20ª. O Significado bíblico do conhecimento na convivência matrimonial – 05/03/1980

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1. Ao conjunto das nossas análises, dedicadas ao “princípio” bíblico, desejamos acrescentar ainda uma breve passagem, tirada do capítulo 4º do Livro do Gênesis. Tendo essa intenção, é necessário todavia referirmo-nos às palavras pronunciadas por Jesus Cristo na conversa com os fariseusi1, à volta das quais se desenvolvem as nossas reflexões; estas referem-se ao contexto da existência humana, segundo o qual a morte e a conseqüente destruição do corpo (expresso pelo “em pó te hás-de tornar” de Gn 3, 19) se transformaram em sorte comum do homem. Cristo refere-se ao “princípio”, à dimensão original do mistério da criação, quando esta dimensão já tinha sido violada pelo mysterium iniquitatis, isto é pelo pecado e, ao mesmo tempo que por este, também pela morte: mysterium mortis. O pecado e a morte entraram na história do homem, em certo modo através do coração mesmo daquela unidade, que “desde o princípio” era formada pelo homem e pela mulher, criados e chamados a tornarem-se uma só carneii. Já no princípio das nossas meditações verificamos que, apelando para o princípio, Cristo nos conduz, em certo sentido, além do limite da pecabilidade hereditária do homem até à sua inocência original; e permite-nos assim encontrar a continuidade e o nexo existentes entre estas duas situações, mediante as quais se produziu o drama das origens e também a revelação do mistério do homem ao homem histórico.

Isto autoriza-nos, por assim dizer, a passar, depois das análises relativas ao estado da inocência original, à última destas, isto é, à análise do “conhecimento e da geração”. Como tema, ela está intimamente ligada à bênção da fecundidade, inscrita na primeira narrativa da criação do homem, como varão e mulheriii. Historicamente, porém, está já inserida naquele horizonte de pecado e de morte que, segundo ensina o Livro do Gênesisiv, gravou na consciência o significado do corpo humano, juntamente com a infração da primeira aliança com o Criador.

2. Em Gênesis 4, e portanto ainda no âmbito do texto javista, lemos: Adão uniu-se a Eva, sua mulher. Ela concebeu e deu à luz Caim, e disse: “Gerei um homem com o auxílio do Senhor”. A seguir, deu também à luz Abel v. Se ligamos ao “conhecimento” aquele primeiro fato do nascimento de um homem na terra, fazemo-lo com base na tradução literal do texto, segundo o qual a “união” conjugal é definida precisamente como “conhecimento”. De fato, a tradução citada soa assim: “Adão uniu-se a Eva, sua mulher”, quando à letra se deveria traduzir: “conheceu sua mulher”, o que parece corresponder mais adequadamente ao termo semita jadac2. Pode-se ver nisto um sinal de pobreza da língua arcaica, a que faltavam várias expressões para definir fatos diferenciados. Apesar disso, não deixa de ter significado que a situação, em que marido e mulher se unem tão intimamente entre si que formam “uma só carne” tenha sido definida como “conhecimento”. Deste modo, na verdade, é da pobreza mesma da linguagem que parece deduzir-se uma profundidade específica de significado, que deriva precisamente de todos os significados até agora analisados.

3. Evidentemente, isto é também importante quanto ao “arquétipo” do nosso modo de representar o homem corpóreo, a sua masculinidade e a sua feminilidade, e portanto o seu sexo. Assim, com efeito, por meio do termo “conhecimento”, usado em Gn 4, 1-2 e muitas vezes na Bíblia, a relação conjugal do homem e da mulher, isto é o fato de se tornarem, mediante a dualidade do sexo, uma “só carne”, foi elevada e introduzida na dimensão específica das pessoas. Gênesis 4, 1-2 fala só do “conhecimento” da mulher por parte do homem, como para sublinhar sobretudo a atividade deste último. Pode-se, contudo, falar também da reciprocidade deste “conhecimento”, em que comunicam o homem e a mulher o seu corpo e o seu sexo. Acrescentemos que uma série de sucessivos textos bíblicos, como aliás o próprio capítulo do Gênesisvi, falam a mesma linguagem. Isto mesmo nas palavras pronunciadas por Maria de Nazaré na Anunciação: Como será isto, se eu não conheço homem?vii.

4. Assim, com aquele bíblico “conheceu”, que aparece a primeira vez em Gênesis 4, 1-2, por um lado encontramo-nos diante da direta expressão da intencionalidade humana (porque é própria do conhecimento) e, por outro, de toda a realidade da convivência e da união conjugal, em que o homem e a mulher se tornam “uma só carne”.

