69ª. Valor primeiro e definitivo do corpo humano – 13/01/1982

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1. “Quando ressuscitarem… nem casarão, nem se darão em casamento, mas serão como anjos de Deus”i. “… São semelhantes aos anjos e, sendo filhos da ressurreição, são filhos de Deus”ii.

As palavras com que se refere Cristo à futura ressurreição —palavras confirmadas de maneira singular pela Sua ressurreição— completam o que nas presentes reflexões nos habituamos a chamar “revelação do corpo”. Tal revelação penetra, por assim dizer, no coração mesmo da realidade que experimentamos, e esta realidade é sobretudo o homem, o seu corpo, o corpo do homem “histórico”. Ao mesmo tempo, tal revelação consente-nos ultrapassar a esfera desta experiência em duas direções. Primeiro, na direção daquele “princípio”, ao qual faz referência Cristo na sua conversa com os fariseus a respeito da indissolubilidade do matrimônioiii; depois, na direção do “mundo futuro”, para o qual o Mestre dirige os espíritos e os seus ouvintes em presença dos saduceus, que “afirmam que não há ressurreição”iv.

2. Nem a verdade, sobre aquele “princípio” de que fala Cristo, nem a verdade escatológica, podem ser atingidas pelo homem só com os métodos empíricos e racionalistas. Todavia, não é acaso possível afirmar que o homem traz, em certo sentido, estas duas dimensões no fundo da experiência do próprio ser, ou antes que ele de algum modo está encaminhado para elas como para dimensões que justificam plenamente o significado mesmo do seu ser corpo, isto é, do seu ser homem “carnal”? Enquanto, depois, à dimensão escatológica, não é acaso verdade que a morte mesma e a destruição do corpo podem conferir ao homem um eloqüente significado a respeito da experiência em que se realiza o sentido pessoal da existência? Quando Cristo fala da futura ressurreição, as Suas palavras não caem no vácuo. A experiência da humanidade, especialmente a experiência do corpo, permitem ao ouvinte unir àquelas palavras a imagem da sua nova existência no “mundo futuro”, a que a experiência terrena fornece o substrato e a base? Uma correspondente reconstrução teológica é possível.

3. Para a construção desta imagem —que, quanto ao conteúdo, corresponde ao artigo da nossa profissão de fé: “creio na ressurreição dos mortos— concorre em grande medida o conhecimento de que existe uma relação entre a experiência terrena e toda a dimensão do “princípio” bíblico do homem no mundo. Se no princípio Deus “os criou varão e mulher”v, se nesta dualidade relativa ao corpo previu também tal unidade que “serão uma só carne”vi, se ligou esta unidade à bênção da fecundidade, ou seja, da procriaçãovii, e se agora, falando da futura ressurreição diante dos saduceus, Cristo explica que “no outro mundo” “nem casarão nem se darão em casamento” —então é claro que se trata aqui de um desenvolvimento da verdade sobre o homem mesmo. Cristo indica a Sua identidade, embora esta identidade se realize na experiência escatológica de modo diverso a respeito da experiência do “princípio” mesmo, e de toda a história. Todavia, o homem será sempre o mesmo, tal como saiu das mãos do seu Criador e Pai. Cristo diz: “Nem casarão, nem se darão em casamento”, mas não afirma que este homem do “mundo futuro” já não será varão e mulher como o foi “desde o princípio”. É, portanto, evidente que o significado de ser, quanto ao corpo, varão ou mulher no “mundo futuro” deve procurar-se fora do matrimônio e da procriação, mas não há qualquer motivo para o procurar fora daquilo que (independentemente da bênção da procriação) deriva do mistério mesmo da criação e que em seguida forma também a mais profunda estrutura da história do homem sobre a terra, dado que esta história foi profundamente compenetrada pelo mistério da redenção.

4. Na sua situação original, o homem, portanto, está só e ao mesmo tempo torna-se varão e mulher: unidade dos dois. Na sua solidão “revela-se” a si como pessoa, para “revelar”, ao mesmo tempo, na unidade dos dois a comunhão das pessoas. Num ou noutro estado, o ser humano constitui-se como imagem e semelhança de Deus. Desde o princípio o homem é também corpo entre os corpos e na unidade dos dois torna-se varão e mulher, descobrindo o significado “esponsal” do seu corpo à medida de sujeito pessoal. Em seguida, o sentido de ser corpo e, em particular, de ser corpo varão e mulher, está ligado com o matrimônio e a procriação (quer dizer, com a paternidade e a maternidade). Todavia, o significado original e fundamental de ser corpo, como também de ser, enquanto corpo, varão e mulher —isto é precisamente aquele significado “esponsal”— está unido ao homem ser criado como pessoa e chamado à vida “in communione personarum”. O matrimônio e a procriação em si mesma não determinam definitivamente o significado original e fundamental do ser corpo nem do ser, enquanto corpo, varão e mulher. O matrimônio e a procriação dão só realidade concreta àquele significado nas dimensões da história. A ressurreição indica o encerramento da dimensão histórica. E eis que as palavras “quando ressuscitarem os mortos… nem casarão nem se darão em casamento”viii exprimem univocamente não só qual significado não terá o corpo humano no “mundo futuro”, mas consentem-nos também deduzir que o significado “esponsal” do corpo, na ressurreição para a vida futura, corresponderá de modo perfeito quer ao homem, como varão-mulher, ser pessoa criada à “imagem e semelhança de Deus”, quer a esta imagem se realizar na comunhão das pessoas. Aquele significado “esponsal” de ser corpo realizar-se-á, portanto, como significado perfeitamente pessoal e comunitário, ao mesmo tempo.

