45ª. Realização do valor do corpo segundo o plano do Criador – 22/10/1980

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1. No centro das nossas reflexões nos encontros das quartas-feiras, está há muito o seguinte enunciado de Cristo no Sermão da Montanha: “Ouvistes que foi dito: Não cometerás adultério. Eu, porém, digo-vos que todo aquele que olhar para uma mulher, desejando-a, já cometeu adultério com ela no seu coração”i. Estas palavras têm significado essencial para toda a teologia do corpo, encerrada no ensinamento de Cristo. Portanto, com razão atribuímos grande importância à correta compreensão e interpretação delas. Já na nossa precedente reflexão, verificamos que a doutrina maniqueísta, nas suas expressões quer primitivas quer posteriores, está em contraste com estas palavras.

Não é, de fato, possível descobrir, na frase do Sermão da Montanha aqui analisada, “condenação” ou acusação do corpo. Quando muito, poder-se-ia entrever nela condenação do coração humano. Todavia, as nossas reflexões até agora feitas manifestam que, se as palavras de Mateus 5, 27-28 contêm uma acusação, o objeto desta é sobretudo o homem da concupiscência. Com estas palavras, o coração é não tanto acusado quanto submetido a um juízo ou, melhor, chamado a um exame crítico, antes, autocrítico: se sucumbe ou não à concupiscência da carne. Penetrando o significado profundo da enunciação de Mateus 5, 27-28, devemos todavia reparar que o juízo lá encerrado acerca do “desejo”, como ato de concupiscência da carne, contém em si não a negação, mas antes a afirmação do corpo, como elemento que juntamente com o espírito determina a subjetividade ontológica do homem e participa na sua dignidade de pessoa. Assim, portanto, o juízo sobre a concupiscência da carne tem significado essencialmente diverso daquele que pode pressupor a ontologia maniqueísta do corpo e necessariamente dela brota.

2. O corpo, na sua masculinidade e feminilidade, é “desde o princípio” chamado a tornar-se a manifestação do espírito. Torna-se tal coisa mediante também a união conjugal do homem e da mulher, quando se unem de modo que formam “uma só carne”. Noutra passagemii Cristo defende os direitos invioláveis desta unidade, mediante a qual o corpo, na sua masculinidade e feminilidade, assume o valor de sinal —sinal em certo sentido sacramental; e além disso, prevenindo contra a concupiscência da carne, exprime a mesma verdade acerca da dimensão ontológica do corpo e confirma-lhe o significado ético, coerente com o conjunto do seu ensinamento. Este significado ético nada tem em comum com a condenação maniqueísta, mas está profundamente compenetrado pelo mistério da “redenção do corpo”, sobre o qual escreverá São Paulo na epístola aos romanosiii. A “redenção do corpo” não indica, todavia, o mal ontológico como atributo constitutivo do corpo humano, mas aponta só para a pecaminosidade do homem, em virtude da qual este perdeu, entre outras coisas, o sentido límpido do significado esponsal do corpo, e em que se exprime o domínio interior e a liberdade do espírito. Trata-se aqui —como já fizemos notar precedentemente— de uma perda “parcial”, potencial, em que o sentido do significado esponsal do corpo se confunde, em certo sentido, com a concupiscência e permite facilmente ser por ela absorvido.

3. A interpretação apropriada das palavras de Cristo, segundo Mateus 5, 27-28, como também a “prática” em que se atuará sucessivamente o autêntico ethos do Sermão da Montanha, devem ser completamente libertadas de elementos maniqueístas no pensamento e na atitude. A atitude maniqueísta levaria a uma “aniquilação”, se não real, ao menos intencional do corpo, a uma negação do valor do sexo humano, da masculinidade e feminilidade da pessoa humana ou pelo menos só à sua “tolerância” nos limites da “necessidade”, delimitada pela necessidade da procriação. Pelo contrário, com base nas palavras de Cristo no Sermão da Montanha, o ethos cristão é caracterizado por uma transformação da consciência e das atitudes da pessoa humana, quer do homem quer da mulher, tal que manifeste e realize o valor do corpo e do sexo, segundo o desígnio original do Criador, colocados ao serviço da “comunhão das pessoas” que é o substrato mais profundo da ética e da cultura humana. Enquanto para a mentalidade maniqueísta o corpo e a sexualidade constituem, por assim dizer, um “antivalor”, para o cristianismo, ao contrário, permanecem sempre um “valor não suficientemente apreciado”, como melhor explicarei mais adiante. A segunda atitude indica que deve ser a forma do ethos, em que o mistério da “redenção do corpo” se radica, por assim dizer, no solo “histórico” da pecaminosidade do homem. Isto é expresso pela fórmula teológica, que define o “estado” do homem “histórico” como status naturae lapsae simul ac redemptae.

