49ª. Cristo chama-nos a reencontrar as formas vivas do homem novo – 03/12/1980

em Capítulo II | 0

1. No princípio das nossas considerações sobre as palavras de Cristo no Sermão da Montanhai, verificamos que estas contêm profundo significado ético e antropológico. Trata-se aqui da passagem em que recorda Cristo o mandamento “Não cometerás adultério”, e acrescenta: “Todo aquele que olhar para uma mulher, desejando-a, já cometeu adultério com ela (ou para com ela) no seu coração”. Falamos do significado ético e antropológico de tais palavras, porque aludem às duas dimensões intimamente ligadas do ethos do homem “histórico”. Procuramos durante as precedentes análises, seguir estas duas dimensões, tendo sempre no espírito que as palavras de Cristo são dirigidas ao “coração”, isto é, ao homem interior. O homem interior é o sujeito específico do ethos do corpo, e deste deseja Cristo impregnar a consciência e a vontade dos Seus ouvintes e discípulos. É indubitavelmente um ethos “novo”. É “novo”, em confronto com o ethos dos homens do Antigo Testamento, como já procuramos mostrar em análises mais particularizadas. É “novo” também com respeito ao estado do homem “histórico”, posterior ao pecado original, isto é, a respeito do “homem da concupiscência”. É, portanto, um ethos “novo” num sentido e num alcance universais. É “novo” a respeito de cada homem, independentemente de qualquer longitude e latitude geográficas e históricas.

2. Este “novo” ethos, que se levanta da perspectiva das palavras de Cristo pronunciadas no Sermão da Montanha, já várias vezes o chamamos “ethos da redenção” e, mais precisamente, ethos da redenção do corpo. Seguimos nisto São Paulo, que na epístola aos Romanos contrapõe “a servidão da corrupção”ii e a submissão “à vaidade”iii —de que se tornou participante toda a criação por causa do pecado— contrapõe-nas, dizíamos, ao desejo da “redenção do nosso corpo”iv. Neste contexto, o Apóstolo fala dos gemidos de “toda a criação”, que alimenta “a esperança de ser, também ela, liberta da servidão da corrupção para participar livremente da glória dos filhos de Deus”v. Deste modo, desvela São Paulo a situação de tudo o que foi criado, e em particular a do homem depois do pecado. Significativa para tal estado é a aspiração que —juntamente com a “filiação adotiva”vitende precisamente para a “redenção do corpo”, apresentada como o fim, como o fruto escatológico e maduro do mistério da redenção do homem e do mundo, realizada por Cristo.

3. Em qualquer sentido, portanto, podemos acaso falar do ethos da redenção e especialmente do ethos da redenção do corpo? Devemos reconhecer que, no contexto das palavras do Sermão da Montanhavii, por nós analisadas, este significado não aparece ainda em toda a sua plenitude. Manifestar-se-á mais completamente quando examinarmos outras palavras de Cristo, ou seja, aquelas em que Ele faz referência à ressurreiçãoviii. Todavia, não há qualquer dúvida que, também no Sermão da Montanha, Cristo fala na perspectiva da redenção do homem e do mundo (e, portanto, precisamente da “redenção do corpo”). Esta é, de fato, a perspectiva do Evangelho inteiro, de todo o ensinamento, mesmo de toda a missão de Cristo. E, embora o contexto imediato do Sermão da Montanha indique a Lei e os Profetas como o ponto de referência histórica, precisamente do povo de Deus e da Antiga Aliança, todavia não podemos nunca esquecer que no ensinamento de Cristo, a referência fundamental à questão do matrimônio e ao problema das relações entre o homem e a mulher, apela para o “princípio”. Este apelo pode ser justificado só pela realidade da Redenção; fora dela, na verdade, ficaria unicamente a tríplice concupiscência ou a “servidão da corrupção”, que o Apóstolo Paulo nomeiaix. Só a perspectiva da Redenção justifica apelar para o “princípio”, ou seja, para a perspectiva do mistério da criação na totalidade do ensinamento de Cristo acerca dos problemas do matrimônio, do homem e da mulher, e da relação recíproca entre eles. As palavras de Mateus 5, 27-28 colocam-se, afinal, na mesma perspectiva teológica.

4. No Sermão da Montanha, Cristo não convida o homem a voltar ao estado da inocência original, porque a humanidade deixou-a irrevocavelmente atrás de si, mas chama-o a reencontrar —no fundamento dos significados perenes e, por assim dizer, indestrutíveis daquilo que é “humano”— as formas vivas do “homem novo”. De tal modo, lança-se um vínculo, melhor, uma continuidade entre o “princípio” e a perspectiva da Redenção. No ethos da redenção do corpo deverá ser retomado o original ethos da criação. Cristo não muda a Lei, mas confirma o mandamento “Não cometerás adultério”; porém, ao mesmo tempo, conduz a inteligência e o coração dos ouvintes àquela “plenitude da justiça” querida por Deus criador e legislador, que este mandamento encerra em si. Tal plenitude é descoberta: primeiro, com uma interior visão “do coração”; e, depois, com um adequado modo de ser e de operar. A forma do “homem novo” pode derivar deste modo de ser e de operar, na medida em que o ethos da redenção do corpo domina a concupiscência da carne e todo o homem da concupiscência. Cristo indica com clareza que o caminho para chegar lá deve ser caminho de temperança e de domínio dos desejos, isto na raiz mesma, já na esfera puramente interior (“todo aquele que olhar para uma mulher, desejando-a…”). O ethos da redenção contém em todos os âmbitos —e diretamente na esfera da concupiscência da carne— o imperativo do domínio de si, a necessidade de uma imediata continência e de uma habitual temperança.

