Problemas na tradução da Teologia do Corpo

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Por Michael Waldstein, no livro “Man and Woman He Created Them”.

(As partes em vermelho foram acrescentadas por mim, na tradução para o português.)

As traduções de documentos papais no jornal do Vaticano, o L’Osservatore Romano (OR) são excelentes, e possuem um status quase oficial (A edição atualmente disponível em português segue a tradução do OR). No caso da Teologia do Corpo, entretanto, os tradutores do OR tinham diante de si uma tarefa que ia muito além do normal. Em questão de dificuldade, a Teologia do Corpo excede em muito as outras catequeses tradicionais das quartas-feiras pronunciadas por Paulo VI e João Paulo I. Mesmo dentre as catequeses de João Paulo II, a Teologia do Corpo figura em lugar muito mais alto que as outras em questão de dificuldade (1) .

As circunstâncias sob as quais a primeira tradução para língua inglesa (2) teve que ser feita foram difíceis. Logo depois de cada catequese pronunciada (em italiano), nas audiências de quarta-feira, cada catequese era enviada para o editorial de língua inglesa do OR para ser traduzida. Visto que os tradutores não tinham diante de si a obra completa do Papa, há muitos exemplos de tradução inconsistente. Por exemplo, o conceito-chave, “significato sponsale del corpo” (3) é traduzido de oito maneiras diferentes para o inglês:

1)      “nuptial meaning of the body (em português: “sentido nupcial do corpo”);

2)      “nuptial significance” (em português: “significância nupcial”);

3)      “matrimonial significance” (em português: “significância matrimonial”);

4)      “matrimonial meaning” (em português: “sentido matrimonial”);

5)      “conjugal meaning” (em português: “sentido conjugal”);

6)      “conjugal significance” (em português: “significância conjugal”);

7)      “spousal significance” (em português: “significância esponsal”);

8)      “spousal meaning” (em português: “sentido esponsal”).

Um leitor cuidadoso que estivesse estudando somente a partir da versão em inglês do OR poderia presumir que João Paulo II deliberadamente distinguia entre os significados das palavras nupcial, matrimonial, conjugal e esponsal; bem como com relação ao significado da presença do termo “do corpo”. Ele ficaria se perguntando o porquê dessas sutis distinções. Na verdade, no italiano é sempre “significato sponsale del corpo”, melhor traduzido como “spousal meaning of the body” (em português: “sentido esponsal do corpo”). Outras inconsistências similares podem ser vistas em muitos outros termos.

O tradutor (do italiano para inglês) do OR usou a versão “Revised Standard Version” (RSV) da Bíblia (em língua inglesa), e às vezes o “New American Bible” (Nova Bíblia Americana), e ambas diferem em muitos pontos da versão utilizada por João Paulo II, que foi a tradução oficial para o italiano publicada pela Conferência dos Bispos Italiana (CEI – Conferenza Episcopale Italiana). Por exemplo, (…) na tradução do OR, Jesus diz, “Everyone who looks at a woman lustfully has already commited adultery with her in his heart” (Mt 5,28) (Tradução literal para o português: “Todo aquele que olhar para uma mulher com luxúria já cometeu adultério com ela em seu coração”). A tradução italiana da CEI, muito mais próxima do original grego, diz: “chiunque guarda uma Donna per desiderarla”: (em inglês seria whoever looks at a woman to desire her) (traduzindo literal para o português: “quem olhar para uma mulher para desejá-la”). Essa diferença é importante (4). O desejo pode ser bom ou mau; a luxúria é um vício. No texto em italiano da Teologia do Corpo, a palavra “luxúria (lussuria)” aparece quatro vezes. A essas quatro vezes pode-se juntar seis aparições de “luxurioso” (do italiano “libidinoso”) e onze de “libido”, fazendo um total de vinte e uma aparições coerentes de “lust” (“luxúria”). Na tradução do OR (do italiano para o inglês) ao contrário, “lust” aparece 343 vezes. A principal razão para essa multiplicação excessiva do uso de “lust” (“luxúria”) parece dever-se à tradução RSV em inglês da Bíblia, que diz “looks lustfully” (em português seria: “olha com luxúria”). Quando João Paulo II discute as palavras de Jesus em detalhe e usa repetidamente a palavra “desire” (desejo) (do italiano “desiderare” ou “desiderio”) de acordo com a tradução da CEI (“olha para desejar”), a tradução do OR tenta preservar a conexão com o termo “lustfully” (com luxúria) presente na RSV, e muitas vezes traduz “desire” (desejo) como “lust” (luxúria). Ela multiplica o “lust” ainda mais usando essa palavra para traduzir a palavra italiana “concupiscenza”. Na verdade, concupiscência é um conceito mais amplo que luxúria. A concupiscência sexual é apenas um dos tipos de concupiscência. A multiplicação do uso de “lust” (luxúria) introduz um tom de pan-sexualismo que é estranho ao pensamento de João Paulo II. A fim de evitar dificuldades desse tipo, as citações da Bíblia em língua inglesa foram ajustadas à tradução italiana da CEI, sempre tendo em vista o original Hebreu ou Grego (isso na tradução para o inglês feita por Waldstein).

Resumindo, a tradução atualmente disponível em português se baseia na tradução do OR, que apresenta essas inconsistências. Ficamos felizes em informar que, para o Curso Virtual disponível neste site, a tradução foi completamente revisada tomando como base a tradução inglesa de Michael Waldstein, mantendo a consistência dos principais termos, e o sentido original dado pelo Papa, além de evitar dificuldades de compreensão do português de Portugal utilizado originalmente.

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Notas:

(1)   Dificuldades de cunho filosófico e teológico

(2)   Essa primeira tradução para a língua inglesa foi feita a partir do italiano, língua em que o Papa falava as catequeses. Lembremo-nos que o original foi escrito pelo Papa em polonês. Waldstein vai resgatar essa versão original, para traduzi-la direto para o inglês, razão porque sua tradução ficou mais consistente, pois não foi a “tradução da tradução”.

(3)   Termo em italiano que foi falado pelo Papa nas audiências.

(4)   O próprio Michael Waldstein ressalta a importância da distinção entre o “desejo”, que é em si bom, e o “desejo luxurioso”. Ele traduz: “Quem olha para uma mulher para desejá-la [de modo redutivo]…”… Ele introduz o termo entre colchetes: [de modo redutivo], a fim de ressaltar que trata-se do “desejo mau”, o desejo luxurioso. O próprio Michael Waldstein explica em sua note de rodapé:

“De acordo com João Paulo II, o desejo sexual e o prazer sexual são, em si mesmos, bons. O “desejo” em um sentido negativo surge quando um homem ou uma mulher falha em ver a atratividade completa da outra pessoa, e a reduz à atratividade somente do prazer sexual. É esse “ver-somente” o desejo sexual que dá luz ao vício da luxúria. No desejo luxurioso ou da concupiscência, uma pessoa vê a outra de modo reduzido, como simples meio para obtenção de prazer sexual. (…) A partir da compreensão de João Paulo II, para evitar a impressão de que Jesus condena o desejo sexual em si, inseri às vezes algumas palavras adjetivas entre colchetes junto à palavra desejo, como lembrete: desejo [com luxúria]; desejo [com concupiscência]; desejo [de modo redutivo].” (Michael Waldstein)

One Response

  1. André Amaral

    Muitos bom, amigos!
    Estas observações são extremamente relevantes e importantes!
    Abraços,
    André Amaral

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