64ª. Palavras essenciais para a teologia do corpo – 11/11/1981

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1. Retomamos hoje, depois de uma pausa um tanto longa, as meditações feitas há tempos, que definimos como reflexões sobre a teologia do corpo.

Ao continuar, convém, desta vez, referirmo-nos às palavras do Evangelho, quando Cristo fala sobre a ressurreição: palavras que têm importância fundamental para entender o matrimônio no sentido cristão e também “a renúncia” à vida conjugal pelo “reino dos céus”.

A complexa casuística do Antigo Testamento no campo matrimonial não somente levou os fariseus a dirigirem-se a Cristo para lhe expor o problema da indissolubilidade do matrimônioi, mas também, outra vez, os saduceus para O interrogar sobre a lei do chamado levirato1. Este colóquio é reproduzido concordemente pelos sinóticosii. Ainda que todas as três redações sejam quase idênticas, notam-se todavia entre elas algumas diferenças leves, mas, ao mesmo tempo, significativas. Porque o colóquio é referido em três versões —as de Mateus, Marcos e Lucas— requer-se análise mais aprofundada, pois ele compreende conteúdos que têm um significado essencial para a teologia do corpo.

Ao lado dos dois outros importantes colóquios —isto é, aquele em que faz referência Cristo ao “princípio”iii, e o outro em que tem em vista a intimidade do homem (o “coração”), indicando o desejo e a concupiscência da carne como fonte do pecadoiv— o colóquio que nos propomos agora submeter a análise, constitui, diria, a terceira componente do tríptico das enunciações do próprio Cristo: tríptico de palavras essenciais e constitutivas para a teologia do corpo. Neste colóquio Jesus refere-se à ressurreição, desvelando assim uma dimensão completamente nova do mistério do homem.

2. A revelação desta dimensão do corpo, estupenda no seu conteúdo —mas ligada com o Evangelho relido o seu conjunto e até ao fundo— manifesta-se no colóquio com os saduceus, “os quais afirmam que não há ressurreição”v2; vieram ter com Cristo para Lhe expor um assunto que —segundo julgavam— confirma o bom fundamento da posição por eles tomada. Este argumento devia contradizer “a hipótese da ressurreição”. O raciocínio dos saduceus é o seguinte: “Mestre, Moisés prescreveu-nos que, se morresse o irmão de alguém, deixando a mulher e não deixando filhos, seu irmão teria de casar com a viúva para proporcionar descendência ao irmão”vi. Os saduceus repetem aqui a chamada lei do leviratovii e, atendo-se à prescrição desta antiga lei, apresentam o seguinte “caso”. “Eram sete irmãos, e o primeiro casou e morreu sem deixar filhos. O segundo casou com a viúva e morreu também sem deixar filhos, e o mesmo aconteceu ao terceiro; e todos os sete morreram sem deixar descendência. Finalmente, morreu a mulher. Na ressurreição, de qual deles será ela mulher? Porque os sete a tiveram por mulher”viii3.

3. A resposta de Cristo é uma das respostas-chaves do Evangelho, em que é revelada —exatamente a partir dos raciocínios puramente humanos e em contraste com eles— outra dimensão da questão, isto é, a que responde à sabedoria e à potência do próprio Deus. De maneira análoga, por exemplo, se tinha apresentado o caso da moeda do tributo com a imagem de César e da relação correta entre o que, no âmbito do poder, é divino e o que é humano (“de César”)ix. Desta vez, Jesus responde assim: “Não andareis enganados por desconhecerdes as Escrituras e o poder de Deus? Quando ressuscitarem dentre os mortos, nem casarão, nem se darão em casamento, mas serão como anjos nos céus”x. Esta é a resposta basilar do “caso”, isto é, do problema que nele está incluído. Cristo, conhecendo as idéias dos saduceus, e intuindo as suas autênticas intenções, retoma, em seguida, o problema da possibilidade da ressurreição, negada pelos saduceus mesmos: “E, acerca da ressurreição dos mortos, não lestes no livro de Moisés, no episódio da sarça, como Deus lhe falou, dizendo: Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó? Não é Deus de mortos, mas de vivos”xi. Como se vê, Cristo cita o próprio Moisés a quem fizeram referência os saduceus, e termina afirmando: “Andais muito enganados”xii.

