Compreendendo o celibato através da Teologia do Corpo

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Por Pe. Kyle Schnippel

“E o que isso tem a ver com o sacerdócio, Padre?”

Enquanto Diretor Vocacional, eu gosto de pensar que posso ligar quase todos os assuntos ao sacerdócio, se eu tentar realmente; mas no diálogo citado, não precisei nem tentar, pois as ligações eram evidentes, basta triscar na superfície da matéria.

Nos primeiros anos de seu pontificado, o Papa João Paulo II proferiu uma série de catequeses nas audiências gerais das quartas-feiras, sobre o amor esponsal. Construídas a partir de suas reflexões sobre os primeiros capítulos do livro do Gênesis e refinadas durante suas viagens como jovem padre e bispo de Cracóvia, essas catequeses foram reunidas em uma série sistemática de teologia, conhecida de modo geral como Teologia do Corpo. Inovadoras no escopo de seu pensamento, essas catequeses estão começando uma revolução no pensamento católico, especialmente na nossa compreensão da teologia do matrimônio e do mútuo dom de si contido ali. A Teologia do Corpo, de João Paulo II, nos dá, de muitos modos, os fundamentos teológicos para a compreensão dos ensinamentos expressos na Encíclica Humanae Vitae, de 1968, do Papa Paulo VI.

Entrentato, devido ao largo alcance de tais ensinamentos, há também uma aplicação para a compreensão da Igreja acerca da teologia do sacerdócio, e um dos aspectos particulares do sacerdócio no rito latino: o celibato. Na verdade, João Paulo II fez toda uma seção de sua Teologia do Corpo sobre o celibato, pois ele via o amor esponsal e o celibato sacerdotal como complementares; o que levanta a questão de como esses assuntos aparentes opostos estão relacionados.

Para responder a essa questão, temos que voltar para a Humanae Vitae. Nesse documento sobre a regulação do nascimento dentro do matrimônio, Paulo VI tem como fundamento o reconhecimento de que toda pessoa é chamada a uma vida frutuosa, não importa sua vocação. Para as pessoas casadas, isso acontece, naturalmente, através da geração e criação dos filhos. Entretanto, alguns casais são incapazes de procriar, ou ainda passaram da idade normal de procriação; mas eles ainda assim são chamados a fazer frutificar a vida. Isso também se aplica a homens e mulheres solteiros, bem como àqueles chamados a um estado de vida consagrado pelo celibato: homens e mulheres religiosas, padres e bispos. As reflexões de João Paulo II na Teologia do Corpo ajudam cada um, de acordo com seu estado de vida, a reconhecer esse modo único com que Deus faz esse convite.

O que o Papa João Paulo II reconheceu foi que abraçar livremente uma vida de celibato não significa renegar a própria sexualidade, mas sim reconhecê-la como um aspecto essencial de uma entrega total de si para o Outro, por amor ao Reino dos Céus. E isso se torna a fonte da fecundidade sacerdotal, não em um sentido físico, mas em um sentido espiritual. Através dessa contínua oferta de si, ele pode gerar vida espiritual e nutrir seu povo, o qual, não por acidente, o chama de “padre” (pai).

Nossos termos não são acidentais, mas apontam para algo de significante. À medida que o Papa João Paulo II se aprofunda na teologia do amor esponsal, ele nos ajuda a esclarecer as conexões entre o amor esponsal e celibatário, como citado no Rito do Matrimônio: “O amor do marido e da mulher é modelado pelo, e simboliza, o amor de Cristo pela sua Igreja. Nisso, podemos ver o cumprimento do Concílio Vaticano II: ‘O homem… não pode se encontrar a não ser através de um sincero dom de si mesmo’” (Gaudium et spes 24).

Na grande sabedoria da Igreja, estudando o amor esponsal, aprendemos mais sobre o celibato sacerdotal enquanto complementar ao amor de marido e mulher. Nessa visão, o celibato sacerdotal não é mais visto como um peso imposto ao padre, mas como uma livre entrega de si por amor a seus irmãos e irmãs em Cristo, e os distintivos do amor cristão – fidelidade, fecundidade, e totalidade – são vistos como elementos constitutivos tanto da vida matrimonial quanto da vida celibatária.

Que maravilhoso dom Deus nos concedeu através desses ensinamentos.

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Pe. Kyle Schnippel é Diretor de Vocações da Diocese de Cincinnati, Ohio.

Traduzido de: http://catholicexchange.com/2011/01/28/146806/

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