43ª. Interpretação psicológica e teológica do conceito de concupiscência – 08/10/1980

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1. Desejo levar hoje a termo a análise das palavras pronunciadas por Cristo, no Sermão da Montanha, sobre o “adultério” e a “concupiscência”, e em particular do último elemento do enunciado, em que se define especificamente a “concupiscência do olhar” como “adultério cometido no coração”.

Já precedentemente verificamos que estas palavras são ordinariamente entendidas como desejo da mulher do próximo (isto é, segundo o espírito do nono mandamento do Decálogo). Parece contudo que esta interpretação —mais restritiva— pode e deve alargar-se à luz do contexto global. Parece que a apreciação moral da concupiscência (do “olhar para desejar”), a que chama Cristo “adultério cometido no coração”, depende sobretudo da mesma dignidade pessoal do homem e da mulher; isto vale tanto para aqueles que não se encontram unidos em matrimônio, como —e talvez mais— para aqueles que são marido e mulher.

2. A análise que até agora fizemos do enunciado de Mt 5, 27-28, “Ouvistes que foi dito: Não cometerás adultério. Eu, porém, digo-vos que todo aquele que olhar para uma mulher, desejando-a, já cometeu adultério com ela no seu coração”, indica a necessidade de ampliar e, sobretudo, aprofundar a nterpretação anteriormente apresentada, a respeito do sentido ético que tal enunciado encerra. Detemo-nos na situação descrita pelo Mestre, situação em que quem “comete adultério no coração”, mediante um ato interior de concupiscência (expresso pelo olhar), é o homem. Significativo é Cristo, falando do objeto de tal ato, não sublinhar que é “a mulher do próximo”, ou a mulher que não é a própria esposa, mas diz genericamente: a mulher. O adultério cometido “no coração” não está circunscrito nos limites da relação interpessoal, os quais consentem verificar o adultério cometido “no corpo”. Não são tais limites que decidem exclusiva e essencialmente do adultério cometido “no coração”, mas a natureza mesma da concupiscência, expressa neste caso pelo olhar, isto é, pelo fato de aquele homem —de quem, a título de exemplo, fala Cristo— “olhar para desejar”. O adultério “no coração” é cometido não só porque o homem “olha” de tal modo para a mulher que não é sua esposa, mas mesmo porque olha assim para uma mulher. Também se olhasse deste modo para a mulher que é sua esposa cometeria o mesmo adultério “no coração”.

3. Este interpretar parece considerar, de modo mais amplo, o que no conjunto das presentes análises foi dito sobre a concupiscência, e em primeiro lugar sobre a concupiscência da carne, como elemento permanente da pecaminosidade do homem (status naturae lapsae). A concupiscência que, como ato interior, nasce desta base (como procuramos indicar na precedente análise) muda a intencionalidade mesma do existir da mulher “para” o homem, reduzindo a riqueza da perene chamada à comunhão das pessoas, a riqueza do profundo atrativo da masculinidade e da feminilidade, unicamente à satisfação da “necessidade” sexual do corpo (a que parece ligar-se mais de perto o conceito de “instinto”). Tal redução faz que a pessoa (neste caso, a mulher) se torne para a outra pessoa (para o homem) sobretudo o objeto da satisfação potencial da própria “necessidade” sexual. Deforma-se deste modo aquele recíproco “para”, que perde o seu caráter de comunhão das pessoas em favor da função utilitarista. O homem que “olha” de tal modo, como escreve Mt 5, 27-28, “serve-se” da mulher, da sua feminilidade, para satisfazer o próprio “instinto”. Embora não o faça como ato exterior, já no seu íntimo tomou essa atitude, interiormente decidindo assim a respeito de uma determinada mulher. Nisto consiste precisamente o adultério “cometido no coração”. Tal adultério “no coração” pode cometê-lo o homem mesmo a respeito da própria mulher, se a trata apenas como objeto de satisfação do instinto.

4. Não é possível chegarmos à segunda interpretação das palavras de Mt 5, 27-28, se nos limitamos à interpretação puramente psicológica da concupiscência, sem ter em conta aquilo que forma o seu específico caráter teológico, isto é, a relação orgânica entre a concupiscência (como ato) e a concupiscência da carne, como, por assim dizer, disposição permanente que deriva da pecaminosidade do homem. Parece que a interpretação puramente psicológica (ou “sexológica”) da “concupiscência” não constitui base suficiente para compreender o referido texto do Sermão da Montanha. Se, pelo contrário, nos atemos à interpretação teológica —sem deixar de ter em conta o que na primeira interpretação (a psicológica) permanece imutável— ela, isto é, a segunda interpretação (a teológica) aparece-nos como mais completa. Graças a ela, de fato, torna-se mais claro ainda o significado ético do enunciado-chave do Sermão da Montanha, a que devemos a adequada dimensão do ethos do Evangelho.

