63ª. Responsabilidade ética do artista ao tratar o tema do corpo humano – 06/05/1981

em Capítulo II | 0

1. No Sermão da Montanha pronunciou Cristo as palavras, a que dedicamos uma série de reflexões durante quase um ano. Explicando aos Seus ouvintes o significado próprio do mandamento “Não cometerás adultério”, Cristo assim se exprime: “Eu, porém, digo-vos que todo aquele que olhar para uma mulher, desejando-a, já cometeu adultério com ela no seu coração”i. Parece que as citadas palavras se referem também aos vastos campos da cultura humana, sobretudo aos da atividade artística, de que se tratou já ultimamente, no decorrer de alguns encontros das quartas-feiras. Hoje, convém-nos dedicar a parte final destas reflexões ao problema da relação entre o ethos da imagem —ou da descrição— e o ethos da visão e da auscultação, da leitura ou de outras formas de recepção cognoscitiva, com que se encontra o conteúdo da obra de arte ou da audiovisão entendida em sentido lato.

2. E aqui voltamos uma vez mais ao problema já anteriormente assinalado: se e em que medida o corpo humano, em toda a visível verdade da sua masculinidade e feminilidade, pode ser tema da obra de arte e, por isso mesmo, tema dessa específica “comunicação” social, a que está destinada tal obra. Esta pergunta refere-se ainda mais à cultura contemporânea de “massa”, relacionada com as técnicas audiovisuais. Pode o corpo humano ser um tal modelo-tema, dado que nós sabemos estar ligada com isto aquela objetividade “sem opção” que primeiro chamamos anonimato, e parece trazer consigo uma grave e potencial ameaça da esfera inteira dos significados, própria do corpo do homem e da mulher, por motivo do caráter pessoal do sujeito humano e do caráter da “comunhão” das relações interpessoais?

Pode-se acrescentar neste ponto que as expressões “pornografia” ou “pornovisão” —apesar da sua antiga etimologia— apareceram na linguagem, relativamente tarde. A tradicional terminologia latina servia-se do vocáculo ob-scaena, indicando de tal modo tudo o que não deve encontrar-se diante dos olhos dos espectadores, aquilo que há-de ser circundado por conveniente descrição, aquilo que não pode ser apresentado ao olhar humano sem alguma opção.

3. Fazendo a precedente pergunta, damo-nos conta de que, de fato, no curso de épocas inteiras da cultura humana e da atividade artística, o corpo humano foi e é um tal modelo-tema das obras de arte visíveis, assim como toda a esfera do amor entre o homem e a mulher. Ligado com ele, também o “dar-se recíproco” da masculinidade e da feminilidade, nas suas expressões corpóreas, foi, é e será, tema da narrativa literária. Tal narração encontrou o seu lugar também na Bíblia, sobretudo no texto do “Cântico dos Cânticos”, que nos convirá retomar noutra circunstância. Mas, é necessário reconhecer que na história da literatura ou da arte, na história da cultura humana, este tema se mostra particularmente freqüente e é particularmente importante. De fato, refere-se a um problema que em si mesmo é grande e importante. Manifestamo-lo desde o princípio das nossas reflexões, seguindo os vestígios dos textos bíblicos, que nos revelam a justa dimensão deste problema: isto é, a dignidade do homem na sua corporeidade masculina e feminina, e o significado esponsal da feminilidade e masculinidade, inscrito em toda a estrutura interior —e ao mesmo tempo visível— da pessoa humana.

4. As nossas precedentes reflexões não pretendiam pôr em dúvida o direito a este tema. Querem só demonstrar que tratá-lo anda ligado com uma particular responsabilidade de natureza não só artística, mas também ética. O artista, que se lança a este tema em qualquer esfera da arte ou mediante as técnicas audiovisuais, deve estar consciente da plena verdade do objeto, de toda a escala de valores ligados com ele; deve não só ter conta deles in abstracto, mas também vivê-los ele mesmo corretamente. Isto corresponde de igual modo àquele princípio da “pureza de coração”, que em determinados casos é preciso transferir da esfera existencial das atitudes e comportamentos para a esfera intencional da criação ou reprodução artística.

Parece que o processo de tal criação tende não só à objetivação (e, em certo sentido, a uma nova “materialização”) do modelo, mas, ao mesmo tempo, a exprimir em tal objetivação o que pode chamar-se a idéia criativa do artista, na qual precisamente se manifesta o seu mundo interior dos valores, portanto também o viver a verdade no seu objeto. Neste processo, realiza-se uma característica transfiguração do modelo ou da matéria e, em particular, daquilo que é o homem, o corpo humano em toda a verdade da sua masculinidade ou feminilidade. (Deste ponto de vista, como já mencionamos, há uma bem importante diferença, por exemplo, entre o quadro ou a escultura e a fotografia ou o filme). O espectador, convidado pelo artista a olhar para a sua obra, comunica não só com a objetivação, e, portanto, em certo sentido, com uma nova “materialização” do modelo ou da matéria, mas ao mesmo tempo comunica com a verdade do objeto que o autor, na sua “materialização” artística, conseguiu exprimir com os meios a ele próprios.

