Ano da Fé 2012: uma introdução

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Ano da Fé 2012: uma introdução*

(Professor Ricardino Lasadier)*

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Em 11 de outubro de 2011 o Santo Padre Bento XVI presenteou a Igreja e o mundo com uma carta apostólica: Porta Fidei. Por este documento, o papa anuncia o ano da fé. E todos somos convidados a vivenciar intensamente este tempo. Mas para que possamos atender a convocação de Bento XVI de maneira adequada precisamos compreender o que é o ano da fé, em que consiste, qual a urgência desse tempo de graça e etc. Desse modo poderemos viver melhor esse período.

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Iniciamos procurando entender as motivações da proclamação de um ano da fé. Cremos que o Santo Padre Bento XVI, assistido pelo Espírito Santo, percebeu que vivemos uma crise de fé. Muitos são os batizados, poucos os verdadeiramente catequizados.       Será que podemos provar que isso é verdade? Será que não estamos exagerando? Na intenção de responder essas dúvidas, propomos que seja realizada uma pesquisa simples entre batizados. Que se pergunte: qual é o fundamento de sua fé? Por qual razão você é católico e não de outra religião? Recordemos que tais perguntas, de certo modo, procuram colocar em evidência a firme recomendação da São Pedro: “Estai sempre prontos a responder para vossa defesa a todo aquele que vos pedir a razão de vossa esperança, mas fazei-o com suavidade e respeito (Pd 3,15). Observemos bem! São Pedro  esta dizendo que devemos estar prontos para nos defender, defendendo nossa esperança, ou seja, apresentando as razões de nossa fé, pois, a fé é o fundamento da esperança. Não devemos agredir ninguém, porém, precisamos apresentar  a verdade com respeito.

Há uma área na teologia que tem por objetivo apresentar os fundamentos da fé e defende-la. Essa área é denominada apologética. Podemos dizer São Pedro esta pedindo para que estejamos prontos para desenvolvermos uma apologética qualificada, mas para isso é preciso, no mínimo, uma boa formação catequética que forneça ao católico uma sólida consciência de sua fé. Para isso não basta rezar, é preciso refletir, estudar. A fé precisa da razão!

Lamentavelmente a grande verdade é que muitos não sabem o que é ser católico, não conhecem a sua fé. Certamente esse estado de ignorância intelectual e espiritual que assola os católicos motivou Bento XVI a proclamar um ano de fé. Esse estado resulta em uma vida cristã medíocre.  Tantas pessoas afirmam ter fé, mas não sabem o que é ter fé. Várias pessoas afirma ser católicas, mas não sabem o que significa ser católico. Diversas pessoas se dizem católicas, mas não vivem de acordo com a moral de Deus ensinada pela Igreja. Assim, o ano da fé nos é proposto como tempo adequado para descobrirmos e afirmamos nossa identidade como católicos.

 

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O Santo padre Bento XVI (cf. Pf, 1), diz que pela fé  temos uma vida de comunhão com Deus e com sua Igreja.  E é o anúncio da Palavra que nos coloca no limiar da porta da fé, ou seja, a fé vem pela pregação, pelo anúncio da palavra. É isso que a Igreja se dedica desde sua fundação realizada pelo próprio Jesus (cf. Mt 16, 16-20).

Crescer na fé na fé, se aprofundar na trilha da fé é uma tarefa que acontece durante toda a vida. Todos nós recebemos o dom da fé no Batismo. Foi lá que nossa caminhada de fé teve início, pois, foi mediante o Batismo que nos tornamos filhos adotivos de Deus que é Amor e por isso é Trindade: um único Deus em Três Pessoas que eternamente se amam. Três Pessoas que são um único Amor.

Parece não ser claro, mas a fé que professamos é a fé nesse Deus Uno e Trino. Ao professarmos a fé na Trindade, estamos professando a fé num só Deus que é Amor.

Nos últimos tempos, por causa de uma mentalidade predominantemente materialista, laicista, de uma espiritualidade hibrida e relativista; nossa fé vem ficando aparentemente ofuscada. Para a mentalidade moderna a fé virou um produto de supermercado. Aliás, não é incomum encontrarmos verdadeiros supermercados da fé e lamentavelmente também não é incomum encontrarmos boa quantidade de pessoas que se dizem católicas frequentar esses “supermercados”.

Diante desses acontecimentos, o papa diz que é necessário redescobrirmos o autentico caminho da fé. Essa redescoberta é muito importante visto que coloca em evidência a alegria do encontro com Cristo. Ninguém encontra Jesus verdadeiramente desprezando a fé. A fé é condição indispensável para que possam encontrar a Deus.

