29ª. O homem com o seu corpo à luz da palavra de Deus – 04/06/1980

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1. Falando do nascimento da concupiscência no homem, com base no Livro do Gênesis, analisamos o significado original da vergonha, que aparece com o primeiro pecado. A análise da vergonha, à luz da narrativa bíblica, consente-nos compreender, ainda mais a fundo, o significado que ela tem para o conjunto das relações interpessoais homem-mulher. O capítulo terceiro do Gênesis demonstra sem qualquer dúvida ter aquela vergonha aparecido na relação recíproca do homem com a mulher e que tal relação, por causa da vergonha mesma, sofreu transformação radical. E como ela nasceu, nos corações de ambos, ao mesmo tempo que a concupiscência do corpo, a análise da vergonha original permite-nos igualmente examinar em que relação fica tal concupiscência a respeito da comunhão das pessoas que desde o princípio foi concedida e assinalada como missão ao homem e à mulher, por isso mesmo que foram criados “à imagem de Deus”. Por isso, a nova etapa do estudo sobre a concupiscência, que “ao princípio” se tinha manifestado por meio da vergonha do homem e da mulher segundo Gênesis 3, é a análise da insaciabilidade da união, isto é, da comunhão das pessoas, que devia ser expressa também pelos seus corpos, segundo a própria específica masculinidade e feminilidade.

2. Sobretudo, portanto, esta vergonha que, segundo a narração bíblica, leva o homem e a mulher a esconderem reciprocamente os próprios corpos e em especial a diferenciação sexual de ambos, confirma que se infringiu aquela capacidade original de comunicarem reciprocamente a si mesmos, de que fala Gênesis 2, 25. A radical mudança do significado da nudez original deixa-nos supor transformações negativas de toda a relação interpessoal homem-mulher. Aquela recíproca comunhão na humanidade mesma por meio do corpo e por meio da sua masculinidade e feminilidade, que tinha tão forte ressonância na passagem precedente da narrativa javistai, é neste momento perturbada: como se o corpo, na sua masculinidade e feminilidade, cessasse de constituir o “insuspeitável” substrato da comunhão das pessoas, como se a sua original função fosse “posta em dúvida” na consciência do homem e da mulher. Desaparecem a simplicidade e a “pureza” da experiência original, que facilitava singular plenitude no comunicar recíproco de ambos. Obviamente, os nossos primeiros pais não deixaram de comunicar reciprocamente, através do corpo e dos seus movimento, gestos e expressões; mas desapareceu a simples e direta comunhão mútua, relacionada com a experiência original da recíproca nudez. Quase de improviso, apareceu na consciência deles uma soleira intransponível, que limitava a originária “doação de si” ao outro, em plena confiança a tudo o que constituía a própria identidade e, ao mesmo tempo, diversidade, de um lado o feminino, do outro o masculino. A diversidade, ou seja, a diferença de sexos, masculino e feminino, foi de repente sentida e compreendida como elemento de recíproca contraposição de pessoas. Isto é atestado pela expressão concisa de Gênesis 3, 7: “reconheceram que estavam nus”, e pelo seu contexto imediato. Tudo isto faz parte também da análise da primeira vergonha. O Livro do Gênesis não só lhe descreve a origem no ser humano, mas consente também que se desvelem os seus graus em ambos, no homem e na mulher.

3. Encerrar-se a capacidade de uma plena comunhão recíproca, que se manifesta como pudor sexual, consente-nos entender melhor o valor original do significado unificante do corpo. Não se pode, de fato, compreender de outro modo aquele encerrar-se respectivo, ou seja, a verdade, senão em relação com o significado que o corpo, na sua feminilidade e masculinidade, tinha anteriormente para o homem no estado de inocência original. Aquele significado unificante entende-se não só a respeito da unidade, que o homem e a mulher, como cônjuges, deviam constituir, tornando-se “uma só carne”ii através do ato conjugal, mas também com referência à mesma “comunhão das pessoas”, que fora a dimensão própria da existência do homem e da mulher no mistério da criação. O corpo na sua masculinidade e feminilidade constituía o “substrato” peculiar de tal comunhão pessoal. O pudor sexual, de que trata Gênesis 3, 7, atesta a perda da original certeza de o corpo humano, através da sua masculinidade e feminilidade, ser aquele mesmo “substrato” da comunhão das pessoas, que “simplesmente” a exprimia e servia para a sua realização (e assim também para o aperfeiçoamento da “imagem de Deus” no mundo visível). Este estado de consciência de ambos tem fortes repercussões no contexto seguinte de Gênesis 3, de que em breve nos ocuparemos. Se o homem, depois do pecado original, tinha perdido por assim dizer o sentido da imagem de Deus em si, isto manifestou-se com a vergonha do corpoiii. Aquela vergonha, invadindo a relação homem-mulher na sua totalidade, manifestou-se com o desequilíbrio do significado original da unidade corpórea, isto é, do corpo como “substrato” peculiar da comunhão das pessoas. Como se o aspecto pessoal da masculinidade e feminilidade, que primeiro punha em evidência o significado do corpo para uma plena comunhão das pessoas, cedesse o lugar apenas à sensação da “sexualidade” a respeito do outro ser humano. E como se a sexualidade se tornasse “obstáculo” na relação pessoal do homem com a mulher. Ocultando-a reciprocamente, segundo Gênesis 3, 7, ambos a exprimem quase por instinto.

4. Esta é, a um tempo, como a “segunda” descoberta do sexo, que na narração bíblica difere radicalmente da primeira. Todo o contexto da narrativa comprova que esta nova descoberta distingue entre o homem “histórico” da concupiscência (mais, da tríplice concupiscência) e o homem da inocência original. Em que relação se coloca a concupiscência, e em particular a concupiscência da carne, a respeito da comunhão das pessoas, tendo como medianeiro o corpo, da sua masculinidade e feminilidade, isto é, a respeito da comunhão assinalada, “desde o princípio”, ao homem pelo Criador? Eis a interrogação que devemos apresentar-nos, exatamente quanto “ao princípio”, acerca da experiência da vergonha, à qual se refere a narrativa bíblica. A vergonha, como já observamos, manifesta-se na narração de Gênesis 3 como sintoma da separação do homem quanto ao amor, de que era participante no mistério da criação segundo a expressão joanina: o que “vem do Pai”. “Aquilo que está no mundo”, isto é a concupiscência, traz consigo uma quase constitutiva dificuldade de identificação com o próprio corpo; e não só no âmbito da própria subjetividade, mas, ainda mais, a respeito da subjetividade do outro ser humano: da mulher para o homem, do homem para a mulher.

5. Daqui a necessidade de esconder-se diante do “outro” com o próprio corpo, com aquilo que determina a própria feminilidade/masculinidade. Esta necessidade demonstra a carência fundamental de confiança, o que de per si indica o desabar da original relação “de comunhão”. Precisamente o respeito à subjetividade do outro, e ao mesmo tempo à própria subjetividade, suscitou nesta nova situação, isto é, no contexto da concupiscência, a exigência da ocultação, de que fala Gênesis 3, 7.

E precisamente aqui nos parece descobrir de novo um significado mais profundo do pudor “sexual” e também o pleno significado daquele fenômeno, a que se refere o texto bíblico para revelar o confim entre o homem da inocência original e o homem “histórico” da concupiscência. O texto integral de Gênesis 3 fornece-nos elementos para definir a dimensão mais profunda da vergonha; mas isto exige análise à parte. Iniciá-la-emos na próxima reflexão.

i Cfr. Gn 2, 23-25.

iiGn 2, 24.

iii Cfr. especialmente Gn 3, 10-11.

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