5. Falando do corpo glorificado através da ressurreição para a vida futura, temos no espírito o homem, varão-mulher, em toda a verdade da sua humanidade: o homem que, juntamente com a experiência escatológica do Deus vivo (com a visão “face a face”), experimentará precisamente tal significado do próprio corpo. Será esta uma experiência completamente nova, e ao mesmo tempo não será de nenhum modo alheada por aquilo em que o homem “desde o princípio” teve parte e também não por aquilo que, na dimensão histórica da sua existência, constituiu nele a fonte da tensão entre o espírito e o corpo, relativa sobretudo precisamente ao significado procriativo do corpo e do sexo. O homem do “mundo futuro” encontrará, nessa nova experiência do próprio corpo, exatamente a realização daquilo que trazia em si, perene e historicamente, em certo sentido, como herança e mais ainda como encargo e objetivo, como conteúdo do ethos.

6. A glorificação do corpo, como fruto escatológico da sua espiritualidade divinizante, revelará o valor definitivo daquilo que desde o princípio devia ser sinal distintivo da pessoa criada no mundo visível, como também meio do recíproco comunicar-se entre as pessoas e uma autêntica expressão da verdade e do amor, pela qual se constrói a communio personarum. Aquele perene significado do corpo humano —a que a existência de cada homem, gravado pela hereditariedade da concupiscência, trouxe necessariamente uma série de limitações, lutas e sofrimentos— então se desvelará de novo, e se desvelará em tal simplicidade e esplendor juntamente, de maneira que todo o participante do “outro mundo” encontrará, no seu corpo glorificado, a fonte da liberdade do dom. A perfeita “liberdade dos filhos de Deus”ix alimentará, com aquele dom, também cada uma das comunhões que formarão a grande comunidade da comunhão dos santos.

7. É demasiado evidente que —sobre a base das experiências e conhecimentos do homem na temporalidade, isto é, “neste mundo” —é difícil construir uma imagem plenamente adequada do “mundo futuro”. Todavia, não há, ao mesmo tempo, dúvida de que, com a ajuda das palavras de Cristo, é possível e alcançável certa aproximação, pelo menos desta imagem. Servimo-nos desta aproximação teológica, professando a nossa fé na “ressurreição dos mortos” e na “vida eterna”, como também a fé na “comunhão dos santos”, que pertence à realidade do “mundo futuro”.

8. Ao concluirmos esta parte das nossas reflexões, convém verificar uma vez mais que as palavras de Cristo referidas pelos Evangelhos sinóticosx têm significado determinante não só pelo que respeita às palavras do Livro do Gênesis (às quais Cristo se refere noutra circunstância), mas também naquilo que se relaciona com toda a Bíblia. Estas palavras consentem-nos, em certo sentido, ler novamente —isto é, até ao fundo— todo o significado revelado do corpo, o significado de ser homem, isto é, pessoa “encarnada”, de ser, enquanto corpo, varão-mulher. Estas palavras permitem-nos compreender o que pode significar, na dimensão escatológica do “outro mundo”, aquela unidade na humanidade, que foi constituída “no princípio” e que as palavras de Gênesis 2, 24 (“O homem… unir-se-á a sua mulher e os dois serão uma só carne”), pronunciadas no ato da criação do homem como varão e mulher, pareciam orientar-se —se não completamente, pelo menos sobretudo— para “este mundo”. Dado que as palavras do Livro do Gênesis eram quase o limiar de toda a teologia do corpo —limiar sobre que se baseou Cristo no seu ensinamento sobre o matrimônio e sobre a indissolubilidade dele— então é necessário admitir que as Suas palavras, referidas pelos sinóticos, são como um novo limiar desta verdade integral sobre o homem, que encontramos na Palavra revelada de Deus. É indispensável que nos detenhamos neste limiar, se queremos que a nossa teologia do corpo —e também a nossa “espiritualidade do corpo” cristã— possam servir-se dela como de uma imagem completa.

iMt 22, 30, analogamente Mc 12, 25.

iiLc 20, 36.

iii Cf. Mt 19, 3-9.

ivMt 22, 23.

vGn 1, 27.

viGn 2, 24.

vii Cf. Gn 1, 29.

viiiMc 12, 25.

ix Cf. Rm 8, 14.

xMt 22, 30; Mc 12, 25; Lc 20, 34-35.

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