Outro aspecto que o Papa chama a atenção e que prejudica a descoberta e, logicamente, o crescimento na fé é uma distorção muito comum em nossos dias, a saber: que os cristãos se ocupam com as consequências da fé e não com a fé propriamente dita, isto é, há quem se detenha no que é periférico e não dê a devida atenção ao que é essencial. Há quem se ocupe da fé levando em conta os aspectos culturais, sociais, políticos; porém, não se detêm na fé propriamente dita. Aqueles que concebem a fé dessa maneira esvaziam-na e ela se torna como um corpo sem alma.

Bento XVI recomenda que precisamos readquirir “o gosto de nos alimentarmos da Palavra de Deus, transmitida fielmente pela Igreja, e do Pão da vida, oferecidos como sustento de quantos são seus discípulos”(Pf, 3).

Após ter apresentado uma breve análise de certos aspectos importantes do mundo em que vivemos Bento XVI diz ter decidido proclamar um ano da fé, que – como dissemos – inicia em 11 de outubro de 2012 e se encerrará em 24 de novembro de 2013 com a festa de Cristo Rei.

Lembremos que esta não é a primeira vez que a Igreja celebra um ano da fé. Bento XVI recorda que o Papa “Paulo VI, proclamou um ano semelhante, em 1967, para comemorar o martírio dos apóstolos Pedro e Paulo, no decimo nono centenário do seu supremo testemunho” (Pf, 4). Bento XVI explica que Paulo VI, ao propor um ano da fé, queria que os católicos, dentre outras coisas, reavivassem e retomassem a consciência de sua fé. Segundo Bento XVI, Paulo VI percebeu a necessidade do ano da fé de 1967 como uma exigência do período pós-concílio. Foi um tempo em que, devido a várias interpretações inadequadas do Concílio, o povo católico perdeu a clareza de profissão de fé, sobre a natureza da Igreja, dos dogmas e muitas outras coisas.

Havia a ala progressista que absolutizava certos enfoques do Vaticano II desprezando toda a grande Tradição da Igreja. Havia os tradicionalistas que se prendiam a aspectos não essenciais da Igreja rejeitando tudo o que fosse moderno. Este grupo demonizou o Vaticano II, aquele grupo absolutizou o Vaticano II a ponto de considera-lo maior do que os outros vinte concílios e maior do que a própria Igreja em seu Magistério e Tradição. Tudo isso somado a vários acontecimentos culturais e históricos ocorridos no período provocaram uma grande confusão no interior da Igreja, entre católicos em geral que perdiam a consciência de sua catolicidade. Pois bem, foi diante dessa realidade que Paulo VI proclamou o ano da fé de 1967.

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Tudo isso indica que Bento XVI percebe que vivemos tempos turbulentos e nesses tempos, católicos estão perdendo a consciência de sua identidade, de sua história, de sua fé. Diante de tudo isso um ano da fé se faz necessariamente  urgente.

A data de abertura para o início do ano da fé escolhida pelo Santo Padre é deveras significativa. Em 11 de outubro de 2012 estaremos celebrando 50 anos de Concílio Vaticano II e também 20 anos da Publicação do Catecismo da Igreja Católica.

Mas, por qual motivo o Papa desejou proclamar o ano da fé fazendo-o coincidir com o cinquentenário do Concílio Vaticano II e com os 20 no do CIC ? O que Bento XVI quer nos dizer com isso?  Cito as palavras do Santo Padre: “Sinto hoje ainda mais intensamente o dever de indicar o concílio como a grande graça de que se beneficiou a Igreja no século XX: nele se encontra uma bússola segura para nos orientar no caminho do século que começa” (Pf, 7, p.8).

O Papa chama o Concílio de bússola segura e isso significa que, se escutarmos, se aprendermos os ensinamento do Vaticano II não erraremos o caminho da fé e da vivência cristã. No entanto, há um detalhe importante: o Vaticano II deve ser adequadamente interpretado, compreendido, caso contrário, nos perderemos. É o que Bento XVI denomina “justa hermenêutica”. Como indicamos anteriormente – quando falamos do ano da fé proclamado por Paulo VI (1967) – muitas foram as interpretações que surgiram sobre o Concilio Vaticano II. Algumas interpretações eram exageradamente progressistas, outras eram tradicionalista em demasia.

