42ª. Construir o novo sentido ético através da descoberta dos valores – 01/10/1980

em Capítulo II | 0

1. Chegamos na nossa análise à terceira parte do enunciado de Cristo no Sermão da Montanhai. A primeira parte era: “Ouvistes que foi dito: Não cometerás adultério”. A segunda, “Eu, porém, digo-vos que todo aquele que olhar para uma mulher, desejando-a”, está gramaticalmente ligada à terceira, “já cometeu adultério com ela no seu coração”.

O método aqui aplicado, que é o de dividir, de “quebrar” o enunciado de Cristo em três partes, que se seguem, pode parecer artificioso. Todavia, quando procuramos o sentido ético do enunciado inteiro, na sua globalidade, pode ser útil precisamente a divisão do texto por nós usada, contanto que não seja aplicada só em modo disjuntivo, mas sim conjuntivo. É isto que projetamos fazer. Cada uma das partes distintas tem conteúdo e conotações que lhe são específicas, e é exatamente tudo o que desejamos pôr em relevo, mediante a divisão do texto; mas, ao mesmo tempo, observa-se que se explana cada uma das partes na relação direta com as outras. Isto refere-se em primeiro lugar aos mais importantes elementos semânticos, mediante os quais o enunciado constitui um conjunto. Eis aqui esses elementos: cometer adultério, desejar, cometer adultério no corpo e cometer adultério no coração. Seria particularmente difícil estabelecer o sentido ético do “desejar” sem o elemento indicado aqui como último, isto é, o “adultério no coração”. Já a análise precedente em certo grau tomou em consideração este elemento; todavia, uma compreensão mais plena do elemento “cometer adultério no coração” é possível só depois de uma análise especial.

2. Como já indicamos no princípio, trata-se aqui de estabelecer o sentido ético. O enunciado de Cristo, em Mt 5, 27-28, origina-se no mandamento “não cometerás adultério”, para mostrar como é preciso entendê-lo e pô-lo em prática para abundar nele a “justiça” que Deus-Javé como Legislador quis; para ela abundar em medida maior do que a resultante da interpretação e da casuística dos doutores do Antigo Testamento. Se as palavras de Cristo em tal sentido tendem para construir o novo ethos (e em base do mesmo mandamento), o caminho para isto passa através da nova descoberta dos valores, que na compreensão geral vétero-testamentária e na aplicação deste mandamento foram perdidos.

3. Deste ponto de vista, é significativa também a formulação do texto de Mateus 5, 27-28. O mandamento “não cometerás adultério” é formulado como proibição que exclui de modo categórico um mal moral determinado. É sabido que a Lei mesma (Decálogo), além da proibição “não cometerás adultério”, compreende também a proibição “não cobiçarás a mulher de teu próximo”ii. Cristo não torna vã uma proibição a respeito da outra. Embora fale do “desejo”, tende a uma clarificação mais profunda do “adultério”. É significativo que, depois de citar a proibição “não cometerás adultério”, como conhecida pelos ouvintes, em seguida, no decurso do seu enunciado, muda-lhe o estilo e a estrutura lógica, de normativa em narrativo-afirmativa. Quando diz “Todo aquele que olhar para uma mulher, desejando-a, já cometeu adultério com ela no seu coração”, descreve um fato interior, cuja realidade pode ser facilmente compreendida pelos ouvintes. Ao mesmo tempo, através do fato assim descrito e qualificado, indica como se deve entender e pôr em prática o mandamento “não cometerás adultério” a fim de levar à “justiça” querida pelo Legislador.

4. De tal modo, chegamos à expressão “cometeu adultério no coração”, expressão-chave, como parece, para entender o seu justo sentido ético. Esta expressão é, ao mesmo tempo, a fonte principal para revelar os valores essenciais do novo ethos: do ethos do Sermão da Montanha. Como acontece muitas vezes no Evangelho, também aqui encontramos certo paradoxo. Como, de fato, pode haver “adultério” sem se “cometer adultério”, isto é, sem o ato exterior, que permite reconhecer o ato proibido pela Lei? Vimos quanto se esforçou a casuística dos “doutores da Lei” em precisar este problema. Mas, também independentemente da casuística, parece evidente que o adultério pode ser reconhecido apenas “na carne”, isto é, quando os dois —o homem e a mulher—, que se unem entre si de maneira que se tornam uma só carneiii, não são cônjuges legais —marido e mulher. Que significado pode ter, portanto, o “adultério cometido no coração”? Não é esta, acaso, uma expressão só metafórica, usada pelo Mestre para realçar a pecaminosidade da concupiscência?

5. Se admitíssemos tal leitura semântica do enunciado de Cristoiv, seria necessário refletir profundamente sobre as conseqüências éticas que daí derivariam, isto é, sobre as conclusões acerca da regularidade ética do comportamento. O adultério dá-se quando o homem e a mulher, que se unem entre si de maneira que se tornam uma só carnev, isto é, no modo próprio dos cônjuges, não são cônjuges legais. O reconhecimento do adultério como pecado cometido “no corpo” está estreita e exclusivamente unido ao ato “exterior”, à convivência conjugal que se refere também ao estado das pessoas agentes, reconhecido pela sociedade. No caso em questão, este estado é impróprio e não autoriza a tal ato (daqui, precisamente, a denominação “adultério”).

