48ª. A espontaneidade é verdadeiramente humana quando é fruto amadurecido da consciência – 12/11/1980

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1. Hoje, retomamos a análise, iniciada há uma semana, sobre a recíproca relação entre o que é “ético” e o que é “erótico”. As nossas reflexões desenvolvem-se dentro do contexto das palavras pronunciadas por Cristo no Sermão da Montanha, com as quais Ele se referiu ao mandamento “não cometerás adultério” e, ao mesmo tempo, definiu a “concupiscência” (o “olhar concupiscente”) como “adultério cometido no coração”. Destas reflexões, resulta que o ethos está relacionado com a descoberta de uma nova ordem de valores. É necessário encontrar continuamente naquilo que é “erótico” o significado esponsal do corpo e a autêntica dignidade do dom. Esta é a tarefa do espírito humano, tarefa de natureza ética. Se não se assume tal tarefa, a própria atração dos sentidos e a paixão do corpo podem não passar de pura concupiscência privada de valor ético, e o homem, varão e mulher, não experimenta aquela plenitude do eros, que significa o impulso do espírito humano para aquilo que é verdadeiro, bom e belo, pelo que também aquilo que é “erótico” se torna verdadeiro, bom e belo. É indispensável, por conseguinte, que o ethos se torne a forma constitutiva do eros.

2. As mencionadas reflexões estão intimamente ligadas ao tema da espontaneidade. Com bastante freqüência, considera-se que é precisamente o ethos a tirar a espontaneidade àquilo que é erótico na vida e no comportamento do homem; e, por este motivo, se exige o afastamento do ethos “em vantagem” do eros. Também as palavras do Sermão da Montanha pareceriam dificultar este “bem”. Só que tal opinião é errônea e, em qualquer caso, superficial. Aceitando-a e afirmando-a com obstinação, não chegaremos nunca às plenas dimensões do eros, e isto repercute-se inevitavelmente no âmbito da relativa praxis, isto é, no nosso comportamento e também na concreta experiência dos valores. De fato, aquele que aceita o ethos do enunciado de Mateus 5, 27-28, deve saber que é também chamado à plena e madura espontaneidade das relações, que nascem da perene atração da masculinidade e da feminilidade. Precisamente tal espontaneidade é o fruto gradual do discernimento dos impulsos do próprio coração.

3. As palavras de Cristo são rigorosas. Exigem do homem que ele, no âmbito em que se formam as relações com as pessoas do outro sexo, tenha plena e profunda consciência dos próprios atos e, sobretudo, dos atos interiores; que ele tenha consciência dos impulsos interiores do seu “coração”, a ponto de ser capaz de os individualizar e qualificar de modo circunspecto. As palavras de Cristo exigem que nesta esfera, que parece pertencer exclusivamente ao corpo e aos sentidos, isto é, ao homem exterior, ele saiba ser verdadeiramente homem interior; saiba obedecer à reta consciência; saiba ser autêntico senhor dos próprios impulsos íntimos, como um guarda que vigia uma fonte escondida; e saiba, por fim, tirar de todos aqueles impulsos o que é conveniente para a “pureza do coração”, construindo consciente e coerentemente aquele sentido pessoal do significado esponsal do corpo, que abre o espaço interior da liberdade do dom.

4. Pois bem, se o homem quiser responder ao apelo expresso por Mateus 5, 27-28, deve, perseverante e coerentemente, aprender o que é o significado do corpo, o significado da feminilidade e da masculinidade. Deve aprendê-lo não só através de uma abstração objetivizante (embora também isto seja necessário), mas sobretudo na esfera das reações interiores do próprio “coração”. Esta é uma “ciência”, que não pode ser verdadeiramente aprendida apenas nos livros, porque se trata aqui em primeiro lugar do profundo “conhecimento” da interioridade humana.

No âmbito deste conhecimento, o homem aprende a discernir entre o que, por um lado, compõe a multiforme riqueza da masculinidade e da feminilidade nos sinais que provêm da sua perene chamada e atração criadora, e o que, por outro lado, traz só o sinal da concupiscência. E embora estas variantes e tonalidades dos impulsos interiores do “coração” num certo limite se confundam entre si, deve todavia dizer-se que o homem interior foi chamado por Cristo a adquirir uma avaliação ajuizada e completa, que o leve a discernir e julgar os vários impulsos do seu próprio coração. E é necessário acrescentar que esta tarefa pode realizar-se e é realmente digna do homem.

De fato, o discernimento de que estamos a falar está em relação essencial com a espontaneidade. A estrutura subjetiva do homem demonstra, neste campo, uma específica riqueza e uma clara diferenciação. Por conseguinte, uma coisa é, por exemplo, uma nobre satisfação, outra, pelo contrário, o desejo sexual; quando o desejo sexual está ligado a uma nobre satisfação, é diferente de um mero e simples desejo. Analogamente, no que diz respeito à esfera das reações imediatas do “coração”, a excitação sensual é muito diversa da emoção profunda, com que não só a sensibilidade interior, mas a própria sexualidade reage à expressão integral da feminilidade e da masculinidade. Não se pode desenvolver aqui mais amplamente este argumento. Mas é certo que, se afirmamos que as palavras de Cristo segundo Mateus 5, 27-28 são rigorosas, são-no também no sentido que em si contêm as exigências profundas relativas à espontaneidade humana.

5. Não pode haver tal espontaneidade em todos os estímulos e impulsos que nascem da mera concupiscência carnal, desprovida, como ela é, de uma opção e de uma hierarquia adequada. É precisamente à custa do domínio sobre eles, que o homem alcança aquela espontaneidade mais profunda e amadurecida, com que o seu “coração”, refreando os instintos descobre a beleza espiritual do sinal constituído pelo corpo humano na sua masculinidade e feminilidade. Ao consolidar-se esta descoberta na consciência como convicção, e na vontade como orientação, quer das possíveis opções quer dos simples desejos, o coração humano torna-se participante, por assim dizer, de outra espontaneidade de que nada ou pouquíssimo sabe o “homem carnal”. Não há dúvida alguma que, mediante as palavras de Cristo segundo Mateus 5, 27-28, somos chamados precisamente a tal espontaneidade. E a esfera mais importante da praxis —relativa aos atos mais “interiores”— é, talvez, mesmo o que traça gradualmente o caminho para tal espontaneidade.

Este é um vasto argumento que nos convirá retomar novamente, quando nos dedicarmos a demonstrar qual é a verdadeira natureza da evangélica “pureza de coração”. Por agora, terminamos dizendo que as palavras do Sermão da Montanha, com as quais Cristo chama a atenção dos seus ouvintes —de outrora e de hoje— sobre a “concupiscência” (“olhar concupiscente”), indicam indiretamente o caminho para uma amadurecida espontaneidade do “coração” humano, que não sufoca os seus nobres desejos e aspirações, mas, pelo contrário, os liberta e, em certo sentido, os favorece.

Baste por agora o que dissemos sobre a recíproca relação entre o que é “ético” e o que é “erótico”, segundo o ethos do Sermão da Montanha.

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