75ª. O valor da continência “por amor do Reino dos Céus” – 24/03/1982

em Capítulo III | 0

1. Continuamos as nossas reflexões sobre o celibato e sobre a virgindade “por amor do Reino dos Céus”.

A continência por amor do Reino dos Céus está certamente relacionada com a revelação de que no Reino dos Céus “não se toma nem mulher nem marido”i. É um sinal carismático. O ser homem vivo, varão e mulher, que na situação terrena onde, segundo o costume, “tomam mulher e tomam marido”ii, escolhe com livre vontade a continência “por amor do Reino dos Céus”, indica que naquele reino que é o “outro mundo” da ressurreição, “não tomarão mulher nem marido”iii, porque Deus será “tudo em todos”iv. Tal “ser homem”, varão e mulher, indica, portanto, a “virgindade” escatológica do homem ressuscitado, e que se revelará, diria, o absoluto e eterno significado esponsal do corpo glorificado na união com o próprio Deus, mediante a visão d’Ele “face a face”; e glorificado, também, mediante a união de uma perfeita intersubjetividade, que unirá todos os “participantes do outro mundo”, homens e mulheres, no mistério da comunhão dos santos. A continência terrena “por amor do Reino dos Céus” é indubitavelmente um sinal que indica esta verdade e esta realidade. E sinal de o corpo, cujo fim não é a morte, tender para a glorificação e ser já por isso mesmo, diria, entre os homens um testemunho que antecipa a futura ressurreição. Todavia, este sinal carismático do “outro mundo” exprime a força e a dinâmica mais autêntica do mistério “da redenção do corpo”: mistério, que por Cristo foi inscrito na história terrena do homem e nesta história foi por Ele profundamente radicado. Assim, portanto, a continência “por amor do Reino dos Céus” leva sobretudo a marca da semelhança com Cristo, que, na obra da redenção, fez Ele mesmo esta escolha “por amor do Reino dos Céus”.

2. Pelo contrário, toda a vida de Cristo, desde o princípio, foi uma discreta mas clara separação daquilo que no Antigo Testamento tão profundamente determinou o significado do corpo. Cristo —quase contra as expectativas de toda a tradição vétero-testamentária— nasceu de Maria, que no momento da Anunciação diz claramente de si mesma: “Como será isso, se eu não conheço homem?”v, e professa, quer dizer, a sua virgindade. E embora Ele nasça de Maria como todo o homem, do mesmo modo que qualquer filho nasce da sua mãe, embora esta vinda ao mundo seja acompanhada também pela presença de um homem que é esposo de Maria e, diante da lei e dos homens, seu marido, todavia a maternidade de Maria é virginal; e a esta virginal maternidade de Maria corresponde o mistério virginal de José que, seguindo a voz do alto, não hesita em “receber Maria… pois o que ela concebeu é obra do Espírito Santo”vi. Embora, portanto, a concepção virginal e o nascimento de Jesus Cristo para o mundo estivessem ocultos aos homens, embora diante dos olhos dos seus conterrâneos de Nazaré Ele fosse considerado “filho do carpinteiro”vii (ut putabutur filius Josephviii), todavia a mesma realidade e verdade essencial da sua concepção e do nascimento aparta-se em si mesma daquilo que, na tradição do Antigo Testamento, esteve exclusivamente em favor do matrimônio, e tornava a continência incompreensível e socialmente desfavorecida. Por isso, como podia ser compreendida “a continência por amor do Reino dos Céus”, se o Messias esperado devia ser “descendente de Davi”, quer dizer, como se julgava, devia ser filho da estirpe real “segundo a carne”? Só Maria e José, que viveram o mistério da Sua concepção e do Seu nascimento, se tornaram as primeiras testemunhas de uma fecundidade diversa da carnal, isto é, da fecundidade do espírito: “O que ela concebeu é obra do Espírito Santo”ix.