Na concepção de Bento XVI, o Concílio deve ser compreendido no bojo da grande Tradição da Igreja, isso que dizer que deve ser interpretado de modo conservador. Isto é, há elementos na Igreja, em nossa fé que não podemos nos desvencilharmos, que não podemos abrir mão caso fizéssemos isso perderíamos a identidade da nossa  fé católica, una, santa e apostólica. Por outro lado há elementos que não são essenciais e que podemos aceitar certas transformações.

Exemplo de algo que pode ser adaptado, mudado: sabemos que a primeira missa celebrada na história da Igreja foi presidida por Jesus em pessoa na Quinta Feira Santa, quando Ele instituiu a Eucaristia. Certamente a língua que Ele falou foi o hebraico ou o aramaico. Também as primeiras missas celebradas pelos apóstolos eram provavelmente nessas línguas. Ainda no tempo apostólico, em função da expansão da Igreja e do Evangelho para além das fronteiras de Israel, as celebrações passaram a acontecer em língua grega. Com o passar do tempo a Igreja adotou o latim. No Concílio Vaticano II, foi decidido que as missas poderiam ser celebradas na língua de cada povo. O latim não foi banido, continua a ser importante e permanece como língua oficial, tanto que nas grandes celebrações internacionais presididas pelo Papa a língua usada é o latim. Não ficou proibido rezar a missa em latim, entretanto, isso não é um dogma, logo, como podemos perceber houve certas variações na história da Igreja.

Há elementos, no entanto que não podem ser modificados. Alguns exemplos: a Igreja, desde os tempos apostólicos sempre acreditou na presença real de Cristo na Eucaristia. A Igreja sempre acreditou desde os tempos apostólicos que para o Senhor se fazer presente corporalmente no pão e no vinho é necessário um ministro ordenado. A Igreja sempre acreditou desde os tempos apostólicos que Nosso Senhor ressuscitou verdadeiramente, realmente. A Igreja sempre acreditou desde os tempos apostólicos que Matrimônio verdadeiro, segundo os planos de Deus só pode acontecer entre um homem e uma mulher. Tais elementos (outros mais) a Igreja não pode renunciar, por isso ela os conserva no depósito da fé.

Um tradicionalista diria: “nada pode ser mudado. Só vale missa se for em latim”.

Um progressista falaria: “tudo pode ser mudado, logo, não precisamos de ministros ordenados. A Eucaristia é apenas um símbolo. A ressurreição de Cristo foi é simbólica e o que vive realmente é a mensagem de Cristo na comunidade. Deus é amor por isso ele aceitaria que pessoas do mesmo sexo contraíssem Matrimônio”.

Alguém que seja realmente católico dirá: “há elementos que são essenciais e que não podemos renunciar; mas há elementos que podem ser importantes, mas não são essenciais, por isso é possível certas adaptações”. Este último, é conservador, é católico.

O Romano Pontífice ao falar da hermenêutica da continuidade para compreender o Concílio Vaticano II, esta indicando que precisamos ser conservadores, isto é, católicos.

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Todos os domingos professamos a fé ao participarmos da missa, quando recitamos publicamente o  Credo. Mas quantos de nós sabemos, somos conscientes do que estamos declarando publicamente?

O Santo Padre diz que devemos crescer no conteúdo de nossa fé, conhecendo cada ponto do Credo. Disse Bento XVI em uma catequese realizada em 17 de outubro de 2012: “Sobretudo é importante que o Credo seja, por assim dizer, “reconhecido”. Conhecer, de fato, poderia ser uma operação somente intelectual, enquanto “reconhecer” quer significar a necessidade de descobrir a ligação profunda entre a verdade que professamos no Credo e a nossa existência cotidiana, para que esta verdade seja verdadeiramente e concretamente – como sempre foi – luz para os passos do nosso viver, água que irriga o calor do nosso caminho, vida que vence certos desertos da vida contemporânea.  No Credo se enxerta a vida moral do cristão, que nesse encontra o seu fundamento e a sua justificativa”.

O instrumento indispensável para conhecer e cresce na fé é o Catecismo da Igreja Católica (CIC) que Bento XVI diz ser um fruto do Concílio Vaticano II. Assim, o CIC deve ser estudado. No CIC, diz o Papa, “sobressai a riqueza de doutrina que a Igreja acolheu, guardou e ofereceu durante os seus dois mil anos de história. Desde a Sagrada Escritura aos Padres da Igreja, desde os mestres de teologia aos santos que atravessaram os séculos, o Catecismo oferece uma memória permanente dos inúmeros modos pelos quais a Igreja meditou sobre a fé e progrediu na doutrina para dar certeza aos crentes na sua vida de fé” (Pf, 11).

