23ª. Os interrogativos sobre o matrimônio na visão integral do homem – 02/04/1980

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1. O Evangelho segundo Mateus e o Evangelho segundo Marcos apresentam-nos a resposta dada por Cristo aos fariseus, quando eles O interrogaram acerca da indissolubilidade do matrimônio, referindo-se à lei de Moisés que admitia, em certos casos, a prática do chamado libelo de repúdio. Recordando-lhes os primeiros capítulos do Livro do Gênesis, Cristo respondeu: “Não lestes que o Criador, desde o princípio, fê-los homem e mulher e disse: ‘Por isso, o homem deixará o pai e a mãe, e se unirá à sua mulher, e serão os dois uma só carne? Portanto, já não são dois, mas uma só carne. Pois bem, o que Deus uniu, não o separe o homem'”. Depois, referindo-se à pergunta deles sobre a lei de Moisés, Cristo acrescentou: Por causa da dureza do vosso coração, Moisés permitiu que repudiásseis as vossas mulheres; mas ao princípio não foi assimi. Na sua resposta Cristo referiu-se duas vezes ao “princípio”, pelo que também nós, no decurso das nossas análises, procuramos esclarecer do modo mais profundo possível o significado desse “princípio”, que é a primeira herança de cada ser humano no mundo, homem e mulher, primeira certidão da identidade humana segundo a palavra revelada, primeira fonte da certeza da sua vocação como pessoa criada à imagem do próprio Deus.

2. A resposta de Cristo tem um significado histórico —mas não apenas histórico. Os homens de todos os tempos fazem esta interrogação sobre o mesmo tema. Fazem-na também os nossos contemporâneos que, porém, nas suas perguntas não se referem à lei de Moisés, que admitia o libelo de repúdio, mas a outras circunstâncias e leis. Estas suas interrogações estão carregadas de problemas, desconhecidos aos interlocutores do tempo de Cristo. Sabemos as perguntas a propósito do matrimônio e da família que foram dirigidas no último Concílio, ao Papa Paulo VI, e que são continuamente formuladas no período pós-conciliar, dia a dia, nas mais diversas circunstâncias. Formulam-nas as pessoas individualmente, casais, noivos, jovens, e também escritores, jornalistas, políticos, economistas, demógrafos, enfim —a cultura e a civilização contemporânea.

Penso que entre as respostas que Cristo daria aos homens do nosso tempo e às suas interrogações, muitas vezes tão impacientes, seria ainda fundamental a que deu aos fariseus. Respondendo àquelas interrogações, Cristo referir-se-ia, antes de mais, ao “princípio”. Fá-lo-ia talvez de modo ainda mais decidido e essencial, dado que a situação interior e, ao mesmo tempo, cultural do homem de hoje parece afastar-se daquele “princípio” e assumir formas e dimensões que divergem da imagem bíblica do “princípio” em pontos evidentemente cada vez mais distantes.

Todavia, Cristo não ficaria “surpreendido” com nenhuma destas situações, e suponho que continuaria a referir-se sobretudo ao “princípio”.

3. É por isto que a resposta de Cristo exigia uma análise particularmente profunda. De fato, naquela resposta foram recordadas verdades fundamentais e elementares sobre o ser humano, como homem e mulher. É a resposta através da qual entrevemos a própria estrutura da identidade humana nas dimensões do mistério da criação e, ao mesmo tempo, na perspectiva do mistério da redenção. Sem isto não se pode construir uma antropologia teológica e, no seu contexto, uma “teologia do corpo”, da qual tenha origem também a visão, plenamente cristã, do matrimônio e da família. Isto foi salientado por Paulo VI, quando na sua encíclica dedicada aos problemas do matrimônio e da procriação, no seu significado humana e cristãmente responsável, se referiu à “visão integral do homem”ii. Pode-se dizer que, na resposta aos fariseus, Cristo revelou aos interlocutores também esta “visão integral do homem”, sem a qual não pode ser dada nenhuma resposta adequada às interrogações relacionadas com o matrimônio e com a procriação. Precisamente esta visão integral do homem deve ser construída desde o “princípio”.

Isto é igualmente válido para a mentalidade contemporânea, tal como o era, se bem que de modo diferente, para os interlocutores de Cristo. Com efeito, somos filhos de uma época em que, para o desenvolvimento de várias disciplinas, esta visão integral do homem pode ser facilmente rejeitada e substituída por múltiplas concepções parciais que, detendo-se sobre um ou outro aspecto do compositum humanum, não atingem o integrum do homem, ou deixam-no fora do próprio campo visual. Nelas, inserem-se diversas tendências culturais que —baseadas nestas verdades parciais— formulam as suas propostas e indicações práticas sobre o comportamento humano e, ainda com maior freqüência, sobre como comportar-se com o “homem”. O homem torna-se, então, mais um objeto de determinadas técnicas do que sujeito responsável da própria ação. A resposta dada por Cristo aos fariseus quer também que o homem, varão e mulher, seja esse sujeito, isto é, um sujeito que decida as próprias ações à luz da verdade integral sobre si mesmo, enquanto verdade original, ou seja, fundamento das experiências autenticamente humanas. É esta a verdade que Cristo nos faz haurir do “princípio”. Referimo-nos assim aos primeiros capítulos do Livro do Gênesis.