6. Passando à segunda parte do enunciado de Cristo (isto é, àquilo em que principia a configurar-se o novo ethos) seria necessário entender a expressão “todo aquele que olhar para uma mulher desejando-a”, referida exclusivamente às pessoas segundo o seu estado civil, isto é, reconhecido pela sociedade, sejam ou não cônjuges. Aqui principiam a multiplicar-se as interrogações. Como não pode criar dúvidas indicar Cristo a pecaminosidade do ato interior da concupiscência —expressa através do olhar dirigido para toda a mulher que não seja a esposa daquele que para ela olha do modo dito—, portanto podemos e até devemos perguntar-nos se com a mesma expressão admite Cristo e comprova tal olhar tal ato interior da concupiscência, dirigido para a mulher que é esposa do homem, que assim olha para ela. Em favor da resposta afirmativa a tal pergunta parece estar a seguinte premissa lógica: no caso em questão, pode cometer o “adultério no coração” só o homem que é sujeito potencial do “adultério na carne”. Dado que este sujeito não pode ser o homem-marido quanto à própria mulher legítima, então o “adultério no coração” não pode referir-se a ele, mas pode atribuir-se como culpa a todo outro homem. Se é marido, não pode cometê-lo quanto à própria mulher. Ele só tem direito exclusivo de “desejar”, de “olhar com concupiscência” para a mulher que é sua esposa —e nunca se poderá dizer que por motivo de tal ato interior mereça ser acusado do “adultério cometido no coração”. Se, em virtude do matrimônio, tem o direito de “unir-se com sua mulher” de maneira que “os dois sejam uma só carne”, este ato não pode nunca ser chamado “adultério”; analogamente, não pode ser definido “adultério cometido no coração” de que trata o Sermão da Montanha.

7. Tal interpretação das palavras de Cristo em Mt 5, 27-28, parece corresponder à lógica do Decálogo, em que, além do mandamento “não cometerás adultério” (VI), há também o mandamento “não desejarás a mulher do teu próximo” (IX). Além disso, o raciocínio que foi feito em seu apoio tem todas as características da correção objetiva e da exatidão. Todavia, justamente permanece em dúvida se este raciocínio toma em conta todos os aspectos da revelação e também da teologia do corpo que devem ser considerados, sobretudo quando desejamos compreender as palavras de Cristo. Já vimos precedentemente qual é o “peso específico” desta locução, como são ricas as implicações antropológicas e teológicas da única frase em que apela Cristo para “a origem”vi. As implicações antropológicas do enunciado do Sermão da Montanha, em que apela Cristo para o coração humano, conferem, ao enunciado mesmo, também um “peso específico” próprio, e ao mesmo tempo determinam-lhe a coerência com o conjunto do ensinamento evangélico. Por isso, devemos admitir que a interpretação acima indicada, com toda a sua objetiva correção e precisão lógica, requer certo ampliamento e, sobretudo, aprofundamento. Devemos recordar-nos que o apelo ao coração humano, expresso talvez de modo paradoxalvii, provém d’Aquele que “conhecia o interior de cada um”viii. E se as suas palavras confirmam os mandamentos do Decálogo (não só o sexto, mas também o nono), ao mesmo tempo exprimem aquela ciência sobre o homem, que —segundo fizemos notar de outra vez— nos consente unir a consciência da pecaminosidade humana com a perspectiva da “redenção do corpo”ix. Precisamente tal ciência está na base do novo ethos, que deriva das palavras do Sermão da Montanha.

Tomando em consideração tudo isto, concluímos que, assim como, ao entender o “adultério na carne”, Cristo submete a crítica a interpretação errônea e unilateral do adultério que deriva de não-observância da monogamia (isto é, do matrimônio entendido como a aliança indefectível das pessoas), assim também ao entender o “adultério no coração”, Cristo considera não apenas o real estado jurídico do homem e da mulher em questão. Cristo faz depender a valorização moral do “desejo”, sobretudo da mesma dignidade pessoal do homem e da mulher; e isto tem a sua importância, seja quando se trata de pessoas não casadas, seja —e talvez mais ainda— quando são cônjuges, mulher e marido. Partindo deste ponto de vista, convir-nos-á completar a análise das palavras do Sermão da Montanha, e fá-lo-emos na próxima vez.

iMt 5, 27-28.

iiÊx 20, 14.17; Dt 5, 18.21.

iii Cf. Gn 2, 24.

ivMt 5, 27-28.

v Cf. Gn 2, 24.

vi Cf. Mt 19, 8.

viiMt 5, 27-28.

viiiJo 2, 25.

ix Cf. Rm 8, 23.

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