70ª. A ressurreição de Cristo é resposta ao inevitável da morte do corpo – 27/02/1982

em Capítulo III | 0

1. Durante as precedentes Audiências, refletimos sobre as palavras de Cristo acerca do “outro mundo”, que surgirá juntamente com a ressurreição dos corpos.

Essas palavras tiveram ressonância especialmente intensa no ensinamento de São Paulo. Entre a resposta dada aos saduceus, transmitida pelos Evangelhos sinóticosi, e o apostolado de Paulo, realizou-se antes de tudo o fato da ressurreição do mesmo Cristo e depois uma série de encontros com o Ressuscitado, entre os quais se deve mencionar, como último anel, o acontecimento ocorrido perto de Damasco. Saulo ou Paulo de Tarso que, uma vez convertido, se tornou o “apóstolo dos gentios”, teve também a sua experiência pós-pascal, análoga à dos outros Apóstolos. Na base da sua fé na ressurreição, que ele exprime sobretudo na primeira Epístola aos Coríntios (Capítulo 15), está certamente aquele encontro com o Ressuscitado, que se tornou início e fundamento do seu apostolado.

2. É difícil aqui resumir e comentar adequadamente a estupenda e vasta argumentação do 15º capítulo da primeira Epístola aos Coríntios em todos os seus particulares. É significativo que, respondendo Cristo —com as palavras referidas pelos Evangelhos sinóticos— aos saduceus que “negam haver ressurreição”ii, Paulo, por seu lado, responde ou antes polemiza (em conformidade com o seu temperamento) com aqueles que o atacam1. Cristo, na sua resposta (pré-pascal) não fazia referência à própria ressurreição, mas apelava para a fundamental realidade da Aliança vétero-testamentária, para a realidade do Deus vivo, que está na base da convicção acerca da possibilidade da ressurreição: o Deus vivo “não é um Deus dos mortos mas dos vivos”iii. Paulo na sua argumentação pós-pascal sobre a futura ressurreição apela sobretudo para a realidade e para a verdade da ressurreição de Cristo. Mais, defende tal verdade mesmo como fundamento da fé na sua integridade: “… Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação e vã também a vossa fé… Mas não! Cristo ressuscitou dos mortos”iv.

3. Aqui, nos encontramos na mesma linha da revelação: a ressurreição de Cristo é a última e a mais plena palavra da auto-revelação do Deus vivo como “Deus não dos mortos, mas dos vivosv. É a última e mais plena confirmação da verdade sobre Deus, que desde o princípio se exprime por meio desta revelação. A ressurreição, além disso, é a resposta do Deus da vida à inevitabilidade histórica da morte, a que o homem foi submetido desde o momento da ruptura da primeira Aliança, morte que, juntamente com o pecado, entrou na sua história. Tal resposta acerca da vitória ganha sobre a morte, é explicada pela primeira Epístola aos Coríntios (capítulo 15) com singular perspicácia, apresentando a ressurreição de Cristo como o início daquela realização escatológica, em que por Ele e n’Ele tudo voltará ao Pai, tudo Lhe será submetido, isto é, entregue definitivamente, para que “Deus seja tudo em todos”vi. E então —nesta definitiva vitória sobre o pecado, sobre o que contrapunha a criatura ao Criador— será também vencida a morte: “O último inimigo a ser destruído será a morte”vii.

4. Em tal contexto, estão inseridas as palavras que podem ser consideradas síntese da antropologia paulina relativas à ressurreição. E é sobre estas palavras que será conveniente determo-nos aqui mais longamente. Lemos, de fato, na primeira Epístola aos Coríntios 15, 42-46, acerca da ressurreição dos mortos: “Semeia-se na corrupção e ressuscita-se na incorrupção. Semeia-se na ignomínia e ressuscita-se na glória. Semeia-se na fraqueza, ressuscita-se na força. Semeia-se corpo natural, e ressuscita-se corpo espiritual. Se há corpo natural, também o há espiritual. Por isso, está escrito: ‘O primeiro homem, Adão, foi feito alma vivente; o último Adão é espírito vivificante’. Mas não é o espiritual que vem primeiro, é sim o natural; o espiritual vem depois”.

5. Entre esta antropologia paulina da ressurreição e a que deriva do texto dos Evangelhos sinóticosviii, existe coerência essencial, só que o texto da primeira Epístola aos Coríntios está mais desenvolvido. Paulo aprofunda o que tinha anunciado Cristo, penetrando, ao mesmo tempo, nos vários aspectos daquela verdade que nas palavras escritas pelos sinóticos tinha sido expressa de modo conciso e substancial. É, além disso, significativo para o texto paulino que a perspectiva escatológica do homem, baseada sobre a fé “na ressurreição dos mortos”, está unida com a referência ao “princípio” como também com a profunda consciência da situação “histórica” do homem. O homem, a quem Paulo se dirige na primeira Epístola aos Coríntios e que se opõe (como os saduceus) à possibilidade da ressurreição, tem ainda a sua (“histórica”) experiência do corpo, e desta experiência resulta, com toda a clareza, que o corpo é “corruptível”, “débil”, “animal” e “ignóbil”.

