50ª. Tradição vétero-testamentária e novo significado de “pureza” – 10/12/1980

em Capítulo II | 0

1. Indispensável complemento das palavras pronunciadas por Cristo no Sermão da Montanha sobre as quais centramos o ciclo das nossas presentes reflexões, deverá ser a análise da pureza. Quando Cristo, explicando o verdadeiro significado do mandamento “Não cometerás adultério”, apelou para o homem interior e especificou ao mesmo tempo a dimensão fundamental da pureza, referindo-se deste modo a elementos característicos das relações recíprocas entre o homem e a mulher no matrimônio e fora do matrimônio. As palavras: “Eu, porém, digo-vos que todo aquele que olhar para uma mulher, desejando-a, já cometeu adultério com ela no seu coração”i exprimem o que está em contraste com a pureza. Ao mesmo tempo, estas palavras exigem a pureza, que no Sermão da Montanha está compreendida no enunciado das bem-aventuranças: “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus”ii. De tal modo, dirige Cristo ao coração humano um apelo: convida-o, não o acusa, como já precedentemente esclarecemos.

2. Cristo vê no coração, no íntimo do homem, a fonte da pureza —mas também da impureza moral— no significado fundamental e mais genérico da palavra. Isto é confirmado, por exemplo, pela resposta dada aos fariseus escandalizados com os seus discípulos que “transgridem a tradição dos antigos, pois não lavam as mãos antes das refeições”iii. Jesus disse então aos presentes: “Não é aquilo que entra pela boca que torna o homem impuro, mas o que sai da boca é que torna o homem impuro”iv. Aos seus discípulos, pelo contrário, respondendo à pergunta de Pedro, assim explicou estas palavras: “… tudo quanto sai da boca provém do coração. É isso que torna o homem impuro. Do coração procedem os maus pensamentos, os assassínios, os adultérios, as prostituições, os roubos, os falsos testemunhos e as blasfêmias. Eis o que torna o homem impuro, mas comer com as mãos por lavar não torna o homem impuro”v.

Quando dizemos “pureza”, “puro”, no significado primeiro destes termos, indicamos o que contrasta com o sujo. “Sujar” significa “tornar impuro”, “inquinar”. Isto refere-se aos diversos ambientes do mundo físico. Fala-se, por exemplo, de um “caminho imundo”, de um “quarto imundo”, fala-se também do “ar inquinado”. E assim, também o homem pode ser “impuro”, quando o seu corpo não está limpo. Para tirar a imundície do corpo, é preciso lavá-lo. Na tradição do Antigo Testamento, atribuía-se grande importância às abluções rituais, por exemplo, ao lavar as mãos antes de comer de que fala o texto citado. Numerosas e particularizadas prescrições diziam respeito às abluções do corpo com relação à impureza sexual, entendida em sentido exclusivamente fisiológico, a que aludimos precedentementevi. Segundo o estado da ciência médica do tempo, as várias abluções podiam corresponder a prescrições higiênicas. Quando eram impostas em nome de Deus e contidas nos Livros Sagrados da legislação vétero-testamentária, a observância destas adquiria, indiretamente, significado religioso; eram abluções rituais e, na vida do homem da Antiga Aliança, serviam para a “pureza” ritual.

3. Em relação com a sobredita tradição jurídico-religiosa da Antiga Aliança, formou-se um modo errôneo de entender a pureza moral1. Esta era muitas vezes entendida de modo exclusivamente exterior e “material”. O que é certo é que se difundiu uma tendência explícita para tal interpretação. Cristo opõe-se a ela de modo radical: nada torna o homem impuro, daquilo que vem do “exterior”, nenhuma imundície “material” torna o homem impuro no sentido moral, ou seja, interior. Nenhuma ablução, nem mesmo ritual, é capaz de originar a pureza moral. Esta tem a sua fonte exclusiva no interior do homem: provém do coração. É provável que a este propósito, as prescrições do Antigo Testamento (aquelas, por exemplo, que se encontram no Levítico 15, 16-24; 18, 1 ss., ou também 12, 1-5) servissem não só para fins higiênicos, mas para atribuir certa dimensão de interioridade àquilo que na pessoa humana é corpóreo e sexual. É também certo ter Cristo fugido a ligar a pureza em sentido moral (ético) com a fisiologia e com os processos orgânicos correspondentes. À luz das palavras de Mateus 15, 18-20, supracitadas, nenhum dos aspectos da “imundície” sexual, no sentido estritamente somático, biofisiológico, entra de per si na definição da pureza ou da impureza em sentido moral (ético).