Falando aqui a Bíblia de “conhecimento”, seja embora devido à pobreza da língua, indica a essência mais profunda da realidade da convivência matrimonial. Esta essência aparece como elemento e ao mesmo tempo como resultado daqueles significados, cujos vestígios procuramos seguir desde o princípio do nosso estudo; eles fazem, na verdade, parte da consciência do significado do corpo mesmo. Em Gênesis 4, 1, tornando-se “uma só carne”, o homem e a mulher experimentam de modo especial o significado do próprio corpo. Juntos tornam-se, deste modo, quase o sujeito único daquele ato e daquela experiência, se bem que permaneçam, nesta unidade, dois sujeitos realmente diversos. Isto autoriza-nos, em certo sentido, a afirmar que “o marido conhece a mulher” ou que ambos “se conhecem” reciprocamente. Então eles revelam-se um à outra, com aquela específica profundidade do próprio “eu” humano, que por sinal se revela também mediante os sexos, masculinidade e feminilidade. E então, de maneira singular, a mulher “é dada” de modo cognoscitivo ao homem e ele a ela.

5. Se devemos manter a continuidade com as análises até agora feitas (particularmente com as últimas, que interpretam o homem na dimensão do dom), urge observar que, segundo o Livro do Gênesis, datum e donum se eqüivalem.

Todavia, Gênesis 4, 1-2 acentua sobretudo o datum. No “conhecimento” conjugal, a mulher “é dada” ao homem e ele a ela, porque o corpo e o sexo entram diretamente na estrutura e no conteúdo mesmo deste “conhecimento”. Assim pois, a realidade da união conjugal, em que o homem e a mulher se tornam “uma só carne”, contém em si uma descoberta nova e, em certo sentido, definitiva do significado do corpo humano na sua masculinidade e feminilidade. Mas, a propósito desta descoberta, será justo falar unicamente de “convivência sexual”? É necessário reparar que ambos eles, homem e mulher, não são apenas objeto passivo, definido pelo próprio corpo e sexo e deste modo determinado “pela natureza”. Ao contrário, exatamente por serem homem e mulher, cada um é dado ao outro como sujeito único e irrepetível, como “eu”, como pessoa. O sexo decide não só da individualidade somática do homem, mas define ao mesmo tempo a sua pessoal identidade e determinação. E precisamente nesta pessoal identidade e determinação, como irrepetível “eu” feminino-masculino, o homem é “conhecido” quando se verificam as palavras de Gênesis 2, 24: O homem… unir-se-á à sua mulher; e os dois serão uma só carne. O “conhecimento”, de que falam Gênesis 4, 1-2 e todos os outros textos bíblicos que vêm depois, chega às mais íntimas raízes desta identidade e determinação, que o homem e a mulher devem ao próprio sexo. Determinação significa tanto a unicidade como a irrepetibilidade da pessoa.

Valia, por conseguinte, a pena refletirmos sobre a eloqüência do texto bíblico citado e da palavra “conhecimento”; não obstante a falta de precisão terminológica, esta passagem permite determo-nos na profundidade de um conceito, de que a nossa linguagem contemporânea, por muito precisa que seja, freqüentemente nos priva.

1 É preciso atender a que, na conversa com os fariseus (Mt 19, 7-9; Mc 10, 4-6), Cristo toma posição quanto ao cumprimento da lei mosaica a respeito do chamado “libelo de repúdio”. As palavras “por causa da dureza do vosso coração”, pronunciadas por Cristo, refletem não só “a história dos corações”, mas ainda toda a complexidade da lei positiva do Antigo Testamento, que sempre buscava o “compromisso humano” neste campo tão delicado.

2 “Conhecer” (jadac), na linguagem bíblica, não significa só conhecimento meramente intelectual, mas também experiência concreta, como por exemplo a experiência do sofrimento (cfr. Is 53, 3), do pecado (Sb 3, 13), da guerra e da paz (Jz 3, 1; Is 59, 8). Desta experiência deriva também o juízo moral: “conhecimento do bem e do mal” (Gn 2, 9-17).

O “conhecimento” entra no campo das relações interpessoais, quando diz respeito à solidariedade de família (Dt 33, 9) e especialmente às relações conjugais. Mesmo em referência ao ato conjugal, o termo sublinha a paternidade de ilustres personalidades e a origem da prole das mesmas (cfr. Gn 4, 1.25; 4, 17; 1Sm 1, 19), como dados de importância para a genealogia, a que a tradição dos sacerdotes (hereditários em Israel) dava grande importância.

O “conhecimento” podia todavia significar também todas as outras relações sexuais, mesmo as ilícitas (cfr. Nm 31, 17; Gn 19, 5; Jz 19, 22).

Na forma negativa, o verbo denota a abstenção das relações sexuais, especialmente tratando-se de virgens (cfr., por exemplo, 1Rs 2, 4; Jz 11, 39). Neste campo, o Novo Testamento usa dois hebraísmos, falando de José (Mt 1, 20) e de Maria (Lc 1, 34).

Significado especial adquire o aspecto da relação existencial do “conhecimento”, quando o sujeito ou o objeto dele é o próprio Deus (por exemplo, Sl 139; Jr 31, 34; Os 2, 22; e também Jo 14, 7-9; 17-3).

i Cfr. Mt 19 e Mc 10.

iiGn 2, 24.

iiiGn 1, 27-28.

ivGn 3.

vGn 4, 1-2.

vi Cfr. por exemplo Gn 4, 17; 4, 25.

viiLc 1, 34.

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