25ª. O conteúdo ético e antropológico do mandamento «Não cometerás adultério» – 25/04/1980

em Capítulo II | 0

1. Recordamos as palavras do Sermão da Montanha, a que fazemos referência no presente ciclo das nossas reflexões de quarta-feira: “Ouvistes —diz o Senhor— o que foi dito: Não cometerás adultério. Eu, porém, digo-vos que todo aquele que olhar para uma mulher, desejando-a, já cometeu adultério com ela no seu coração”i.

O homem, a quem Jesus se refere aqui, é precisamente o homem “histórico”, aquele de quem encontramos o “princípio” e a “pré-história teológica” na precedente série de análises. Diretamente, é aquele que escuta, com os próprios ouvidos, o Sermão da Montanha. Mas, com ele, está também cada um dos outros homens, colocado frente àquele momento da história, quer no imenso espaço do passado, quer no, igualmente vasto, do futuro. A este “futuro”, frente ao Sermão da Montanha, pertence também o nosso presente, a nossa contemporaneidade. Este homem é, em certo sentido, “cada” homem, “cada um” de nós. Tanto o homem do passado como o homem do futuro pode ser aquele que conhece o mandamento positivo “não cometerás adultério” como “conteúdo da Lei”ii, mas pode ser igualmente aquele que, segundo a Epístola aos Romanos, tem este mandamento apenas “escrito no (seu) coração”iii1. À luz das reflexões precedentemente desenvolvidas, é o homem que, desde o seu “princípio” adquiriu um sentido preciso do significado do corpo, já antes de transpor “o limiar” das suas experiências históricas, no próprio mistério da criação, dado ter sido criado “como homem e mulher”iv. É o homem histórico que, no “princípio” do seu destino terreno, se encontrou “dentro” do conhecimento do bem e do mal, desfazendo a Aliança com o seu Criador. É o homem-varão que “conheceu (a mulher) sua esposa” e a “conheceu” diversas vezes, e ela “concebeu e deu à luz”v em conformidade com o desígnio do Criador, que remontava ao estado da inocência originalvi.

2. No seu Sermão da Montanha, Cristo dirige-se, de modo particular com as palavras de Mt 5, 27-28, precisamente àquele homem. Dirige-se ao homem de um determinado momento da história e, ao mesmo tempo, a todos os homens, pertencentes à mesma história humana. Dirige-se, como já verificamos, ao homem “interior”. As palavras de Cristo têm um explícito conteúdo antropológico; referem-se àqueles significados perenes, através dos quais é constituída a antropologia “adequada”. Estas palavras, mediante o seu conteúdo ético, constituem, simultaneamente uma tal antropologia e exigem por assim dizer, que o homem entre na sua plena imagem. O homem que é “carne” e que, como varão, permanece em relação, através do seu corpo e sexo, com a mulher (é isto, de fato, o que indica também a expressão “não cometerás adultério”), deve, à luz destas palavras de Cristo, reencontrar-se no seu íntimo, no seu “coração”2. O “coração” é esta dimensão da humanidade, com que está ligado diretamente o sentido do significado do corpo humano, e a ordem deste sentido. Trata-se aqui, quer daquele significado que, nas precedentes análises, chamamos “esponsal”, quer daquele que denominamos “gerador”. E de que ordem se trata?

3. Esta parte das nossas considerações deve dar uma resposta precisamente a tal pergunta —uma resposta que chegue não só às razões éticas, mas também às antropológicas; estas, de fato, permanecem em relação recíproca. Por agora, preliminarmente, é necessário estabelecer o significado do texto de Mt 5, 27-28, o significado das expressões nele usadas e a sua relação recíproca. O adultério, ao qual se refere diretamente o citado mandamento, significa a infração da unidade, mediante a qual o homem e a mulher, apenas como cônjuges, podem unir-se tão intimamente de modo a serem “uma só carne”vii. Comete adultério o homem que se une deste modo com uma mulher que não é sua esposa. Comete adultério também a mulher que deste modo se une com um homem que não é seu marido. É necessário deduzir disto que “o adultério do coração”, cometido pelo homem quando “olha para uma mulher, desejando-a”, significa um ato interior bem definido. Trata-se de um desejo que, neste caso, é dirigido pelo homem para uma mulher que não é sua esposa, com a intenção de se unir com ela como se o fosse, isto é —usando mais uma vez as palavras do Gn 2, 24— como se “os dois fossem uma só carne”. Este desejo, como ato interior, exprime-se mediante o sentido da vista, isto é, com o olhar, como no caso de Davi e Betsabea, para nos servirmos de um exemplo tirado da Bíbliaviii3. A relação do desejo com o sentido da vista foi particularmente salientada nas palavras de Cristo.

4. Estas palavras não explicam claramente se a mulher —objeto do desejo— é esposa de outro ou se, simplesmente, não é esposa do homem que olha para ela desse modo. Pode ser esposa de outro, ou também não estar ligada pelo matrimônio. É necessário antes intuí-lo, baseando-se, de modo especial, na expressão que, precisamente, define como adultério aquilo que o homem cometeu “no seu coração” com o olhar. É preciso deduzir corretamente daí que um tal olhar de desejo dirigido para a própria esposa não é adultério “no coração”, justamente porque o relativo ato interior do homem se refere à mulher que é sua esposa, em relação à qual o adultério não pode verificar-se. Se o ato conjugal como ato exterior —em que “os dois se unem de tal modo que se tornam uma só carne”, é lícito na relação do homem em questão, com a mulher que é sua esposa, de modo análogo é conforme com a ética também o ato interior na mesma relação.

