da virgindade ou do celibato, dado que estes, pela sua natureza consistem em abster-se da “união” conjugal “no corpo”. Sobre este ponto as palavras de Cristo são decididamente límpidas. Ele propõe aos seus discípulos o ideal da continência e o apelo a ela não por motivo de inferioridade ou em prejuízo da “união” conjugal “no corpo”, mas só “por amor do Reino dos Céus”.

2. Neste ponto torna-se particularmente útil um esclarecimento mais aprofundado da expressão mesma “por amor do Reino dos Céus”; e é isto que a seguir procuraremos fazer, pelo menos de modo sumário. Porém, no que se refere à justa compreensão da relação entre o matrimônio e a continência de que fala Cristo, e a compreensão de tal relação como a entendeu toda a tradição, vale a pena acrescentar que aquela “superioridade” e “inferioridade” estão contidas nos limites da mesma complementariedade do matrimônio e da continência por amor ao Reino de Deus. O matrimônio e a continência nem se contrapõem um ao outro, nem dividem de per si a comunidade humana (e cristã) em dois campos (digamos: “perfeitos” em virtude da continência e “imperfeitos” ou menos perfeitos devido à realidade da vida conjugal). Mas estas duas situações fundamentais, ou seja, como se costuma dizer, estes dois “estados”, em certo sentido explicam-se e completam-se reciprocamente, quanto à existência e à vida (cristã) desta comunidade, a qual no seu conjunto e em todos os seus membros se realiza na dimensão do Reino de Deus e tem uma orientação escatológica, que é própria daquele reino. Pois bem, a propósito desta dimensão e desta orientação —em que a comunidade inteira deve participar, isto é, todos aqueles que pertencem a ela— a continência “por amor do Reino dos Céus” tem particular importância e particular eloqüência para aqueles que vivem a vida conjugal. Sabe-se, além disso, que estes últimos constituem a maioria.

3. Parece, por conseguinte, que uma complementariedade assim entendida encontra a sua base nas palavras de Cristo segundo Mateus 19, 11-12 (e também na primeira Epístola aos Coríntios, cap. 7). Não existe, aliás, fundamento algum para uma suposta contraposição, segundo a qual os solteiros (ou as solteiras), apenas em virtude da continência, constituiriam a classe dos “perfeitos”, e, pelo contrário, as pessoas casadas constituiriam a classe dos “não perfeitos” (ou dos “menos perfeitos”). Se, considerando uma certa tradição teológica, se fala do estado de perfeição (status perfectionis), não é por motivo da continência mesma, mas a respeito do conjunto da vida fundada sobre os conselhos evangélicos (pobreza, castidade e obediência), pois esta vida corresponde ao chamamento de Cristo para a perfeição (“Se queres ser perfeito…”iv). A perfeição da vida cristã, pelo contrário, é aferida pela medida da caridade. Daqui conclui-se que uma pessoa que não viva no “estado de perfeição” (isto é, numa instituição que funde o seu plano de vida sobre os votos de pobreza, castidade e obediência), ou seja, que não viva num Instituto religioso, mas no “mundo”, pode alcançar de fato um grau superior de perfeição —cuja medida é a caridade— em relação à pessoa que viva no “estado de perfeição”, com menor grau de caridade. Todavia, os conselhos evangélicos ajudam sem dúvida a alcançar uma caridade mais plena. Portanto, quem quer que a alcance, mesmo se não vive num “estado de perfeição” institucionalizado, chega àquela perfeição que nasce da caridade, mediante a fidelidade ao espírito daqueles conselhos. Tal perfeição é possível e acessível a cada homem, quer num “Instituto religioso” quer no “mundo”.

4. Às palavras de Cristo referidas por Mateusv, parece, portanto, corresponder adequadamente à complementariedade do matrimônio e da continência “por amor do Reino dos Céus” no seu significado e no seu multíplice alcance. Na vida de uma comunidade autenticamente cristã, as atitudes e os valores próprios de um estado e do outro —isto é, de uma ou outra escolha essencial e consciente como vocação para toda a vida terrena e na perspectiva da “Igreja celeste”— completam-se e, em certo sentido compenetram-se reciprocamente. O perfeito amor conjugal deve ser caracterizado por aquela fidelidade e por aquela doação do único Esposo (e também pela fidelidade e a doação do Esposo à única Esposa), sobre que se fundam a profissão religiosa e o celibato sacerdotal. Em definitivo, a natureza de um e outro amor é “esponsal”, ou seja, expressa mediante o dom total de si. Um amor e outro tendem a exprimir aquele significado esponsal do corpo, que “desde o princípio” está inscrito na mesma estrutura pessoal do homem e da mulher.

Retomaremos a seguir este assunto.

5. Por outro lado, o amor esponsal que encontra a sua expressão na continência “por amor do Reino dos Céus”, deve levar no seu regular desenvolvimento à “paternidade” ou “maternidade” em sentido espiritual (ou seja, precisamente àquela “fecundidade do Espírito Santo”, de que já falamos), de modo análogo ao amor conjugal que amadurece na paternidade e maternidade física e nela se confirma exatamente como amor esponsal. Por seu lado, também a geração física corresponde plenamente ao seu significado, apenas se é completada pela paternidade e maternidade no espírito, cuja expressão e cujo fruto são toda a obra educadora dos pais para com os filhos, nascidos da sua união conjugal corpórea.

Como se vê, numerosos são os aspectos e as esferas da complementariedade entre a vocação, em sentido evangélico, daqueles que “tomam esposa e tomam marido”vi e daqueles que, consciente e voluntariamente, escolhem a continência “por amor do Reino dos Céus”vii.

Na sua Primeira Epístola aos Coríntios (cuja análise faremos posteriormente, durante as nossas considerações) São Paulo escreverá sobre este tema: “Cada qual recebe de Deus o seu próprio dom, este de uma maneira, aquele de outra”viii.

i 19, 10-12.

ii Cf. 5, 27-28.

iii Cf. Gn 2, 24: “Os dois serão uma só carne”.

ivMt 19, 21.

v 19, 11-12.

viLc 20, 34.

viiMt 19, 12.

viii1Cor 7, 7.

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