6. Tal homem, destinatário do seu escrito —seja na Comunidade de Corinto, seja também, diria, em todos os tempos— Paulo confronta-o com Cristo ressuscitado, “o último Adão”. Fazendo assim, convida-o, em certo sentido, a seguir os rastos da própria experiência pós-pascal. Ao mesmo tempo, recorda-lhe “o primeiro Adão”, isto é, leva-o a dirigir-se ao “princípio”, àquela primeira verdade acerca do homem e do mundo, que está na base da revelação do mistério do Deus vivo. Assim, portanto, Paulo reproduz na sua síntese tudo o que anunciara Cristo, quando apelou, em três momentos diversos, para o “princípio” no colóquio com os fariseusix; para o “coração” humano, como lugar de luta com as concupiscências no interior do homem, durante o Sermão da Montanhax; e para a ressurreição como realidade do “outro mundo”, no colóquio com os saduceusxi.

7. Ao estilo da síntese de Paulo pertence, portanto, o fato de ela lançar as suas raízes no conjunto do mistério revelado da criação e da redenção, do qual ela parte e, em cuja luz unicamente, ela encontra a sua explicação. A criação do homem, segundo a narrativa bíblica, é uma vivificação da matéria mediante o espírito, graças à qual “o primeiro homem, Adão… foi feito alma vivente”xii. O texto paulino repete aqui as palavras do Livro do Gênesis 2, 7, isto é, da segunda narrativa da criação do homem (chamada: narrativa javista). É sabido pela mesma fonte que esta originária “animação do corpo” sofreu uma corrupção por causa do pecado. Embora, neste ponto da primeira Epístola aos Coríntios, o Autor não fale diretamente do pecado original, todavia a série de definições que atribui ao corpo do homem histórico, escrevendo que é “corruptível… débil… animal… ignóbil…”, indica suficientemente o que, segundo a revelação, é conseqüência do pecado, aquilo que o mesmo Paulo chamará noutra passagem “servidão da corrupção”xiii. A esta “servidão da corrupçãoestá submetida indiretamente toda a criação por causa do pecado do homem, o qual foi posto pelo Criador no meio do mundo visível para que “dominasse”xiv. Assim, o pecado do homem tem dimensão não só interior, mas também “cósmica”. E segundo tal dimensão, o corpo —que Paulo (em conformidade com a sua experiência) caracteriza como “corruptível… débil… animal… ignóbil…”— exprime em si o estado da criação depois do pecado. Esta criação, de fato, “tem gemido e sofrido as dores do parto até hoje”xv. Todavia, como as dores do parto estão unidas ao desejo do nascimento, à esperança de um homem novo, assim também toda a criação espera “com impaciência a revelação dos filhos de Deus… e alimenta esperança de ser, também ela, liberta da escravidão da corrupção, para entrar na liberdade da glória dos filhos de Deus”xvi.

8. Através de tal contexto “cósmico” da afirmação contida na Epístola aos Romanos —em certo sentido, através do “corpo de todas as criaturas”— procuramos compreender até ao fundo a interpretação paulina da ressurreição. Se esta imagem do corpo do homem histórico, tão profundamente realista e adequada à experiência universal dos homens, esconde em si, segundo Paulo, Não só a “escravidão da corrupção”, mas também a esperança, semelhante àquela que acompanha “as dores do parto”, isto acontece porque o Apóstolo encerra nesta imagem também a presença do mistério da redenção. A consciência daquele mistério desprende-se exatamente de todas as experiências do homem que se podem definir como “escravidão da criação”; e desprender-se, porque a redenção opera na alma do homem mediante os dons do Espírito: “… Também nós próprios, que possuímos as premissas do Espírito, gememos igualmente em nós mesmos, aguardando a filiação adotiva, a libertação do nosso corpo”xvii. A redenção é o caminho para a ressurreição. A ressurreição constitui o termo definitivo da redenção do corpo.

Retomaremos a análise do texto paulino da primeira Epístola aos Coríntios nas nossas seguintes reflexões.

1 Os Coríntios eram provavelmente afligidos por correntes de pensamento derivadas do dualismo platônico e do neopitagorismo de inspiração religiosa, do estoicismo e do epicurismo; todas as filosofias gregas, aliás, negavam a ressurreição do corpo. Paulo tinha já experimentado em Atenas a reação dos Gregos contra a doutrina da ressurreição, durante o seu discurso no Areópago (cf. At 17, 32).

i Cf. Mt 22, 30; Mc 12, 25; Lc 20, 35-36

iiLc 20, 27.

iiiMc 12, 27.

iv1Cor 15, 14.20.

vMc 12, 27.

vi1Cor 15, 28.

vii1Cor 15, 26.

viiiMt 22,30; Mc 12, 25; Lc 20, 35-36.

ix Cf. Mt 19, 3-8; Mc 10, 2-9.

x Cf. Mt 5, 27.

xi Cf. Mt 22, 30; Mc 12, 25; Lc 20, 35-36.

xii1Cor 15, 45.

xiiiRm 8, 21.

xiv Cf. Gn 1, 28.

xvRm 8, 22.

xviRm 8, 19-21.

xviiRm 8, 23.

Deixe um comentário