5. Todavia, a temperança e a continência não significam —se é possível assim dizer— uma suspensão no vácuo: nem no vácuo dos valores nem no vácuo do sujeito. O ethos da redenção realiza-se no domínio de si, mediante a temperança, isto é, na continência dos desejos. Neste comportamento, o coração humano permanece vinculado ao valor, do qual, através do desejo, se teria de outro modo afastado, orientando-se para a pura concupiscência privada de valor ético (como dissemos na precedente análise). No terreno do ethos da redenção, a união com aquele valor, mediante um ato de domínio, é confirmada ou restabelecida com força e firmeza ainda mais profundas. E trata-se aqui do valor do significado esponsal do corpo, do valor de um sinal transparente, mediante o qual o Criador —juntamente com a perene atração recíproca do homem e da mulher através da masculinidade e da feminilidade— escreveu no coração de ambos o dom da comunhão, isto é, a misteriosa realidade da sua imagem e semelhança. De tal valor se trata no ato do domínio de si e da temperança, para que apela Cristo no Sermão da Montanhax.

6. Este ato pode parecer a suspensão “no vácuo do sujeito”. Pode este dar tal impressão particularmente quando é necessário tomar a decisão de o realizar pela primeira vez, ou, mais ainda, quando se criou o hábito contrário, quando o homem se habituou a ceder à concupiscência da carne. Todavia, mesmo da primeira vez, e mais ainda se depois se adquire disso a capacidade, o homem faz a gradual experiência da própria dignidade e, mediante a temperança, manifesta o próprio autodomínio e mostra realizar aquilo que nele é essencialmente pessoal. E, além disso, experimenta gradualmente a liberdade do dom, que por um lado é a condição, e por outro é a resposta do sujeito ao valor esponsal do corpo humano, na sua feminilidade e na sua masculinidade. Assim, portanto, o ethos da redenção do corpo realiza-se através do domínio de si, através da temperança dos “desejos”, quando o coração humano contrai aliança com tal ethos, ou, antes, a confirma mediante a própria subjetividade integral: quando se manifestam as possibilidades e as disposições mais profundas e, não obstante, mais reais da pessoa, quando adquirem voz os estratos mais profundos da sua potencialidade, aos quais a concupiscência da carne, por assim dizer, não consentiria que se manifestasse. Estes estratos não podem aparecer nem sequer quando o coração humano está fixo numa permanente suspeita, como resulta da hermenêutica freudiana. Não podem manifestar-se nem sequer quando na consciência domina o “antivalor” maniqueísta. Pelo contrário, o ethos da redenção baseia-se na íntima aliança com aqueles estratos.

7. Sucessivas reflexões dar-nos-ão do mesmo outras provas. Terminando as nossas análises sobre a enunciação tão significativa de Cristo segundo Mateus 5, 27-28, vemos que nela o “coração” humano é sobretudo objeto de uma chamada e não de uma acusação. Ao mesmo tempo, devemos admitir ser, no homem histórico, a consciência da pecaminosidade não só necessário ponto de partida, mas também indispensável condição da sua aspiração à virtude, à “pureza de coração”, à perfeição. O ethos da redenção do corpo fica profundamente radicado no realismo antropológico e axiológico da revelação. Apelando, neste caso, para o “coração”, Cristo formula as suas palavras no mais concreto dos modos: o homem, de fato, é único e irrepetível, sobretudo por motivo do seu “coração”, que decide sobre ele “a partir do interior”. A categoria do “coração” é, em certo sentido, o equivalente da subjetividade pessoal. O caminho do apelo à pureza do coração, assim como foi expresso no Sermão da Montanha, é apesar de tudo reminiscência da solidão original, da qual o varão foi libertado mediante a abertura ao outro ser humano, à mulher. A pureza de coração explica-se, no fim de contas, com o olhar para o outro sujeito, que é original e perenemente “também chamado”.

A pureza é exigência do amor. É a dimensão da sua verdade interior no “coração” do homem.

iMt 5, 27-28.

iiRm 8, 21.

iiiRm 8, 20.

ivRm 8, 23.

vRm 8, 20-21.

viRm 8, 23.

viiMt 5, 27-28.

viii Cf. Mt 22, 30; Mc 12, 25; Lc 20, 35-26.

ixRm 8, 21.

xMt 5, 27-28.

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