5. No decurso das várias épocas, começando da antigüidade —e sobretudo no grande período da arte clássica grega— há obras de arte, cujo tema é o corpo humano na sua nudez, e cuja contemplação consente concentrarmo-nos, em certo sentido, na verdade inteira do homem, na dignidade e na beleza —também a “supra-sensual”— da sua masculinidade e feminilidade. Estas obras trazem em si, quase oculto, um elemento de sublimação, que leva o espectador, através do corpo, ao inteiro mistério pessoal do homem. Em contato com tais obras, em que não nos sentimos determinados pelo seu conteúdo para “olhar desejando”, de que fala o Sermão da Montanha, aprendemos em certo sentido aquele significado esponsal do corpo, que é o correspondente e a medida da “pureza de coração”. Mas, há também obras de arte, e porventura ainda mais vezes reproduções, que provocam objeção na esfera da sensibilidade pessoal do homem —não por motivo do seu objeto, pois o corpo humano em si mesmo tem sempre uma sua inalienável dignidade— mas por motivo da qualidade ou do modo da sua reprodução, figuração e representação artística. Sobre aquele modo e aquela qualidade podem decidir os vários coeficientes da obra ou da reprodução, como também múltiplas circunstâncias, muitas vezes de natureza mais técnica do que artística.

É sabido que através de todos estes elementos se torna, em certo sentido, acessível ao espectador, como ao ouvinte ou ao leitor, a mesma intencionalidade fundamental da obra de arte ou do produto de relativas técnicas. Se a nossa sensibilidade pessoal reage com objeção e desaprovação, fá-lo porque naquela fundamental intencionalidade, juntamente com a objetivação do homem e do seu corpo, descobrimos tornar-se indispensável, para a obra de arte ou para a reprodução dela, a sua contemporânea redução à categoria de objeto, de objeto de “gozo”, destinado à satisfação da concupiscência mesma. Isto apresenta-se contra a dignidade do homem também na ordem intencional da arte e da reprodução. Por analogia, é necessário dizer o mesmo, no que se refere aos vários campos da atividade artística —segundo a respectiva especificidade— como também às várias técnicas audiovisuais.

6. A Encíclica Humanae vitae de Paulo VIii sublinha a necessidade de criar um “clima favorável à educação da castidade”; e com isto pretende afirmar que viver o corpo humano em toda a verdade da sua masculinidade e feminilidade deve corresponder à dignidade deste corpo e ao seu significado em construir a comunhão das pessoas. Pode-se dizer que esta é uma das dimensões fundamentais da cultura humana, entendida como afirmação que nobilita tudo o que é humano. Por isso, dedicamos este breve esboço ao problema que, em síntese, poderia chamar-se do ethos da imagem. Trata-se da imagem que serve para uma singular “visibilização” do homem, e que é necessário compreender em sentido mais ou menos direto. A imagem esculpida ou pintada “exprime visualmente” o homem; doutro modo o “exprime visualmente” a representação teatral ou o espetáculo de bailado, e doutro modo o filme; também a obra literária, à sua maneira tende a desfrutar imagens interiores, servindo-se das riquezas da fantasia ou da memória humana. Portanto, o que aqui denominamos “ethos da imagem” não pode ser considerado abstraindo da componente correlativa, que seria necessário chamar “ethos do ver”. Entre uma e outra componente está encerrado todo o processo de comunicação, independentemente da vastidão dos círculos que descreve esta comunicação, neste caso sempre “social”.

7. A criação do clima favorável à educação da castidade encerra estas duas componentes; refere-se, por assim dizer, a um circuito recíproco que se estabelece entre a imagem e o ver, entre o ethos da imagem e o ethos do ver. Como a criação da imagem, no sentido lato e diferenciado do termo, impõe ao autor, artista ou reprodutor, obrigações de natureza não só estética mas também ética, de maneira que o “olhar”, entendido segundo a mesma vasta analogia, impõe obrigações àquele que é receptor da obra.

A autêntica e responsável atividade do artista tende a ultrapassar o anonimato do corpo humano como objeto “sem opção”, procurando (como já foi dito precedentemente), através do esforço criativo, tal expressão artística da verdade sobre o homem na sua corporeidade feminina e masculina, que seja por assim dizer assinalada como tarefa ao espectador e, num raio mais vasto, a cada receptor da obra. Dele, por sua vez, depende se vai decidir-se a realizar o próprio esforço para aproximar-se de tal verdade, ou se vai ficar sendo apenas um “consumidor” superficial das impressões, isto é, alguém que desfruta do encontro com o anônimo tema-corpo, só a nível da sensualidade, que reage de per si ao seu objeto precisamente “sem opção”.

Aqui terminamos este importante capítulo das nossas reflexões sobre a teologia do corpo, cujo ponto de partida foram as palavras pronunciadas por Cristo no Sermão da Montanha: palavras com valor para o homem de todos os tempos, para o homem “histórico”, e com valor para cada um de nós.

As reflexões sobre a teologia do corpo não seriam todavia completas, se não considerássemos outras palavras de Cristo, quer dizer, aquelas em que Ele apela para a futura ressurreição. A elas, portanto, nos propomos dedicar o próximo ciclo das nossas considerações.

iMt 5, 28.

ii N. 22.

Deixe um comentário