5. Contudo aquele desejo, indicado pela expressão sobre “todo aquele que olhar para uma mulher, desejando-a”, tem uma própria dimensão bíblica e teológica, que não podemos deixar de esclarecer aqui. Mesmo que tal dimensão se não manifeste diretamente nesta única e concreta expressão de Mt 5, 27-28, todavia está profundamente radicada no contexto global, que se refere à revelação do corpo. Devemos remontar a este contexto, para que a chamada de atenção de Cristo “para o coração”, para o homem interior, ressoe em toda a plenitude da sua verdade. O citado texto do Sermão da Montanhaix tem fundamentalmente um caráter indicativo. O fato de Cristo se dirigir diretamente ao homem como àquele que “olha para uma mulher, desejando-a”, não quer dizer que as suas palavras, no próprio sentido ético, não se dirijam também à mulher. Cristo exprime-se deste modo para explicar com um exemplo concreto que é necessário compreender “o cumprimento da Lei”, segundo o significado que lhe deu Deus-Legislador, e, além disso, que é necessário entender aquele “superabundar da justiça” no homem, que observa o sexto mandamento do Decálogo. Falando deste modo, Cristo quer que não nos detenhamos sobre o exemplo em si mesmo, mas que penetremos também no pleno sentido ético e antropológico do texto. Se ele tem caráter indicativo, significa que, seguindo as suas pegadas, podemos chegar a compreender a verdade geral sobre o homem “histórico”, válida também para a teologia do corpo. As ulteriores etapas das nossas reflexões terão a finalidade de se aproximarem da compreensão desta verdade.

1 Deste modo, o conteúdo das nossas reflexões seria transposto, em certo sentido, para o campo da “lei natural”. As palavras citadas da Epístola aos Romanos (2, 15) foram sempre consideradas, na revelação, como fonte de confirmação para a existência da lei natural. Assim, o conceito da lei natural adquire também um significado teológico.

Cfr., entre outros, D. Composta, Teologia del diritto naturale, status quaestionis, Brescia 1972 (Ed. Civiltà), pp. 7-22, 41-53; J. Fuchs S.J., Lex naturae. Zur Theologie des Naturrechts, Düsseldorf 1955, pp. 22-30; E. Hamel S.J., Loi naturelle et loi du Christ, Bruges-Paris 1964 (Desclée de Brouwer) p. 18; A. Sacchi, “La legge naturale nella Biblia” in: La legge naturale. Le relazioni del Convegnho dei teologi moralisti dell’Italia settentrionale (11-13 setembro 1969), Bolonha 1970 (Ed. Dehoniane), p. 53; F. Böckle, “La legge naturale e la legge cristiana”, ivi, pp. 214-215; A Feuillet, “Le fondement de la morale ancienne et chrétienne d’après L’Epître aux Romains”, Revue Thomiste 78 (1970) 357-386; Th. Herr, Naturrecht aus der kritischen Sicht des Neuen Testaments, München 1976 (Schöningh) pp. 155-164.

2 “The typically Hebraic usage reflexted in the New Testament implies an understanding of man as unity of thought, will and feeling. (…) It depicts man as a whole, viewed from his intentionality; the heart as the center of man is thought of as source of will, emotion, thoughts and affections.

This traditional Judaic conception was related by Paul to Hellenistic categories, such as “mind”, “attitude”, “thoughts” and “desires”. Such a co-ordination between the Jucai an Hellenistic categories is found in Ph. 1, 7; 4, 7; Rom 1, 21.24, where “heart” is thought of as center from which these things flow” (R. Jewett, Paul’s Anthropological Terms. A Study of their Use in Conflict Settings, Leiden 1971, Brill, p. 448).

“Der Herz… ist die verborgene, inwendige Mitte und Wurzel des Menschen und demit seiner Welt…, der unergrúndliche Grund und die lebendige Kraft aller Daseinserfahrung und —entscheidung” (H. Schlier, Das Menschenherz nach dem Apostel Paulus, in: Lebendiges Zeugnis, 1965, p. 123).

Cfr. também F. Baumgärtel – J. Behm, “Kardía”, in: Theologisches Wörterbuch zum Neuen Testament, II, Stuttgart 1933 (Kohlhammer), pp. 609-616.

3 Talvez este seja o mais conhecido; mas na Bíblia podem encontrar-se outros exemplos semelhantes (cfr. Gn 34, 2; Jz 14, 1; 16, 1).

iMt 5, 27-28.

ii Cfr. Rm 2, 22-23.

iiiRm 2, 15.

ivGn 1, 27.

v Cfr. Gn 4, 12.

vi Cfr. Gn 1, 28; 2, 24.

viiGn 2, 24.

viii Cfr. 2Sm 11, 2.

ixMt 5, 27-28

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