4. É necessário interpretar as palavras de Cristo no Sermão da Montanhaiv à luz desta complexa verdade sobre o homem. Se elas encerram certa “acusação” do coração humano, mais lhe dirigem um apelo. A acusação do mal moral, que o “desejo” nascido da concupiscência carnal não dominada esconde em si, é ao mesmo tempo chamada para que se vença este mal. E se a vitória sobre o mal deve consistir no desapego dele (daqui as severas palavras no contexto de Mateus 5, 27-28), trata-se todavia unicamente de desapegar-se do mal do ato (no caso em questão, do ato interior da “concupiscência”), e nunca de transferir o negativismo de tal ato para o sujeito dele. Semelhante transferência significaria certa aceitação —talvez não plenamente consciente— do “antivalor” maniqueísta. Não constituiria verdadeira e profunda vitória sobre o mal do ato, que é mal por essência moral, portanto mal de natureza espiritual; melhor, nele se esconderia o grande perigo de justificar o ato à custa do objeto (aquilo em que está propriamente o erro essencial do ethos maniqueísta). É evidente exigir Cristo, em Mateus 5, 27-28, um desapego do mal da “concupiscência” (ou do olhar com desejo desordenado), mas o seu enunciado não deixa de nenhum modo supor que seja um mal o objeto daquele desejo, isto é, a mulher para que “se olha desejando-a”. (Esta precisão parece às vezes faltar nalguns textos “sapienciais”).

5. Devemos, portanto, precisar a diferença entre a “acusação” e o “apelo”. Como a acusação dirigida ao mal da concupiscência é ao mesmo tempo apelo para o vencer, esta vitória deve por conseqüência unir-se a um esforço para descobrir o autêntico valor do objeto, para que no homem, na sua consciência e na sua vontade, não se desenvolva o “antivalor” maniqueísta. De fato, o mal da “concupiscência”, isto é, do ato de que fala Cristo em Mateus 5, 27-28, faz que o objeto, ao qual ele se dirige, constitua para o sujeito humano um “valor não suficientemente apreciado”. Se nas palavras analisadas do Sermão da Montanhav o coração humano é “acusado” de concupiscência (ou se é posto em guarda contra aquela concupiscência), simultaneamente mediante as mesmas palavras é ele chamado a descobrir o sentido pleno daquilo que no ato de concupiscência constitui para ele um “valor não suficientemente apreciado”. Como sabemos, Cristo disse: “Todo aquele que olhar para uma mulher, desejando-a, já cometeu adultério com ela no seu coração”. O “adultério cometido no coração” pode e deve entender-se como “desvalorização”, ou como depauperamento de um valor autêntico, como intencional privação daquela dignidade, a que na pessoa em questão corresponde o valor integral da sua feminilidade. As palavras de Mateus 5, 27-28 contêm um apelo a que se descubra esse valor e essa dignidade, e a que se reafirmem. Parece que, só entendendo assim as citadas palavras de Mateus, se lhes respeita o alcance semântico.

Para concluir estas concisas considerações, é preciso uma vez mais verificar que o modo maniqueísta de entender e valorizar o corpo e a sexualidade do homem é essencialmente estranho ao Evangelho, não conforme o significado exato das palavras do Sermão da Montanha, pronunciado por Cristo. O apelo a que se domine a concupiscência da carne brota precisamente da afirmação da dignidade pessoal do corpo e do sexo, e unicamente serve tal dignidade. Cometeria erro essencial quem desejasse tirar destas palavras uma perspectiva maniqueísta.

iMt 5, 27-28.

ii Cf. Mt 19, 5-6.

iii Cf. Rm 8, 23.

ivMt 5, 27-28.

vMt 5, 27-28.

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