14ª. A revelação e a descoberta do significado esponsal do corpo – 09/01/1980

1. Enquanto relemos e analisamos a segunda narrativa da criação, ou seja, o texto Javista, devemos nos perguntar se o primeiro “homem” (ʾāḏām), em sua solidão original, “vivia” o mundo verdadeiramente como um dom, com uma atitude que condiz com a condição atual de alguém que tenha recebido um dom (um presente), como se pode concluir da narrativa de Gênesis 1. A segunda narrativa, de fato, nos mostra o homem no jardim do Éden (ver Gen 2, 8); mas devemos observar que, embora o homem existisse nessa situação de felicidade original, o próprio Criador (Deus-Javé), e depois o próprio “homem”, enfatizam que o homem está “só”, em vez de sublinhar o aspecto do mundo como um dom subjetivamente beatífico criado para o homem (ver a primeira narrativa e especialmente Gen 1, 26-29). Já analisamos o significado da solidão original; agora, entretanto, é necessário notar que pela primeira vez aparece claramente uma falta daquilo que é bom, “Não é bom que o homem” (macho) “esteja sozinho”, diz Deus-Javé, “quero fazer-lhe um auxílio…” (Gen 2, 18). A mesma coisa é afirmada pelo primeiro “homem”: ele, também, depois de se tornar completamente consciente de sua própria solidão entre todos os seres vivos da terra, espera “um auxílio que lhe seja similar” (ver Gen 2, 20). Nenhum desses seres (animalia), de fato, oferece ao homem as condições básicas que tornam possível o existir em uma relação de dom recíproco.

O dom – mistério de um princípio beatífico

2. Desse modo, então, essas duas expressões, ou seja, o adjetivo “sozinho” e o substantivo “auxílio”, parecem verdadeiramente ser a chave para compreender a essência do dom ao nível do ser humano, enquanto conteúdo existencial inscrito na verdade da “imagem de Deus”. De fato, o dom revela, pode-se dizer, uma particular característica da existência pessoal, ou mesmo da própria essência da pessoa. Quando Deus-Javé diz, “Não é bom que o homem esteja sozinho” (Gen 2, 28), ele afirma que, “sozinho”, o homem não realiza completamente sua essência. Ele a realiza apenas existindo “com alguém” – e, colocado ainda mais profundamente e completamente, existindo “para alguém”. Essa norma do existir enquanto pessoa é demonstrada no Gênesis como uma característica da criação precisamente através do significado dessas duas palavras, “sozinho”, e “auxílio”. Elas apontam o quão fundamental e constitutivo é para o homem o relacionamento e a comunhão de pessoas. Comunhão de pessoas significa viver em um recíproco “para”, em um relacionamento de dom recíproco. E esse relacionamento é precisamente a consumação da solidão original do “homem”.

3. Em sua origem, tal consumação é beatífica. Indubitavelmente, está implícita na solidão original do homem, e constitui precisamente a felicidade que pertence ao mistério da criação feita por amor, ou seja, pertence à essência mesma da doação (entrega) criadora. Quando o homem “macho”, desperto de seu sono, no Gênesis, diz, “Agora sim, esta é carne da minha carne e osso dos meus ossos” (Gen 2, 23), essas palavras de algum modo expressam o princípio subjetivamente beatífico da existência do homem no mundo. Na medida em que essa expressão de júbilo foi observada no “princípio”, ela confirma o processo da individuação do homem no mundo, e nasce, pode-se dizer, da profundidade mesma de sua solidão humana, que ele vive como pessoa à face de todas as outras criaturas e de todos os seres vivos (animalia). Esse “princípio”, também, pertence, portanto, a uma antropologia adequada, e pode sempre ser verificado com base nessa antropologia. Essa verificação puramente antropológica nos leva, ao mesmo tempo, ao tópico da “pessoa”, e ao tópico do “corpo/sexo”.

Essa simultaneidade é essencial. De fato, se lidamos com o sexo sem a pessoa, isso destruiria toda a adequação da antropologia que encontramos em Gênesis. Ainda mais, para nosso estudo teológico, obscureceria a luz essencial da revelação do corpo, que brilha através dessas primeiras sentenças com grande plenitude.