5. Ao delinear esta dimensão, Cristo permanece fiel à Lei: “Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas: Não vim revogar, mas completar”i. Por conseguinte, mostra quanto é necessário descer em profundidade, quanto é necessário desvelar a fundo as trevas do coração humano, para este coração poder tornar-se lugar de “cumprimento” para a Lei. O enunciado de Mt 5, 27-28, que torna manifesta a perspectiva interior do adultério cometido “no coração” —e nesta perspectiva aponta os caminhos justos para se cumprir o mandamento “não cometerás adultério”— é disso argumento singular. Este enunciadoii refere-se, de fato, à esfera em que se trata de modo particular da “pureza do coração”iii (expressão que na Bíblia —como é sabido— tem sentido lato). Também noutra passagem teremos ocasião de considerar de que modo o mandamento “não cometerás adultério” —que, quanto ao modo em que vem expresso e ao conteúdo, é proibição unívoca e severa (como o mandamento “não cobiçarás a mulher do teu próximo”iv)— se cumpre exatamente mediante a “pureza do coração”. Da severidade e força da proibição dão testemunho indiretamente as sucessivas palavras do texto do Sermão da Montanha, em que fala Cristo figurativamente de “arrancar o olho” e de “cortar a mão”, quando estes membros fossem causa de pecadov. Verificamos precedentemente que a legislação do Antigo Testamento, abundando embora em castigos caracterizados pela severidade, não contribuía, contudo, “para dar cumprimento à Lei”, porque a sua casuística estava assinalada por múltiplos compromissos com a concupiscência da carne. Cristo, pelo contrário, ensina que o mandamento se cumpre através da “pureza do coração”, que não é participada ao homem senão à custa de firmeza relativamente a tudo o que tem origem na concupiscência da carne. Adquire a “pureza de coração” quem sabe exigir coerentemente do seu “coração”: do seu “coração” e do seu “corpo”.

6. O mandamento “não cometerás adultério” encontra a sua justa motivação na indissolubilidade do matrimônio, em que o homem e a mulher, em virtude do original desígnio do Criador, se unem de modo que “os dois sejam uma só carne”vi. O adultério, por sua essência, contrasta com tal unidade, no sentido em que esta unidade corresponde à dignidade das pessoas. Cristo não só confirma este essencial significado ético do mandamento, mas tende a considerá-lo na profundidade mesma da pessoa humana. A nova dimensão do ethos está ligada sempre com a revelação daquele profundo, que é chamado “coração”, e com ficar ele liberto da “concupiscência”, de modo que naquele coração possa resplandecer mais plenamente o homem: varão e mulher, em toda a verdade interior do recíproco “para”. Liberto do constrangimento e da diminuição de espírito que a concupiscência da carne traz consigo, o ser humano —varão e mulher— encontra-se reciprocamente na liberdade do dom que é a condição de toda a convivência na verdade, e, em particular, na liberdade do recíproco dar-se, pois ambos, como marido e mulher, devem formar a unidade sacramental querida, como diz Gênesis 2, 24, pelo Criador mesmo.

7. Como é evidente, a exigência que no Sermão da Montanha Cristo impõe a todos os seus ouvintes atuais e potenciais, pertence ao espaço interior em que o homem —precisamente aquele que O ouve— deve discernir de novo a plenitude perdida da sua humanidade e querer readquiri-la. Esta plenitude na relação recíproca das pessoas —do homem e da mulher—, o Mestre reivindica-a em Mt 5, 27-28, tendo diante dos olhos sobretudo a indissolubilidade do matrimônio, mas também toda a outra forma de convivência dos homens e das mulheres, daquela convivência que forma a pura e simples trama da existência. A vida humana, por sua natureza, é “coeducativa”, e a sua dignidade e o seu equilíbrio dependem, em todo o momento da história e em todo o ponto de longitude e de latitude geográfica, de “quem” será ela para ele e ele para ela.

As palavras pronunciadas por Cristo no Sermão da Montanha têm indubitavelmente este alcance universal e ao mesmo tempo profundo. Só assim podem entender-se na boca d’Aquele que até ao âmago “conhecia o interior de cada um”vii, e, ao mesmo tempo, levava em si o mistério da “redenção do corpo”, como se exprimirá São Paulo. Devemos temer a severidade destas palavras ou antes ter confiança no seu conteúdo salvífico, no seu poder?

Seja como for, a análise feita das palavras pronunciadas por Cristo no Sermão da Montanha abre caminho para novas reflexões indispensáveis para se ter pleno conhecimento do homem “histórico”, e sobretudo do homem contemporâneo: da sua consciência e do seu “coração”.

iMt 5, 17.

iiMt 5, 27-28.

iii Cf. Mt 5, 8.

ivÊx 20, 17.

v Cf. Mt 5, 29-30.

vi Cf. Gn 2, 24.

viiJo 2, 25.

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