4. O estudo destes capítulos, talvez mais do que o de outros, torna-nos conscientes do significado e da necessidade da “teologia do corpo”. O “princípio” diz-nos relativamente pouco sobre o corpo humano, no sentido naturalista e contemporâneo da palavra. Sob este ponto de vista encontramo-nos, no presente estudo, a um nível totalmente pré-científico. Não sabemos quase nada sobre as estruturas internas e sobre os métodos que regulam o organismo humano. Todavia, ao mesmo tempo —talvez precisamente devido à antigüidade do texto— a verdade importante para a visão integral do homem revela-se de modo mais simples e pleno. Esta verdade diz respeito ao significado do corpo humano na estrutura do sujeito pessoal. Em seguida, a reflexão sobre estes textos arcaicos permite-nos estender esse significado a toda a esfera da intersubjetividade humana, em especial na permanente relação homem-mulher. Graças a isto, adquirimos, a respeito desta relação, uma ótica que devemos necessariamente colocar na base de toda a ciência contemporânea acerca da sexualidade humana, em sentido biofisiológico. Isto não quer dizer que devemos renunciar a esta ciência ou privar-nos dos seus resultados. Pelo contrário: se eles devem servir para nos ensinar alguma coisa sobre a educação do homem, na sua masculinidade e feminilidade e sobre a esfera do matrimônio e da procriação, é necessário —através de cada um dos elementos da ciência contemporânea— chegar sempre ao que é fundamental e essencialmente pessoal, tanto em cada indivíduo —homem ou mulher— como nas suas relações recíprocas.

E é precisamente neste ponto que a reflexão sobre o arcaico texto do Gênesis se revela insubstituível. Ele constitui realmente o “princípio” da teologia do corpo. O fato de a teologia compreender também o corpo não deve maravilhar nem surpreender ninguém que seja consciente do mistério e da realidade da Encarnação. Pelo fato de o Verbo de Deus se ter feito carne, o corpo entrou, eu diria, pela porta principal da teologia, isto é, na ciência que tem por objeto a divindade. A encarnação —e a redenção que dela provém— tornou-se também a fonte definitiva da sacramentalidade do matrimônio de que, em tempo oportuno, trataremos mais amplamente.

5. As interrogações feitas pelo homem contemporâneo são também as dos cristãos: daqueles que se preparam para o Sacramento do Matrimônio ou daqueles que já contraíram o matrimônio, que é o sacramento da Igreja. Estas não são apenas as perguntas das ciências mas, mais ainda, as perguntas da vida humana. Muitos homens e muitos cristãos procuram no matrimônio a realização da própria vocação. Muitos querem encontrar nele o caminho da salvação e da santidade.

Para eles é particularmente importante a resposta dada por Cristo aos fariseus, zeladores do Antigo Testamento. Aqueles que procuram a realização da própria vocação humana e cristã no matrimônio são chamados, antes de mais, a fazer desta “teologia do corpo”, cujo “princípio” encontramos nos primeiros capítulos do livro do Gênesis, o conteúdo da própria vida e do próprio comportamento. Com efeito, quanto é indispensável, no caminho desta vocação, a profunda consciência do significado do corpo, na sua masculinidade e feminilidade! quanto é necessária uma precisa consciência do significado esponsal do corpo, do seu significado gerador —dado que tudo isto, que forma o conteúdo da vida dos esposos, deve encontrar constantemente a sua dimensão plena e pessoal na convivência, no comportamento e nos sentimentos! E isto, ainda mais no contexto de uma civilização que permanece sob a pressão de um modo de pensar e de julgar materialista e utilitário. A biofisiologia contemporânea pode oferecer muitas informações precisas sobre a sexualidade humana. Todavia, o conhecimento da dignidade pessoal do corpo humano e do sexo, pode ser obtido ainda noutras fontes. Uma fonte particular é a palavra do próprio Deus, que contém a revelação do corpo, a que remonta ao “princípio”.

Quanto é significativo que Cristo, na resposta a todas estas perguntas, ordene ao homem que retorne, de certo modo, ao início da sua história teológica! Ordena-lhe que se coloque no limite entre a inocência-felicidade original e a herança da primeira queda. Porventura não lhe quererá dizer, deste modo, que o caminho por onde Ele conduz o homem, varão e mulher, no Sacramento do Matrimônio, isto é o caminho da “redenção do corpo”, deve consistir em recuperar esta dignidade em que se realiza, simultaneamente, o verdadeiro significado do corpo humano, o seu significado pessoal e “de comunhão”?

6. Terminemos, por ora, a primeira parte das nossas meditações dedicadas a este tema tão importante. Para dar uma resposta mais completa às nossas perguntas, por vezes ansiosas, sobre o matrimônio —ou ainda mais exatamente: sobre o significado do corpo— não podemos deter-nos apenas sobre aquilo que Cristo respondeu aos fariseus, fazendo referência ao “princípio”iii. Devemos tomar também em consideração todas as suas outras afirmações, entre as quais sobressaem, de modo especial, duas, de caráter particularmente sintético: a primeira, do Sermão da Montanha, a propósito das possibilidades do coração humano em relação a concupiscência do corpoiv, e a segunda, quando Jesus se referiu à ressurreição futurav. Pensamos fazer destes dois enunciados o objeto das nossas ulteriores reflexões.

iMt 19, 3ss.; Mc 12, 2ss.

iiHumanae vitae, 7.

iii Cfr. Mt 19, 3ss.; Mc 10, 2ss.

iv Cfr. Mt 5, 8.

v Cfr. Mt 22, 24-30; Mc 12, 18-27; Lc 20, 27-36.

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