55ª. Descrição paulina do corpo e doutrina sobre a pureza – 04/02/1981

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1. Nas nossas considerações de quarta-feira passada sobre a pureza segundo o ensinamento de São Paulo, chamamos a atenção sobre o texto da primeira Epístola aos Coríntios. O Apóstolo apresenta ali a Igreja como Corpo de Cristo, e isto oferece-lhe a oportunidade de fazer a seguinte reflexão a respeito do corpo humano: “… Deus, porém, dispôs os membros do corpo, cada um conforme entendeu… Pelo contrário, os membros do corpo que parecem mais fracos é que são os mais necessários; as partes do corpo que nos parecem menos honrosas é que nós rodeamos da maior consideração, e os nossos membros menos decorosos são tratados com a maior decência, ao passo que os decorosos não precisam disto. Pois bem, Deus compôs o corpo, dispensando maior consideração ao que dela carecia, para não haver divisão no corpo, mas para os membros terem a mesma solicitude uns com os outros”i.

2. A “descrição” paulina do corpo humano corresponde à realidade que o constitui: é, portanto, uma descrição “realista”. No realismo de tal descrição é entretecido, ao mesmo tempo, um sutilíssimo fio de apreciação que lhe confere um valor profundamente evangélico, cristão. Certamente é possível “descrever” o corpo humano, exprimir a sua verdade com a objetividade própria das ciências naturais; mas tal descrição —com toda a sua precisão— não pode ser adequada (isto é, comparável com o seu objeto), dado que não se trata apenas do corpo (entendido como organismo, no sentido “somático”), mas sim do homem, que se exprime a si mesmo mediante aquele corpo e em tal sentido “é”, diria, aquele corpo. Assim, pois, aquele fio de apreciação, considerando que se trata do homem como pessoa, é indispensável ao descrever o corpo humano. Além disso, deve-se dizer quanto esta apreciação é justa. Esta é uma das tarefas e dos temas perenes de toda a cultura: da literatura, escultura, pintura e também da dança, das obras teatrais e por fim da cultura da vida cotidiana, particular ou social. Argumento que valeria a pena tratar em separado.

3. A descrição paulina da primeira Epístola aos Coríntios 12, 18-25 não tem certamente um significado “científico”: não apresenta um estudo biológico sobre o organismo humano ou sobre a “somática” humana; deste ponto de vista é uma simples descrição “pré-científica”, embora concisa, feita apenas com poucas frases. Tem todas as características do realismo comum e é, sem dúvida, suficientemente “realista”. Todavia, o que determina o seu caráter específico, o que de modo particular justifica a sua presença na Sagrada Escritura, é precisamente aquela apreciação entretecida na descrição e expressa no seu mesmo entrecho “narrativo-realista”. Pode-se dizer com certeza que tal descrição não seria possível sem toda a verdade da criação e também sem toda a verdade da “redenção do corpo“, que Paulo professa e proclama. Pode-se também afirmar que a descrição paulina do corpo corresponde precisamente ao comportamento espiritual de “respeito” para com o corpo humano, devido em conseqüência da “santidade”ii que resulta dos mistérios da criação e da redenção. A descrição paulina está igualmente longe quer do desprezo maniqueísta do corpo, quer das várias manifestações de um “culto do corpo” naturalista.

4. O Autor da primeira Epístola aos Coríntios 12, 18-25 tem diante dos olhos o corpo humano em toda a sua verdade; por conseguinte, o corpo permeado antes de mais (se assim nos podemos exprimir) de toda a realidade da pessoa e da sua dignidade. Ele é, ao mesmo tempo, o corpo do homem “histórico”, varão e mulher, ou seja, daquele homem que, depois do pecado, foi concebido, por assim dizer, dentro da realidade do homem que tinha feito a experiência da inocência original. Nas expressões de Paulo sobre os “membros menos decorosos” do corpo humano, e também sobre os que “parecem mais fracos” ou os “que nos parecem menos honrosos”, julgamos encontrar o testemunho da mesma vergonha que os primeiros seres humanos, varão e mulher, experimentaram depois do pecado original. Esta vergonha imprimiu-se neles e em todas as gerações do homem “histórico” como fruto da tríplice concupiscência (com particular referência à concupiscência da carne). E, contemporaneamente, nesta vergonha —como foi já posto em relevo nas precedentes análises— imprimiu-se um certo “eco” da mesma inocência original do homem: quase um “negativo” da imagem, cujo “positivo” tinha sido precisamente a inocência original.