4. O sobredito enunciadovii é, sobretudo, importante por motivos semânticos. Falando da pureza em sentido moral, isto é, da virtude da pureza, servimo-nos de uma analogia, segundo a qual o mal moral é comparado precisamente com a impureza. Certamente, tal analogia começou a fazer parte, desde os tempos mais remotos, do âmbito dos conceitos éticos. Cristo retoma-a e confirma-a em toda a sua extensão: “O que sai da boca provém do coração. Isto torna o homem impuro”. Aqui fala Cristo de todo o mal moral, de todo o pecado, isto é, de transgressões dos vários mandamentos, e enumera “os maus pensamentos, os assassínios, os adultérios, as prostituições, os roubos, os falsos testemunhos e as blasfêmias”, sem limitar-se a um especial gênero de pecado. Daí deriva ser o conceito de “pureza” e de “impureza”, em sentido moral, primeiramente um conceito geral, não específico: para ele todo o bem moral é manifestação de pureza, e todo o mal moral é manifestação de impureza. O enunciado de Mateus 15, 18-20 não restringe a pureza a um único setor da moral, ou seja, ao relacionado com o mandamento “Não cometerás adultério” e “Não desejarás a mulher do teu próximo”, isto é, com aquilo que diz respeito às relações recíprocas entre o homem e a mulher, ligadas ao corpo e à relativa concupiscência. Analogamente, podemos também entender a bem-aventurança do Sermão da Montanha, bem-aventurança dirigida aos homens “puros de coração” quer em sentido genérico, quer no mais específico. Só os possíveis contextos permitirão delimitar e precisar esse significado.

5. O significado mais amplo e geral da pureza está presente também nas epístolas de São Paulo, em que pouco a pouco reconheceremos os contextos que, de modo explícito, restringem o significado da pureza ao âmbito “somático” e “sexual”, isto é, àquele significado que podemos deduzir das palavras pronunciadas por Cristo no Sermão da Montanha sobre a concupiscência, que já se exprime no “olhar para a mulher”, e é equiparada a um “adultério cometido no coração”viii.

Não é São Paulo o autor das palavras sobre a tríplice concupiscência. Estas, como sabemos, encontram-se na Primeira Epístola de São João. Pode-se, todavia, dizer que analogamente ao que para Joãoix é contraposição, no interior do homem, entre Deus e o mundo (entre o que vem “do Pai” e o que vem “do mundo”) —contraposição que nasce no coração e penetra nas ações do homem como “concupiscência dos olhos, concupiscência da carne e soberba da vida”— São Paulo faz notar no cristão outra contradição: a oposição e ao mesmo tempo a tensão entre a “carne” e o “Espírito” (escrito com maiúscula, isto é, o Espírito Santo): “Digo-vos pois: Andai segundo o Espírito e não satisfareis os apetites da carne. Porque os desejos da carne são opostos aos do Espírito e estes aos da carne, pois são contrários uns aos outros. É por isso que não fazeis o que quereríeis”x. Daí se segue que a vida “segundo a carne” está em oposição com a vida “segundo o Espírito”. “De fato, os que vivem segundo a carne desejam as coisas da carne; e os que vivem segundo o Espírito, as coisas do espírito”xi.

Em sucessivas análises procuraremos mostrar que a pureza —a pureza de coração, de que falou Cristo no Sermão da Montanha— se realiza propriamente na vida “segundo o Espírito”.

1 Ao lado de um sistema complexo de prescrições que dizem respeito à pureza ritual, em base à qual se desenvolveu a casuística legal, existia todavia no Antigo Testamento o conceito de uma pureza moral, que era transmitido mediante duas correntes.

Os Profetas exigiam um comportamento conforme à vontade de Deus, o que supõe a conversão do coração, a obediência interior e a retidão total perante ele (cf. por exemplo, Is 1, 10-20; Jr 4, 14; 24, 7; Ez 36, 25 ss.). Tal comportamento é recomendado também pelo Salmista: “Quem será digno de subir ao monte do Senhor…? / O que tem as mãos limpas e o coração puro… / Este receberá as bençãos do Senhor” (Sl 24/23, 3-5).

Segundo a tradição sacerdotal, o homem que é consciente da sua profunda pecaminosidade, não sendo capaz de alcançara purificação com as próprias forças, suplica a Deus que realiza aquela transformação do coração, que só pode ser obra de um seu ato criador: “Ó Deus, criai em mim um coração puro… / aspergi-me com o hissopo e ficarei… mais branco do que a nevel… / um coração arrependido e humilhado, Deus, não o desprezeis” (Sl 51/50, 12.9.19).

Ambas as correntes do Antigo Testamento encontram-se na bem-aventurança dos “puros de coração” (Mt 5, 8), não obstante a sua formulação verbal pareça aproximar-se mais do Salmo 24 (cf. J. Dupont, Les béatitudes, vol. III: Les Evangelistes, Paris 1973, Gabalda, pp. 603-604).

iMt 5, 28.

iiMt 5, 8.

iiiMt 15, 2.

ivMt 15, 11.

v Cf. Mt 15, 18-20; e também Mc 7, 20-23.

vi Cf. Lv 15.

viiMt 15, 18-20.

viiiMt 5, 27-28.

ix1Jo 2, 16-17.

xGl 5, 16-17.

xiRm 8, 5.

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