4. Esta afirmação conclusiva, Cristo repete-a ainda uma segunda vez. De fato, a primeira vez pronunciou-a no princípio da exposição. Disse nesta altura: “Estais enganados, porque desconheceis as Escrituras e o poder de Deus”: assim lemos em Mateusxiii. E em Marcos: “Não andareis enganados por desconhecerdes as Escrituras e o poder de Deus?”xiv. Contudo, a mesma resposta de Cristo, na versão de Lucasxv, é destituída de tom polêmico, daquele “estais em grande erro”. Por outro lado, ele proclama a mesma coisa pois introduz na resposta alguns elementos que não se encontram em Mateus nem em Marcos. Eis o texto: “Jesus respondeu-lhes: Os filhos deste mundo casam e são dados em casamento, mas aqueles que foram julgados dignos de participar do outro mundo e da ressurreição dos mortos, nem se casam, nem são dados em casamento, porque já não podem morrer; são semelhantes aos anjos e, sendo filhos da ressurreição, são filhos de Deus”xvi. Quanto à possibilidade mesma da ressurreição, Lucas —como os dois outros sinóticos— refere-se a Moisés, ou seja, à passagem do Livro do Êxodo 3, 2-6, em que de fato se narra que o grande legislador da Antiga Aliança tinha ouvido da sarça que “ardia no fogo e não se consumia”, as seguintes palavras: “Eu sou o Deus do teu pai, o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó”xvii. Na mesma passagem, quando Moisés perguntou o nome de Deus ouviu a resposta: “Eu sou Aquele que sou”xviii.

Assim, pois, falando da futura ressurreição dos corpos, Cristo recorre ao poder mesmo de Deus vivo. Em seguida, teremos de considerar, de modo mais particularizado, este assunto.

1 Esta lei, encerrada no Deuteronômio 25, 7-10, diz respeito aos irmãos que havitavam sob o mesmo teto. Se um deles morria sem deixar filhos, o irmão do defunto devia tomar como esposa a viúva do irmão falecido. A criança nascida deste matrimônio era reconhecida como filha do defunto, para que não ficasse extinta a sua estirpe e fosse conservada na família a herança (cf. 3, 9-14, 12).

2 No tempo de Cristo, os Saduceus formavam, dentro do judaísmo, uma seita ligada ao círculo da aristocracia sacerdotal. À tradição oral e à teologia elaborada pelos Fariseus, contrapunham eles a interpretação literal do Pentateuco, que julgavam fonte principal da religião javista. Dado que nos livros bíblicos mais antigos não havia menção da vida de além campa, os Saduceus rejeitavam a escatologia proclamada pelos Fariseus, afirmando que “as almas morrem juntamente com o corpo” (cf. Joseph, Antiquitates Judaicae, XVII 1.4, 16).

As concepções dos Saduceus não nos são, todavia, diretamente conhecidas, porque todos os seus escritos se perderam depois da destruição de Jerusalém no ano de 70, quando a seita mesma desapareceu. Escassas são as informações a respeito dos Saduceus; tomamo-las dos escritos dos seus adversários ideológicos.

3 Os Saduceus, dirigindo-se a Jesus para um “caso” puramente teórico, atacam ao mesmo tempo a primitiva concepção dos Fariseus sobre a vida depois da ressurreição dos corpos; insinuam na verdade que a fé na ressurreição dos corpos leva a admitir a poliandria, contrastante com a lei de Deus.

i Cf. Mt 19, 3-9; Mc 10, 2-12.

ii Cf. Mt 22, 24-30; Mc 12, 18-27; Lc 20, 27-40.

iii Cf. Mt 19, 3-9; Mc 10, 2-12.

iv Cf. Mt 5, 27-32.

vMt 22, 23.

viMc 12, 19.

vii Cf. Dt 25, 5-10.

viiiMc 12, 20-23.

ix Cf. Mt 22, 15-22.

xMt 12, 24-25.

xiMc 12, 26-27.

xiiMc 12, 27.

xiii 22, 29.

xivMc 12, 24.

xv 20, 27-36.

xviLc 20, 34-36.

xviiÊx 3, 6.

xviiiÊx 3 ,14.

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