4. Há uma forte ligação entre o mistério da criação, enquanto dom que flui do Amor, e aquele “princípio” beatífico da existência do ser humano como homem e mulher, na verdade plena de seus corpos e de seus sexos, que é a verdade simples e pura da comunhão entre as pessoas. Quando o primeiro homem exclama, ao ver a mulher, “ela é carne da minha carne e osso dos meus ossos” (Gen 2, 23), ele simplesmente afirma a identidade humana de ambos. Ao exclamar isso, ele parece dizer, Olhe, um corpo que expressa a “pessoa”! Seguindo uma passagem anterior do texto Javista, pode-se dizer também que esse “corpo” revela a “alma vivente”, que o homem se tornou quando Deus-Javé soprou a vida nele (ver Gen 2, 7). Sua solidão ante todos os outros seres vivos começou em virtude desse ato. Exatamente através da profundidade daquela solidão original, o homem agora emerge na dimensão do dom recíproco, cuja expressão – por esse mesmo fato a expressão de sua existência enquanto pessoa – é o corpo humano em toda a verdade original de sua masculinidade e feminilidade. O corpo, que expressa a feminilidade “para” a masculinidade, e vice-versa, a masculinidade “para” a feminilidade, manifesta a reciprocidade e a comunhão de pessoas. Ele as expressa através do dom enquanto característica fundamental da existência pessoal. Este é o corpo: uma testemunha da criação enquanto dom fundamental, e portanto uma testemunha do Amor como fonte de onde flui esse mesmo dom. A masculinidade-feminilidade – ou seja, o sexo – é um sinal original de uma doação criadora, e ao mesmo o sinal de um dom, do qual o homem, macho-fêmea, se torna consciente enquanto dom vivido, pode-se dizer, de modo original. Esse é o significado com o qual o sexo entra na teologia do corpo.

Descoberta do Significado “Esponsal” do Corpo

5. Esse “princípio” beatífico do ser e existir do homem enquanto macho e fêmea está ligado à revelação e à descoberta do significado do corpo, um significado que é corretamente chamado “esponsal”. Se falamos de revelação junto com descoberta, o fazemos com referência à especificidade do texto Javista, no qual a linha condutora teológica é também antropológica, ou melhor ainda, aparece como uma certa realidade que é conscientemente vivida pelo homem. Já observamos que depois das palavras expressando o primeiro júbilo da vinda à existência do homem enquanto “macho e fêmea” (Gen 2, 23), segue o versículo que estabelece sua unidade conjugal (Gen 2, 24), e então outro versículo que atesta a nudez de ambos sem a vergonha recíproca (Gen 2, 25). O fato desses versículos se seguirem um ao outro de forma tão significativa nos permite falar em revelação junto com a descoberta do significado “esponsal” do corpo no mistério da criação. Esse significado (na medida em que é revelado e também “vivido” conscientemente pelo homem) confirma completamente o fato de que a doação criadora, que flui do Amor, atingiu a consciência original do homem quando nele se tornou uma experiência de dom recíproco, como se pode ver já no texto arcaico. Uma testemunha desse fato parece ser também – talvez mesmo de modo muito específico – aquela nudez de ambos os nossos primeiros pais, livres da vergonha.

6. Gênesis 2, 24 fala sobre o ordenamento da masculinidade e feminilidade do ser humano para uma finalidade, na vida dos esposos-pais. Unidos tão intimamente um com o outro a ponto de se tornar “uma só carne”, eles colocam sua humanidade de algum modo sob a bênção da fecundidade, ou seja, da “procriação”, da qual fala a primeira narrativa (Gen 1, 28). O homem vem “à existência” com a consciência de que sua própria masculinidade-feminilidade, ou seja, sua própria sexualidade, está ordenada para uma finalidade. Ao mesmo tempo, as palavras de Gênesis 2, 25, “Estavam ambos nus, o homem e sua esposa, mas não sentiam vergonha”, parecem adicionar a essa verdade fundamental do significado do corpo humano, de sua masculinidade e feminilidade, uma outra verdade que não é, de modo algum, menos essencial e fundamental. Consciente do poder procriador de seu próprio corpo e de seu próprio sexo, o ser humano é, ao mesmo tempo, livre do “constrangimento” de seu próprio corpo e de seu próprio sexo.

A nudez recíproca original, que ao mesmo tempo não era obscurecida pela vergonha, expressa tal liberdade interior no ser humano. Seria essa liberdade uma liberdade (ausência) do “impulso sexual”? O conceito de “impulso” já implica um constrangimento intrínseco, análogo ao instinto que estimula a fecundidade e a procriação em todo o mundo dos seres vivos (animalia). Parece, entretanto, que ambos os textos de Gênesis, a primeira e a segunda narrativa da criação do homem, conectam suficientemente a perspectiva da procriação com a característica fundamental da existência humana no sentido pessoal. Consequentemente, a analogia do corpo humano e do sexo com relação ao mundo dos animais – que podemos chamar analogia “da natureza” – é, em ambas as narrativas (embora de modos diferentes) também levantada de algum modo ao nível da “imagem de Deus” e ao nível da pessoa e da comunhão entre pessoas.

A esse problema essencial teremos que devotar nossas futuras análises. Para a consciência do homem – e também para a consciência do homem contemporâneo – é importante saber que nos textos bíblicos que falam do “princípio” do ser humano pode-se encontrar a revelação do “significado esponsal do corpo”. Entretanto, é ainda mais importante estabelecer o que esse significado propriamente expressa.

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