3. A história do nascimento de Jesus encontra-se certamente em linha com a revelação daquela “continência por amor do Reino dos Céus”, de que falará Cristo, um dia, aos Seus discípulos. Este acontecimento fica, porém, escondido aos homens de outrora e também aos discípulos. Só gradualmente ele se desvelará diante dos olhos da Igreja com base nos testemunhos e nos textos dos Evangelhos de Mateus e de Lucas. O matrimônio de Maria com José (em que a Igreja honra José como esposo de Maria e Maria como esposa dele), encerra em si, ao mesmo tempo, o mistério da perfeita comunhão das pessoas, do Homem e da Mulher no pacto conjugal, e ao mesmo tempo o mistério daquela singular “continência por amor do Reino dos Céus”: continência que servia, na história da salvação, para a mais perfeita “fecundidade do Espírito Santo“. Mais, ela era, em certo sentido, a absoluta plenitude daquela fecundidade espiritual, uma vez que precisamente nas condições nazaretanas do pacto de Maria e José no Matrimônio e na continência, se realizou o dom da encarnação do Verbo Eterno: o Filho de Deus, consubstancial ao Pai foi concebido e nasceu como Homem da Virgem Maria. A graça da união hipostática está ligada precisamente com esta, diria, absoluta plenitude da fecundidade sobrenatural, fecundidade no Espírito Santo, participada de uma criatura humana, Maria, na ordem da “continência por amor do Reino dos Céus”. A divina maternidade de Maria é também, em certo sentido, uma superabundante revelação daquela fecundidade do Espírito Santo, a que o homem submete o seu espírito, quando livremente escolhe a continência “no corpo”: precisamente, a continência “por amor do Reino dos Céus”.

4. Tal imagem devia gradualmente manifestar-se diante da consciência da Igreja nas gerações sempre novas dos confessores de Cristo, quando —juntamente com o Evangelho da infância— se consolidava neles a certeza acerca da divina maternidade da Virgem, a qual tinha concebido por obra do Espírito Santo. Ainda que de modo só indireto —todavia de modo essencial e fundamental— tal certeza devia ajudar a compreender, por um lado, a santidade do matrimônio e, por outro, o desinteresse “por amor do Reino dos Céus”, de que falara Cristo aos Seus discípulos. Todavia, quando Ele lhes falou disso pela primeira vez (como atesta o evangelista Mateus no cap. 19, 10-12), aquele grande mistério da Sua concepção e do Seu nascimento completamente desconhecido ficou-lhes oculto como o foi a todos os ouvintes e interlocutores de Jesus de Nazaré. Quando Cristo falava daqueles que “se fizeram eunucos por amor do Reino dos Céus”x, os discípulos eram capazes de compreendê-lo só baseados no Seu exemplo pessoal. Tal continência houve de imprimir-se na consciência deles como traço particular de semelhança com Cristo, que tinha ficado Ele próprio celibatário “por amor do Reino dos Céus”. Afastar-se da tradição da Antiga Aliança, em que o matrimônio e a fecundidade procriativa “no corpo” tinham sido uma condição religiosamente privilegiada devia efetuar-se sobretudo com base no exemplo de Cristo mesmo. Só pouco a pouco pôde radicar-se a consciência de que, “por amor do Reino dos Céus”, tem um significado particular aquela fecundidade espiritual e sobrenatural do homem, a qual provém do Espírito Santo (Espírito de Deus), e à qual, em sentido específico e em casos determinados, serve precisamente a continência, e que esta é, na verdade, a continência “por amor do Reino dos Céus”.

Mais ou menos, todos estes elementos da consciência evangélica (isto é, a consciência própria da Nova Aliança em Cristo) relativos à continência, encontramo-los em Paulo. Procuraremos mostrá-lo a seu tempo.

Resumindo, podemos dizer que o tema principal da presente meditação foi o relacionamento entre a continência “por amor do Reino dos Céus”, proclamada por Cristo, e a fecundidade sobrenatural do espírito humano, que provém do Espírito Santo.

iMt 22, 30.

iiLc 20, 34.

iiiMc 12, 25.

iv1Cor 15, 28.

vLc 1, 34.

viMt 1, 20.

viiMt 13, 55.

viiiLc 3, 23.

ixMt 1, 20.

xMt 19, 12.

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