Apenas para entendermos brevemente como foi gerado o CIC, observemos uma sucinta introdução.

O atual CIC tem a gênese de sua elaboração ligada ao Concílio Vaticano II (11/10/1962 a 07/12/1965, iniciado por João XXIII e concluído por Paulo VI). Segundo Pe. Hélio Lombardi (2006, p. 7) o atual CIC foi elaborado a partir de um desejo que estava, de certo modo, enraizado no Vaticano II. No ano de 1985 o Concílio Vaticano II estava completando 20 anos e por ocasião desse aniversário, o Romano Pontífice João Paulo II convocou a “Assembléia Extraordinária do Sínodo dos Bispos”, com o objetivo de celebrar os frutos do citado concílio, bem como sua graças. Esse Sínodo também buscaria promover um melhor conhecimento do Vaticano II. No decorrer do sínodo, os Bispos manifestaram o desejo de que fosse elaborado um novo catecismo da Doutrina Católica. Esse Catecismo deveria servir como referência segura e fundamental para o conhecimento das verdades da fé, bem como para as questões de cunho moral. O desejo dos Bispos veio ao encontro ao anseio do Papa. Então, o Santo Padre, entendeu como necessário à Igreja a elaboração de um novo Catecismo. Esta tarefa foi confiada a uma comissão de Bispos e especialistas chefiada pelo Cardeal Joseph Ratzinger (Bento XVI).

 

É importante notar que o CIC é fruto da Colegialidade Episcopal. Nesse sentido é correto afirmar que o CIC é testemunha da catolicidade da Igreja (cf. Fidei Depositum, in: CIC, p.p. 9, 10).

É lamentável, mas muitos católicos não conhecem a Igreja, não compreendem que ela é uma instituição nascida do coração do próprio Deus (Jo 19,34), fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo (que é Deus feito homem) em Pessoa (Mt 16,16-20). É um grande engano considerar a Igreja como um fenômeno meramente sociológico. Tal engano resulta da ignorância que infelizmente é comum a muitos. Apenas para que tenhamos uma ideia da importância da Igreja basta lembrar que São Paulo a denomina como coluna e fundamento da Verdade (cf 1Tm 3, 15), ou seja, sem a Igreja, a Verdade neste mundo fica sem sustentação, fica sem alicerce. Daí a necessidade de conhecermos a SÃ DOUTRINA, de estudarmos e meditarmos o CIC. Pelo CIC conhecemos a Doutrina de Cristo, conhecemos a Sua Igreja, conhecemos a Verdade que é Nosso Senhor.

O ano da fé é uma oportunidade que Deus, por sua Igreja, nos concede de crescermos no amor pela Igreja conhecendo a Doutrina. O ano da fé é um tempo de muitas graças que não podemos desperdiçar. Certamente uma graça (se não a maior) que o ano da fé nos trará é a consciência de nossa identidade católica, do amor pela Igreja Esposa de Cristo,  Corpo Místico de Cristo. E isso implica em conhecermos a Igreja.

Iniciamos nossa simples reflexão com uma exortação de são Pedro e terminamos com uma breve consideração sobre uma exortação de São Paulo confirmada pelo Catecismo. Paulo diz que Deus “deseja que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade”(1Tm 2,4). Salvação e conhecimento da verdade estão interligados. É o que a Igreja nos ensina: “Deus quer a salvação de todos pelo conhecimento da verdade. A salvação esta na verdade. Os que obedecem a moção do Espírito de verdade já estão no caminho da salvação; mas a Igreja, a quem esta verdade foi confiada, deve ir ao encontro do seu anseio, levando-lhes a mesma verdade ”(CIC,851). Eis, portanto, no ano da fé a Igreja trazendo a verdade que, toda pessoa em geral e o católico em particular, tanto necessita. Que cada um assuma a sua responsabilidade na resposta que concederá.

*Síntese da palestra realizada na livraria Paulus 

*Professor Ricardino Lassadier é graduado (Bacharel e Licenciado) em Filosofia(UFPa). Especialista em Filosofia (UFPa) e Teologia (CESUPa). Leciona no IRFP(Instituto Regional para Formação Presbiteral) e na Rede Pública Estadual, é ministrante de cursos no CCFC(Centro de Cultura e Formação Cristã da Arquidiocese de Belém). 

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