5. A “descrição” paulina do corpo humano parece confirmar perfeitamente as nossas análises anteriores. Há no corpo humano os “membros menos decorosos” não em conseqüência da sua natureza “somática” (dado que uma descrição científica e fisiológica trata todos os membros e os órgãos do corpo humano de modo “neutro”, com a mesma objetividade), mas apenas, e exclusivamente, porque no homem mesmo existe aquela vergonha que faz sentir alguns membros do corpo como “menos decorosos” e leva a considerá-los tais. A mesma vergonha parece, igualmente, estar na base do que escreve o Apóstolo na primeira Epístola aos Coríntios: “As partes do corpo que nos parecem menos honrosas é que nós rodeamos da maior consideração, e os nossos membros menos decorosos são tratados com a maior decência)iii. Assim, pois, pode-se dizer que da vergonha nasce precisamente o “respeito” pelo próprio corpo: respeito, a cuja conservação Paulo exorta na primeira Epístola aos Tessalonicensesiv. Precisamente tal conservação do corpo “em santidade e honra” deve ser considerada como essencial para a virtude da pureza.

6. Voltando ainda à “descrição” paulina do corpo na primeira Epístola aos Coríntios 12, 18-25, queremos chamar a atenção para o fato de que, segundo o Autor da Epístola, aquele particular esforço que tende a respeitar o corpo humano e especialmente os seus membros mais “fracos” ou “menos decorosos”, corresponde ao desígnio original do Criador ou seja àquela visão de que fala o Livro do Gênesis: “Deus, vendo toda a Sua obra, considerou-a muito boa”v. Paulo escreve: “Deus compôs o corpo, dispensando mais consideração ao que dela carecia, para não haver divisão no corpo, mas para os membros terem a mesma solicitude uns com os outros”vi. A “divisão no corpo“, cujo resultado é que alguns membros são considerados “mais fracos”, “menos honrosos”, portanto “menos decorosos”, é ulterior expressão da visão do estado interior do homem depois do pecado original, isto é, do homem “histórico”. O homem da inocência original, varão e mulher, de quem lemos no Gênesis 2, 25 que “estavam nus… mas não sentiam vergonha”, não sentia nem sequer aquela “divisão no corpo”. À objetiva harmonia, de que o Criador dotou o corpo e que Paulo precisa como recíproco cuidado dos vários membrosvii, correspondia análoga harmonia no íntimo do homem: a harmonia do “coração”. Esta harmonia, ou seja, precisamente a “pureza de coração”, consentia ao homem e à mulher no estado de inocência original experimentarem simplesmente (e num modo que originalmente os fazia felizes a ambos) a força unitiva dos seus corpos, que era, por assim dizer, o “insuperável” substrato da sua união pessoal ou communio personarum.

7. Como se vê, o Apóstolo na primeira Epístola aos Coríntiosviii relaciona a sua descrição do corpo humano com o estado do homem “histórico”. Nos alvores da história deste homem está a experiência da vergonha relacionada com a “divisão do corpo”, com o sentido de pudor por aquele corpo (e em especial por aqueles seus membros que somaticamente determinam a masculinidade e a feminilidade). Todavia, na mesma “descrição”, Paulo indica também o caminho que (precisamente sobre a base do sentido de vergonha) conduz à transformação de tal estado até à gradual vitória sobre aquela “divisão no corpo“, vitória que pode e deve ser atuada no coração do homem. Este é precisamente o caminho da pureza, ou seja, do “possuir o próprio corpo com santidade e honra”. Ao “respeito”, de que trata a primeira Epístola aos Tessalonicensesix, refere-se Paulo na primeira Epístola aos Coríntiosx usando algumas locuções equivalentes, quando fala do “respeito” ou seja da estima para com os membros “menos honrosos”, “mais fracos” do corpo, e quando recomenda maior “decência” no que se refere àquilo que no homem é considerado “menos decoroso”. Estas locuções caracterizam mais de perto aquele “respeito” sobretudo no âmbito da convivência e dos comportamentos humanos em relação ao corpo; o que é importante quer em referência ao “próprio” corpo, quer evidentemente às relações recíprocas (especialmente entre o homem e a mulher, embora não limitadamente a elas).

Não temos dúvida alguma que a “descrição” do corpo humano na primeira Epístola aos Coríntios tem um significado fundamental para o conjunto da doutrina paulina sobre a pureza.

i1Cor 12, 18.22-25.

ii Cf. 1Ts 4, 3-5.7-8.

iii1Cor 12, 23.

iv 4, 4.

vGn 1, 31.

vi1Cor 12, 24-25.

vii Cf. 1Cor 12, 25.

viii 12, 18-25.

ix 4, 3-5.

x 12, 18-25.

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